segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Benefícios das fintechs superam os malefícios

Por O Globo

Competição aumentou, serviço melhorou e juro caiu, diz estudo do FMI. Mas é preciso regulação forte

Nos últimos tempos, as fintechs têm frequentado o noticiário mais pelos vícios que pelas virtudes. Normas brandas adotadas pelo Banco Central (BC) resultaram em consequências indesejadas. O crime organizado explorou brechas para usar as fintechs em atividades ilegais. Como elas não obedeciam às mesmas regras exigidas de bancos, houve aumento no risco sistêmico e questionamento sobre competição desleal. O próprio escândalo do Banco Master mostrou como o incentivo aos novos empreendedores financeiros pode engendrar problemas de proporções colossais. Mas é preciso saber pôr tudo isso na devida perspectiva. Vários estudos internacionais têm constatado efeitos positivos das fintechs no mercado de crédito brasileiro.

A entrada dos novos competidores no mercado local respondeu por queda de 2,7 pontos percentuais na média das taxas de juros cobradas por bancos em empréstimos, constatou relatório publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em janeiro, com base na análise do período entre 2018 e 2024. Além de reduzir o custo do dinheiro, a competição obrigou os grandes bancos e instituições financeiras a buscar mais eficiência.

A mudança no mercado de crédito foi consequência de uma política adotada pelo BC a partir da década passada para incentivar empresas financeiras novatas. Sucessivas resoluções permitiram a atuação totalmente digital, simplificaram procedimentos e exigências e estabeleceram um ambiente propício à inovação. Em pouco tempo, os tomadores de empréstimos de fintechs foram de zero a 60 milhões (40% da população adulta). Hoje, quatro dos dez maiores bancos digitais no mundo são brasileiros.

O fato de brasileiros serem entusiastas do celular e abertos a inovações tecnológicas pavimentou o caminho das fintechs. Para as novatas, eram evidentes os espaços a explorar. Quem dominava o mercado cobrava taxas exorbitantes nos empréstimos para cobrir despesas administrativas e garantir lucratividade alta. Explorando erros, negligências e lentidão dos grandes bancos, novatas como Nubank, Inter, C6 e Neon seduziram os clientes e expandiram seus negócios.

Os bancos tradicionais perderam clientes, mas mantiveram o tamanho de suas carteiras de empréstimos. Os segmentos explorados pelas fintechs — especialmente cartão de crédito e crédito ao consumidor — envolvem muitos clientes, mas valores pequenos. Para compensar a perda de clientes, diz o estudo do FMI, “os bancos comerciais aumentaram o valor médio dos empréstimos por cliente, reduzindo as taxas de juros e voltando suas operações aos clientes de maior valor”. Houve também esforço para reduzir despesas.

Não é coincidência o fechamento de agências, a ampliação dos serviços digitais e o surgimento de categorias destinadas ao público de alta renda. Nada disso evitou que a lucratividade caísse. De acordo com a análise do FMI, um aumento na exposição às fintechs levou, na maior parte dos casos, a uma redução de 3,6 pontos percentuais no retorno sobre o patrimônio líquido.

Houve também efeitos deletérios, com que as autoridades precisam lidar. Para preservar as conquistas valiosas da liberalização do sistema financeiro, deve ser prioridade o aperto na legislação e nos requisitos para operar no mercado, além do combate à criminalidade em todas as suas variantes.

Internação involuntária de drogados é aceitável em casos excepcionais

Por O Globo

Mais de 30% das capitais adotam a prática. É essencial que ela seja respaldada por protocolos científicos

O consumo de drogas por quem vive nas ruas é um problema quase intratável. No Brasil, passou a ser conhecido a partir do crescimento da Cracolândia, região no Centro de São Paulo onde chegou a haver entre 800 e 1.500 usuários. Não só em São Paulo, o consumo de drogas em espaços públicos preocupa prefeitos e governadores. As soluções recomendadas para o problema infelizmente jamais foram levadas a cabo de modo satisfatório. Não se trata de questão policial. A dificuldade está em oferecer atendimento médico e tratamento para que os dependentes possam se livrar do vício. Há obstáculos tanto para interná-los quanto para mantê-los internados. Daí a repetição, em sucessivos governos, de esvaziamento e retorno a áreas como a Cracolândia.

Mais cidades brasileiras têm adotado a internação involuntária, ou compulsória, dos dependentes de drogas. Cerca de 30% das capitais a praticam em algum nível, ou o tema está em discussão no Legislativo, revelou O GLOBO. A medida é aceita em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Maceió, Distrito Federal, Curitiba, Florianópolis,Niterói, Sorocaba, Chapecó, Blumenau, Criciúma e Balneário Camboriú.

A internação compulsória sempre foi criticada como violação de direitos individuais incapaz de dar conta do problema no médio prazo. Mas em certos casos pode se justificar. Mudanças na Lei de Drogas e resoluções do Conselho Federal de Medicina deram respaldo a que parentes, responsáveis, servidores públicos de saúde, assistência social ou órgão de segurança solicitem a internação sem consentimento em situações excepcionais. A restrição de liberdade deve ser pelo menor tempo possível. É preciso informar em até 72 horas órgãos de controle como o Ministério Público (MP).

A aplicação das normas ainda alimenta debates. É indispensável que o MP monitore os centros de recolhimento para que sejam de fato centros de reabilitação, e não depósitos de gente. É essencial haver protocolos sustentados em conhecimento científico para tratar da questão. Além de atentarem contra a própria vida, os dependentes podem representar risco à segurança. É nesse contexto que a internação involuntária pode fazer sentido, sem desprezar a ressocialização desses pacientes. Uma mulher apareceu em reportagem do GLOBO sendo internada nas ruas de Curitiba, depois de ter sido abordada 175 vezes desde 2018. A cidade adotou em dezembro o protocolo de internação compulsória. Pode ser que agora ela tenha maior chance de receber tratamento contínuo.

Está claro que, mesmo que seja necessária ação da polícia no combate ao tráfico que alimenta as cracolândias pelo país, dissolvê-las pode significar apenas espalhar o problema a outras áreas. A própria Cracolândia paulistana não é mais a mesma. Ações policiais, sociais e urbanísticas, coordenadas entre prefeitura e governo estadual, começaram a mudar o local. Mas os usuários de drogas se espalharam. Sem a capacidade de oferecer tratamento para todos de forma contínua e estruturada, será impossível resolver o problema.

PT finge ser oposição ao culpar BC por erros do governo

Por Folha de S. Paulo

Partido ataca juros e defende meta de inflação mais frouxa; Selic nas alturas decorre da gastança de Lula

Não à toa, balão de ensaio sobre indicação para o BC de heterodoxo ligado ao PT gera reações negativas entre economistas e investidores

Em ano de disputa eleitoral, o PT volta a se utilizar do artifício que tem sido uma de suas especialidades desde que chegou ao poder em 2002: posicionar-se como governo e oposição simultaneamente.

O partido ocupou o Palácio do Planalto por 16 dos últimos 23 anos, mas, quando interessa, tenta vender a ideia de que está na trincheira contra um poder alheio. Trata-se de culpar terceiros pelos problemas gerados por suas próprias escolhas.

A mais recente resolução do Diretório Nacional da sigla exemplifica essa postura.

O texto critica o Banco Central, acusado de atuar "contra o projeto eleito nas urnas", de aprofundar a "financeirização" da economia e de restringir investimentos públicos. Exige redução imediata da taxa Selic, hoje em elevadíssimos 15% ao ano, e revisão da meta de inflação de 3%, para "compatibilizá-la com crescimento econômico e geração de empregos".

A crença de que uma meta mais alta permitiria juros mais baixos é, no mínimo, pueril. Um objetivo frouxo tende a elevar as expectativas para o IPCA, exigindo política monetária talvez restritiva para conter preços. A medida, de todo modo, está ao alcance imediato do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, também responsável pelas indicações da maioria dos diretores do BC.

A proposta do PT não passa de tolerar mais inflação —que pune sobretudo os mais pobres—em nome do crescimento econômico, ignorando o desastre produzido por essa estratégia sob a correligionária Dilma Rousseff.

A pressão sobre o BC não se limita à resolução. Embora o documento não peça explicitamente a revogação da autonomia da instituição, o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), declarou que ela deve ser revista, tornando-se "relativa", não absoluta.

Soma-se a isso o balão de ensaio sobre uma possível indicação de Guilherme Mello, secretário de Política Econômica da Fazenda, para a diretoria do BC.

Recomendado por seu chefeFernando Haddad, Mello tem conhecidas posições heterodoxas, e a mera menção a seu nome provocou reação negativa entre economistas e investidores, que veem risco de politização da autoridade monetária.

Os tão repudiados juros altos são motivados, principalmente, pelo expansionismo orçamentário do governo petista. O aumento persistente e temerário dos gastos públicos eleva a pressão sobre os preços e força o BC a manter a taxa de juros em patamar mais restritivo. Os próprios dirigentes da instituição escolhidos pelo Planalto o afirmam.

A suposta "financeirização", um conceito vago, decorre dessa escolha: para rolar uma dívida em alta contínua, o Tesouro Nacional oferece remunerações elevadas, beneficiando os famigerados rentistas. É irônico que Lula e seu partido, por tantos anos no comando da economia, tenham se tornado os maiores amigos de quem pode viver de emprestar dinheiro ao governo.

Acordo Argentina-EUA expõe atraso do Mercosul

Por Folha de S. Paulo

Acordo comercial com Washington instiga bloco a liberar seus sócios para negociações individuais

Enquanto sua defesa da redução do Mercosul para área de livre comércio recai no vazio, Milei acumula benefícios de sua aliança com Trump

Argentina firmou na quinta (5) um acordo comercial com os EUA. Embora tenha havido autorização do Mercosul para tal negociação, com limites definidos, a iniciativa do governo de Javier Milei pode afetar o bloco sul-americano.

Desde a posse de Donald Trump, em janeiro de 2025, não há dúvidas sobre o alinhamento de Buenos Aires a Washington. Enquanto sua defesa da redução do escopo do Mercosul para a esfera de área de livre comércio recai no vazio, Milei acumula benefícios de sua aproximação com o republicano em momentos econômicos e políticos delicados.

Sua gestão obteve do Tesouro dos EUA o anúncio de um acordo de troca de moedas (swap cambial) de US$ 20 bilhões em outubro, pouco antes das eleições legislativas argentinas —das quais o partido governista saiu vitorioso. E a liberação de igual valor pelo Fundo Monetário Internacional a Buenos Aires, também no ano passado, dificilmente viria à tona sem o aval americano.

O Acordo de Comércio e Investimentos Recíprocos entre os Estados Unidos e a Argentina (Arti, na sigla em inglês) de fato fortalece a aliança entre os dois países. A rigor, trata-se de versão aprofundada de um pacto de cooperação bilateral firmado em novembro.

A Argentina concederá acesso favorecido a mais de 200 posições tarifárias, como setores que reúnem medicamentos, veículos e até mesmo o de carnes dos EUA a partir de abril, além de alinhar suas políticas de propriedade intelectual e segurança econômica, entre outras, às americanas.

Já Washington reduzirá tarifas sobre e cerca de 1.600 bens argentinos e elevará as cotas de importação de carne bovina e aço. Sua contribuição mais relevante a Buenos Aires, porém, está na promessa de alavancar investimentos, especialmente no segmento de minerais críticos —tema de outro pacto bilateral, assinado na quarta-feira (4).

Marcado por desequilíbrios nas concessões de lado a lado, o texto tende a desagradar setores produtivos argentinos. No entanto desafiará os críticos a investir no aumento de produtividade e competitividade e pode beneficiar os consumidores locais.

Não há dúvida sobre a escolha de Milei. Sua ousadia, de todo modo, instiga a retomada do debate sobre a conveniência da alforria aos parceiros do bloco para negociar individualmente os acordos que lhes convenham.

As vantagens para os quatro sócios, sobretudo o Brasil, podem valer a revisão de uma união aduaneira que amarra as negociações e que, em 30 anos de existência, mostra-se atrasada.

O dever da Justiça Militar

Por O Estado de S. Paulo

Se a Justiça Militar não punir com perda de posto e patente os oficiais condenados por tentativa de golpe, de resto um imperativo legal e moral, será difícil justificar sua existência

O procurador-geral do Ministério Público Militar, Clauro de Bortolli, apresentou ao Superior Tribunal Militar (STM) as representações para declaração de indignidade para o oficialato contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, capitão reformado do Exército, o almirante Almir Garnier e os generais Augusto Heleno, Walter Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira. Como se sabe, todos cumprem pena de prisão após terem sido condenados por tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes. Logo, a perda de posto e patente, no caso deles, é um dever legal e moral da Justiça Militar, não apenas como resposta à sociedade civil, mas como garantia da honorabilidade das próprias Forças Armadas.

Em 218 anos, a Justiça Militar jamais condenou oficiais generais que atentaram contra a democracia. E houve vários, como registra nossa sobressaltada história política. A eventual procedência das representações apresentadas pelo procurador-geral equivalerá à expulsão dos criminosos das Forças Armadas. “Tudo nesses processos é inédito”, resumiu a presidente do STM, Maria Elizabeth Rocha, uma das cinco civis com assento na corte. Como ela afirmou, trata-se de um julgamento “simbólico e paradigmático, capaz de definir o lugar do STM diante de crimes contra o Estado Democrático de Direito”.

É disso que se trata. Passou da hora de militares traidores da Pátria prestarem contas de seus atos não apenas à Justiça Civil, mas também à Justiça Militar. É para isso, afinal, que existe uma estrutura judicial castrense em tempos de paz. Se oficiais do topo da carreira que ousaram empregar o treinamento, a autoridade e as armas que lhes foram conferidos pelo Estado contra o próprio povo e a Constituição não forem considerados indignos de pertencer às Forças Armadas, para que – ou a quem – serve a Justiça Militar em tempos de paz nesta república democrática?

Sob a liderança de Bolsonaro – um comandante-chefe que foi, ele próprio, um “mau militar”, nas palavras de Ernesto Geisel, e que chegou a ser proibido de pisar em quartéis por sua indisciplina e espírito golpista –, esses oficiais decidiram, de livre e espontânea vontade, conspirar contra a ordem constitucional para aferrá-lo no poder. Tramaram o assassinato do presidente eleito e de seu vice, Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin, além do assassinato de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, a fim de subverter a vontade popular expressa nas urnas de 2022. Se isso não basta para caracterizar indignidade para o oficialato, o que bastaria?

Circula na imprensa a informação de que os ministros do STM tendem a expulsar somente Bolsonaro e Braga Netto, preservando posto e patente de Paulo Sérgio Nogueira e Augusto Heleno, em consideração ao “histórico” de ambos na caserna. O destino de Garnier é incerto. Se assim for, o tribunal cometerá um grave erro. Eventuais serviços prestados ao País, por mais relevantes que tenham sido, não atenuam uma sedição armada. Ao contrário: só agravam a responsabilidade de quem traiu o juramento de lealdade à Constituição e os valores das Forças Armadas.

Há muito tempo, a Justiça Militar deve explicações à sociedade civil. Em 1988, o próprio STM absolveu Bolsonaro em uma representação que envolvia um plano para explodir bombas em unidades militares do Rio de Janeiro como forma de pressão salarial – plano cuja autoria Bolsonaro negou, mas que perícias confirmaram. Absolvido, foi reformado, tornou-se capitão e ingressou na política. O resto é uma lamentável história. Mais recentemente, em 2021, o então comandante do Exército, o mesmo Paulo Sérgio Nogueira, deixou impune o general intendente Eduardo Pazuello por participação em um comício ao lado de Bolsonaro, sendo ele um oficial da ativa, em flagrante violação à legislação militar.

A expulsão de Bolsonaro et caterva dos quadros do Exército e da Marinha enviará um potente sinal a todos os quartéis espalhados Brasil afora: militares não tomam parte nas lides políticas e devem obediência cega à Constituição e ao Estado Democrático de Direito. Servem ao Brasil, não a projetos pessoais ou aventuras autoritárias. A atual composição do STM tem diante de si a chance histórica de afirmar à Nação que a corte não é uma ermida para oficiais golpistas.

O PT envelheceu mal no Nordeste

Por O Estado de S. Paulo

Força de candidatos da direita em Estados-chave para o PT e partidos aliados reflete menos uma guinada ideológica e mais a incapacidade da esquerda de oferecer respostas ao eleitor de 2026

As eleições de 2026 projetam-se como um desafio sem precedentes à hegemonia política que a esquerda – e o PT, em particular – construiu ao longo de mais de duas décadas no Nordeste. Pesquisas de intenção de voto têm apontado vantagem de candidatos de centro-direita e direita em Estados centrais para o projeto petista, como Bahia, Maranhão e Ceará. Em outros, como Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte, a situação tampouco é confortável para a esquerda. O cenário só é menos adverso, hoje, no Piauí e em Pernambuco, mas essas exceções apenas reforçam que o mapa político da região não é um monólito.

Um estudo do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), ajuda a dimensionar a magnitude dessa possível inflexão. Mantido o panorama sugerido pelas pesquisas mais recentes, a esquerda poderá registrar, em 2026, seu pior desempenho em eleições para governador no Nordeste desde a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, em 2002. Segundo os dados apurados pelo professor Medeiros, em 2018, partidos do chamado campo progressista governavam Estados que concentravam cerca de 90% do eleitorado nordestino. Esse porcentual caiu para 74% em 2022 e pode recuar para 23% nas eleições deste ano. Caso isso se confirme, será um baque e tanto para o PT e partidos aliados, que há tempos têm no Nordeste seu principal reduto eleitoral.

Há múltiplas explicações para essa possível mudança do perfil político-partidário dos governos estaduais da região. Como Medeiros disse ao Estadão, “o voto nordestino tornou-se mais volátil, urbano e pragmático”, mais sensível a questões como custo de vida, segurança pública e qualidade dos serviços públicos. Esse é um ponto crucial.

É fato que programas como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida, que durante muito tempo foram as vitrines eleitorais mais reluzentes do lulopetismo no Nordeste, passaram a ser percebidos como políticas de Estado. A associação quase automática entre esses programas e Lula perdeu força. É lícito inferir que grande parte do eleitorado nordestino se sente segura de que essas políticas públicas seguirão vigentes independentemente de quem esteja no poder.

Mas a explicação mais relevante talvez esteja na dificuldade crônica da esquerda em oferecer respostas aos problemas que hoje mais afligem os cidadãos. Segurança pública é o exemplo mais eloquente. A insistência em uma abordagem ideologizada, contaminada por uma leitura sociológica do problema da violência urbana que relativiza a responsabilidade do criminoso em nome de explicações estruturais, tem um preço eleitoral que partidos à direita não costumam pagar.

Dois grandes Estados governados pelo PT, Bahia e Ceará, são os exemplos mais bem acabados do fracasso da esquerda no campo da segurança pública. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que, em 2024, a Bahia registrou 40,6 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto o Ceará alcançou 37,5. Ambos só ficaram atrás do Amapá (45,1) como os Estados mais violentos do País. São números impossíveis de fazer frente ao discurso da direita nessa seara, que pode até não se materializar em boas políticas públicas, mas, no que concerne ao apelo eleitoral, funciona como garantia de que providências duras serão tomadas.

Naturalmente, nada disso autoriza predições categóricas. A política brasileira é volátil, e o próprio lulopetismo ainda dispõe de um ativo poderoso: a figura de Lula, incumbente cuja presença física em campanhas estaduais continua sendo decisiva para viabilizar candidaturas. Mas o fato de depender cada vez mais desse recurso revela fragilidade, não força. O carisma de Lula, por si só, não basta ante a cobrança de respostas concretas do próprio presidente às demandas de um eleitorado que mudou e ele parece não ter se dado conta.

O Nordeste continua plural e politicamente relevante. Justamente por isso, não é – e talvez nunca tenha sido – propriedade de um partido ou de um campo político. Se a esquerda perder espaço na região, não será por uma guinada ideológica dos nordestinos, mas pela incapacidade da esquerda de compreender que o eleitor de 2026 exige mais do que memória afetiva e programas sociais já consolidados.

A asfixia das agências

Por O Estado de S. Paulo

TCU quer saber por que o governo federal deixou as agências reguladoras à míngua

O governo federal terá de justificar ao Tribunal de Contas da União (TCU) os congelamentos orçamentários que se tornaram frequentes nas agências reguladoras. Foi determinado ainda à Casa Civil que apresente em até seis meses um plano para efetivar a autonomia financeira das agências auditadas pela Corte de Contas e que regulam os setores de energia elétrica (Aneel), petróleo e gás (ANP), telecomunicações (Anatel) e mineração (ANM).

Apesar de fazer referência às quatro agências que integraram o processo, a decisão tomada pelo TCU vale para todas as 11 autarquias federais que monitoram setores essenciais, a maioria deles resultante da privatização de serviços públicos. Cortes de recursos não poderão afetar a fiscalização nem o custeio dos órgãos que, de acordo com a avaliação do tribunal, têm sofrido uma “asfixia orçamentária” nos últimos dez anos.

O veredicto do TCU não traz novidade alguma, mas abre caminho para estancar uma sangria que há muito se reflete em prejuízo para o consumidor, exposto a um maior risco de falhas na prestação dos serviços. O sucateamento das agências é um processo antigo, e mesmo não sendo exclusividade do lulopetismo, é particularmente acentuado em governos do PT, crítico feroz tanto da privatização quanto da autonomia legal assegurada às agências.

Especificamente neste terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, as agências têm sido enxergadas pelo governo como meros instrumentos arrecadatórios. Repassam ao Tesouro os recursos que recebem por meio de taxas, tarifas e multas e recebem de volta autorização para utilizar parcela muitas vezes insuficiente para sua manutenção básica. Esse dinheiro fica sob risco de contingenciamento sempre que o governo determina que os ministérios (aos quais as agências estão vinculadas) congelem despesas para tentar corrigir desequilíbrios fiscais.

Como também é notório, apesar do apagão técnico e financeiro atual, algumas agências arrecadam mais do que necessitam para custear suas atividades, mas a prioridade do governo tem sido reforçar o caixa do Tesouro. O sucateamento impacta diretamente os cidadãos, expostos a uma série de problemas, que vão de atrasos na aprovação de produtos, como medicamentos, até uma maior exposição a fraudes no sistema financeiro, já que a Comissão de Valores Mobiliários também é uma autarquia regulatória.

Embora muitas vezes a convivência entre reguladores e regulados não seja fácil, não há como prescindir da atuação das instituições que garantem, principalmente, a segurança do mercado. Quando uma agência, como a ANP, informa que fechará as portas três dias úteis por semana para economizar dinheiro, como ocorreu no ano passado, é sinal de que o descaso do governo extrapolou qualquer limite. Assim como a vacância de cargos por meses a fio salienta, ao mesmo tempo, o pouco-caso do Executivo e o interesse em formar estoque para arranjos políticos.

A exigência do TCU está longe de se traduzir em solução para a atual crise regulatória. Mas tomara que seja o início de uma pressão mais forte para chegar a esse resultado.

Prevenção não pode tirar folga no carnaval

Por Correio Braziliense

Historicamente, esse período de intensa interação social e relaxamento de inibições traz um desafio recorrente: o aumento da vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs)

O carnaval é uma das principais manifestações culturais do Brasil. Entre o brilho dos desfiles na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, o calor dos trios elétricos em Salvador, na Bahia, e as multidões nos blocos de rua em Belo Horizonte, São Paulo e muitas outras capitais e cidades, a atmosfera de celebração e liberdade contagia brasileiros e turistas de diversos países. No entanto, historicamente, esse período de intensa interação social e relaxamento de inibições traz um desafio recorrente: o aumento da vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

A folia faz parte da identidade nacional e deve ser incentivada, mas também é preciso promover a consciência coletiva no quesito saúde pública. O cenário epidemiológico atual exige atenção. Dados do Ministério da Saúde indicam que, embora o acesso à informação seja amplo, as taxas de novas contaminações, especialmente entre jovens de 15 a 24 anos, aparecem em patamares preocupantes. Doenças como HIV/Aids, sífilis, gonorreia e HPV não "descansam" nos feriados festivos e encontram na mistura de álcool com eventos prolongados o terreno fértil para se propagarem.

A estratégia de saúde pública no país apresentou melhorias. Hoje, as campanhas não tratam apenas do uso da camisinha — que continua sendo a barreira física mais eficaz e acessível —, e o conceito de prevenção combinada tem introduzido importantes camadas de autocuidado, com resultados significativos.

Atualmente, também é mais disseminada a possibilidade de acesso a medidas de urgência, como o tratamento antirretroviral, que evita a infecção se iniciado em até 72 horas em caso de uma relação desprotegida. Além disso, boa parte da população se conscientizou que saber o próprio status sorológico é um ato de responsabilidade individual e social.

Outro ponto importante de avanço é a orientação sobre as formas de contágio, tema que vem quebrando preconceitos, especialmente dentro das escolas. Nesse aspecto, conteúdos direcionados para esse aprendizado são essenciais, assim como a abertura para debates com os adolescentes de uma forma que eles se sintam à vontade para tirar as dúvidas sem julgamentos. Não menos relevante é o diálogo familiar, principalmente para estabelecer uma base de confiança com os jovens. Sem contar que os responsáveis precisam cumprir o dever de levar os menores para que sejam vacinados contra HPV e hepatite B.

O estado, por sua vez, desempenha papel estratégico na prevenção e controle dessas doenças. Por isso, a atuação não pode se limitar à entrega de remédios e campanhas esporádicas. Ambas são necessárias, porém é preciso atacar o problema em várias frentes. A distribuição de preservativos e autotestes em postos médicos e circuitos de rua é essencial, mas as iniciativas devem fazer parte de uma agenda prioritária dos governos federal, com a compra de medicamentos e definição de protocolos; estadual, com a coordenação da entrega de insumos e apoio técnico; e municipal, com a execução direta das ações.

As ISTs são uma questão de saúde, não de moralidade. E quando o assunto deixa de ser um tabu, a prevenção correta chega antes do perigo. O carnaval, que é uma festa de vida, pede atenção. Celebrar com segurança significa entender que o prazer não é oposto ao cuidado e respeito. Depois da folia, quando chegar a quarta-feira de cinzas, o que deve restar são as memórias dos momentos de alegria, e não as consequências de uma negligência que poderia ter sido evitada com gestos simples.

Com desmate e menos chuva, agronegócio corre riscos

Por Valor Econômico

Desde a década de 70, a vazão dos rios do Cerrado diminuiu 27%

De “crises globais de água”, choques temporários seguidos de recuperação, o mundo caminha agora para a “falência hídrica global”, declarou a ONU em janeiro. Trata-se de uma escassez persistente atingindo muitas regiões, o que implica maior disputa pela água para o consumo humano e para a atividade econômica. Mesmo o Brasil, que abriga 16% dos recursos hídricos renováveis do planeta, começa a sentir os efeitos dessa tragédia anunciada, resultado das mudanças climáticas e do efeito cumulativo de décadas de desmate em importantes biomas - da Amazônia à Mata Atlântica e ao Cerrado. Meteorologistas alertam que as regiões Sudeste e Centro-Oeste, que concentram grandes centros urbanos e importante produção agrícola exportadora e industrial, devem se preparar para uma seca severa este ano.

Um planeta cada vez mais quente tem levado a profundas mudanças no regime de chuvas. Nos últimos três anos, a temperatura média global ficou mais de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais pela primeira vez desde o início dos registros, segundo dados do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da Comissão Europeia. Essas temperaturas recordes são resultado principalmente do acúmulo de gases-estufa na atmosfera com a redução da absorção de CO2 pelos sumidouros naturais (como a Floresta Amazônica), e de temperaturas da superfície do mar em níveis excepcionalmente altos em todo o oceano.

No Brasil, há 60 anos chove menos a cada ano. Mesmo a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) - o equivalente às monções da Ásia - está despejando menos água do que o esperado nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Assim, o ano começou com importantes reservatórios em níveis críticos em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A situação precária dos reservatórios ocorre na sequência de uma onda de calor extremo que atingiu os Estados do Sudeste em dezembro e início de janeiro, o que elevou o consumo de água, enquanto a falta de chuvas reduziu a reposição dos lençóis freáticos e a supressão de matas ciliares levou à seca de nascentes, diminuindo a vazão dos rios. Acrescente-se a expansão da irrigação agrícola e a extração descontrolada da água e o resultado é menos água doce disponível para o consumo humano e a atividade econômica.

Apesar de ter começado a chover no fim de janeiro no Sudeste, a situação continua crítica nos reservatórios, uma vez que o pico da estação de chuvas termina este mês. Nos últimos 40 anos, a estação chuvosa encurtou 25 dias no Sudeste e no Centro-Oeste, segundo estudo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden, O Globo, 27-1). No Cerrado, bioma que abriga as nascentes de oito das doze grandes regiões hidrográficas do país, o encurtamento do período de chuva é ainda maior, de 56 dias, aponta um relatório da Ambiental Media de junho de 2025 que analisa 51 anos de dados da Agência Nacional de Águas (ANA).

Desde a década de 70, a vazão dos rios do Cerrado diminuiu 27%, enquanto as chuvas caíram 21%. O bioma está secando. Os sinais são evidentes no oeste da Bahia, o coração da fronteira agrícola de Matopiba, onde cursos d’água antes confiáveis agora só aparecem após chuvas intensas. Um mapeamento participativo realizado por organizações locais mostrou que mais de 7 mil quilômetros de rios e córregos deixaram de fluir durante o ano todo, aponta um estudo publicado em janeiro no site Trase, fundado pelo Stockholm Environment Institute e a Global Canopy.

O Cerrado já perdeu mais de 50% de sua cobertura original com o avanço do agronegócio. Isso tornou o Brasil um dos maiores exportadores mundiais de soja e carne bovina e também de água - embora esse custo ainda não esteja representado nos preços dessas commodities. A pecuária brasileira precisa de 10,1 bilhões a 10,4 bilhões de metros cúbicos de água por ano para manter o rebanho, de acordo com a Trase (Folha de S. Paulo, 1-2). Trata-se de um volume maior do que a soma do consumo das populações dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná e mais o Distrito Federal, que atinge 7,8 bilhões de metros cúbicos. A maior parte da água consumida pelos animais vem de rios e aquíferos. Já a produção de soja consome de 188 bilhões a 206 bilhões de metros cúbicos de água anualmente, sete vezes a capacidade da represa da usina hidrelétrica de Itaipu. No caso da soja, a maior parte desse volume vem da água da chuva. Toda essa produção agora encontra-se em risco.

A deterioração das principais bacias hidrográficas para o abastecimento de água do país eleva a pressão competitiva entre setores empresariais, usuários domésticos e ecossistemas. Mas o futuro não é necessariamente de falência hídrica, como observou Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas. É preciso dar início a um plano de recuperação estruturado, estancar a sangria, proteger os serviços essenciais e investir na reconstrução. O primeiro passo para o enfrentamento é reconhecer de forma franca e objetiva a irreversibilidade das perdas até o momento, proteger os recursos hídricos remanescentes e elaborar políticas que correspondam à realidade hidrológica, em vez de normas do passado.

 O risco do mau exemplo

Por O Povo (CE)

Às vésperas de uma eleição, sobretudo de uma que se anuncia novamente polarizada, há sempre a tentação de ceder ao impulso de confundir o que é da esfera administrativa com aquilo que é estritamente do âmbito da disputa política. Veja-se o caso dessa querela entre o Governo do Estado e a Prefeitura de Juazeiro do Norte envolvendo a Patrulha Maria da Penha.

Ainda no mês de janeiro deste ano, o Executivo estadual informou que 29 municípios cearenses seriam beneficiados com uma viatura do convênio celebrado entre a gestão do Abolição e as prefeituras. O contrato prevê, além da cessão do veículo, a entrega de kits para a guardas municipais, a quem caberá operar o patrulhamento, vital para a redução de episódios de violência doméstica.

Maior cidade do interior do Ceará, Juazeiro do Norte, na região do Cariri, não foi inicialmente contemplada no programa do Governo. Reeleito em 2024, Glêdson Bezerra (Podemos), gestor caririense, queixou-se da exclusão. Auxiliares do prefeito, por sua vez, atribuíram o problema a divergências de natureza política com o governador Elmano de Freitas (PT), mais agudas em ano eleitoral.

Vice-governadora do Estado, Jade Romero (MDB) rebateu essas declarações. De acordo com a também secretária da Proteção Social, Juazeiro teria aderido ao programa apenas em outubro de 2025, o que acabou inviabilizando sua participação já agora. Pelas redes sociais, tanto Elmano quanto Glêdson rejeitaram qualquer hipótese de "politicagem" na contenda. Que bom que pensem assim.

Mas o fato é que Juazeiro, com seus mais de 300 mil habitantes, ficou de fora do projeto estadual, mesmo que provisoriamente. Considerando-se as necessidades da população local, interessa muito pouco se isso se deveu a uma letargia dos gestores, e aqui não se aponta o dedo para ninguém, ou a possíveis desentendimentos entre o prefeito e o governador, ambos eleitos para um mandato cujo principal objetivo é honrar os compromissos assumidos não apenas com o eleitorado que lhe endereçou o voto.

Próprias de um regime liberal, as diferenças políticas e ideológicas se resolvem nas urnas, no período apropriado para esse embate, que é o da campanha eleitoral. Se deflagradas antes da hora, essas tensões mais atrapalham que ajudam, principalmente num estado com números crescentes de feminicídios como é o Ceará. Nele, a politização da violência é danosa, primeiro porque dificulta a procura por respostas, segundo porque não contribui para a constituição de políticas mais efetivas.

É de se esperar que o governador e os prefeitos cearenses, alguns dos quais de oposição (da lista de 29 municípios que vão receber viaturas da patrulha, apenas um não é da base da administração petista), tenham clareza do papel que cada um deve cumprir no traçado republicano.

A proximidade de um pleito não autoriza qualquer autoridade, estadual ou municipal, a se deixar conduzir e a conduzir os negócios do estado fiando-se na régua da corrida política, pela qual os aliados têm primazia na distribuição dos frutos da administração, encarados como rendimentos privados. A democracia não funciona assim. 

 

Nenhum comentário: