Benefícios das fintechs superam os malefícios
Por O Globo
Competição aumentou, serviço melhorou e juro
caiu, diz estudo do FMI. Mas é preciso regulação forte
Nos últimos tempos, as fintechs têm frequentado o noticiário mais pelos vícios que pelas virtudes. Normas brandas adotadas pelo Banco Central (BC) resultaram em consequências indesejadas. O crime organizado explorou brechas para usar as fintechs em atividades ilegais. Como elas não obedeciam às mesmas regras exigidas de bancos, houve aumento no risco sistêmico e questionamento sobre competição desleal. O próprio escândalo do Banco Master mostrou como o incentivo aos novos empreendedores financeiros pode engendrar problemas de proporções colossais. Mas é preciso saber pôr tudo isso na devida perspectiva. Vários estudos internacionais têm constatado efeitos positivos das fintechs no mercado de crédito brasileiro.
A entrada dos novos competidores no mercado
local respondeu por queda de 2,7 pontos percentuais na média das taxas de juros
cobradas por bancos em empréstimos, constatou relatório publicado pelo Fundo
Monetário Internacional (FMI) em janeiro, com base na análise do período entre
2018 e 2024. Além de reduzir o custo do dinheiro, a competição obrigou os
grandes bancos e instituições financeiras a buscar mais eficiência.
A mudança no mercado de crédito foi
consequência de uma política adotada pelo BC a partir da década passada para
incentivar empresas financeiras novatas. Sucessivas resoluções permitiram a
atuação totalmente digital, simplificaram procedimentos e exigências e
estabeleceram um ambiente propício à inovação. Em pouco tempo, os tomadores de
empréstimos de fintechs foram de zero a 60 milhões (40% da população adulta).
Hoje, quatro dos dez maiores bancos digitais no mundo são brasileiros.
O fato de brasileiros serem entusiastas do
celular e abertos a inovações tecnológicas pavimentou o caminho das fintechs.
Para as novatas, eram evidentes os espaços a explorar. Quem dominava o mercado
cobrava taxas exorbitantes nos empréstimos para cobrir despesas administrativas
e garantir lucratividade alta. Explorando erros, negligências e lentidão dos
grandes bancos, novatas como Nubank, Inter, C6 e Neon seduziram os clientes e
expandiram seus negócios.
Os bancos tradicionais perderam clientes, mas
mantiveram o tamanho de suas carteiras de empréstimos. Os segmentos explorados
pelas fintechs — especialmente cartão de crédito e crédito ao consumidor —
envolvem muitos clientes, mas valores pequenos. Para compensar a perda de
clientes, diz o estudo do FMI, “os bancos comerciais aumentaram o valor médio
dos empréstimos por cliente, reduzindo as taxas de juros e voltando suas
operações aos clientes de maior valor”. Houve também esforço para reduzir
despesas.
Não é coincidência o fechamento de agências,
a ampliação dos serviços digitais e o surgimento de categorias destinadas ao
público de alta renda. Nada disso evitou que a lucratividade caísse. De acordo
com a análise do FMI, um aumento na exposição às fintechs levou, na maior parte
dos casos, a uma redução de 3,6 pontos percentuais no retorno sobre o
patrimônio líquido.
Houve também efeitos deletérios, com que as
autoridades precisam lidar. Para preservar as conquistas valiosas da
liberalização do sistema financeiro, deve ser prioridade o aperto na legislação
e nos requisitos para operar no mercado, além do combate à criminalidade em
todas as suas variantes.
Internação involuntária de drogados é
aceitável em casos excepcionais
Por O Globo
Mais de 30% das capitais adotam a prática. É
essencial que ela seja respaldada por protocolos científicos
O consumo de drogas por quem vive nas ruas é
um problema quase intratável. No Brasil, passou a ser conhecido a partir do
crescimento da Cracolândia, região no Centro de São Paulo onde chegou a haver
entre 800 e 1.500 usuários. Não só em São Paulo, o consumo de drogas em espaços
públicos preocupa prefeitos e governadores. As soluções recomendadas para o
problema infelizmente jamais foram levadas a cabo de modo satisfatório. Não se
trata de questão policial. A dificuldade está em oferecer atendimento médico e
tratamento para que os dependentes possam se livrar do vício. Há obstáculos
tanto para interná-los quanto para mantê-los internados. Daí a repetição, em
sucessivos governos, de esvaziamento e retorno a áreas como a Cracolândia.
Mais cidades brasileiras têm adotado a
internação involuntária, ou compulsória, dos dependentes de drogas. Cerca de
30% das capitais a praticam em algum nível, ou o tema está em discussão no
Legislativo, revelou O
GLOBO. A medida é aceita em São Paulo, Rio, Belo Horizonte,
Maceió, Distrito Federal, Curitiba, Florianópolis,Niterói, Sorocaba, Chapecó,
Blumenau, Criciúma e Balneário Camboriú.
A internação compulsória sempre foi criticada
como violação de direitos individuais incapaz de dar conta do problema no médio
prazo. Mas em certos casos pode se justificar. Mudanças na Lei de Drogas e
resoluções do Conselho Federal de Medicina deram respaldo a que parentes,
responsáveis, servidores públicos de saúde, assistência social ou órgão de
segurança solicitem a internação sem consentimento em situações excepcionais. A
restrição de liberdade deve ser pelo menor tempo possível. É preciso informar
em até 72 horas órgãos de controle como o Ministério Público (MP).
A aplicação das normas ainda alimenta
debates. É indispensável que o MP monitore os centros de recolhimento para que
sejam de fato centros de reabilitação, e não depósitos de gente. É essencial
haver protocolos sustentados em conhecimento científico para tratar da questão.
Além de atentarem contra a própria vida, os dependentes podem representar risco
à segurança. É nesse contexto que a internação involuntária pode fazer sentido,
sem desprezar a ressocialização desses pacientes. Uma mulher
apareceu em reportagem do GLOBO sendo internada nas ruas de Curitiba, depois
de ter sido abordada 175 vezes desde 2018. A cidade adotou em dezembro o
protocolo de internação compulsória. Pode ser que agora ela tenha maior chance
de receber tratamento contínuo.
Está claro que, mesmo que seja necessária ação da polícia no combate ao tráfico que alimenta as cracolândias pelo país, dissolvê-las pode significar apenas espalhar o problema a outras áreas. A própria Cracolândia paulistana não é mais a mesma. Ações policiais, sociais e urbanísticas, coordenadas entre prefeitura e governo estadual, começaram a mudar o local. Mas os usuários de drogas se espalharam. Sem a capacidade de oferecer tratamento para todos de forma contínua e estruturada, será impossível resolver o problema.
PT finge ser oposição ao culpar BC por erros
do governo
Por Folha de S. Paulo
Partido ataca juros e defende meta de
inflação mais frouxa; Selic nas alturas decorre da gastança de Lula
Não à toa, balão de ensaio sobre indicação
para o BC de heterodoxo ligado ao PT gera reações negativas entre economistas e
investidores
Em ano de disputa eleitoral, o PT volta a se
utilizar do artifício que tem sido uma de suas especialidades desde que chegou
ao poder em 2002: posicionar-se como governo e oposição simultaneamente.
O partido ocupou o Palácio do Planalto por 16
dos últimos 23 anos, mas, quando interessa, tenta vender a ideia de que está na
trincheira contra um poder alheio. Trata-se de culpar terceiros pelos problemas
gerados por suas próprias escolhas.
A mais recente resolução do Diretório Nacional
da sigla exemplifica essa postura.
O texto critica o Banco Central,
acusado de atuar "contra o projeto eleito nas urnas", de aprofundar a
"financeirização" da economia e
de restringir investimentos públicos. Exige redução imediata da taxa Selic,
hoje em elevadíssimos 15% ao ano, e revisão da meta de inflação de
3%, para "compatibilizá-la com crescimento econômico e geração de
empregos".
A crença de que uma meta mais alta
permitiria juros mais
baixos é, no mínimo, pueril. Um objetivo frouxo tende a elevar as expectativas
para o IPCA, exigindo política monetária talvez restritiva para conter preços.
A medida, de todo modo, está ao alcance imediato do governo de Luiz
Inácio Lula da
Silva, também responsável pelas indicações da maioria dos diretores do BC.
A proposta do PT não passa de tolerar mais
inflação —que pune sobretudo os mais pobres—em nome do crescimento econômico,
ignorando o desastre produzido por essa estratégia sob a correligionária Dilma
Rousseff.
A pressão sobre o BC não se limita à
resolução. Embora o documento não peça explicitamente a revogação da autonomia
da instituição, o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), declarou que
ela deve ser revista, tornando-se "relativa", não
absoluta.
Soma-se a isso o balão de ensaio sobre uma
possível indicação de Guilherme Mello, secretário de Política Econômica da
Fazenda, para a diretoria do BC.
Recomendado
por seu chefe, Fernando
Haddad, Mello tem conhecidas posições heterodoxas, e a mera menção a
seu nome provocou reação negativa entre economistas e investidores, que veem
risco de politização da autoridade monetária.
Os tão repudiados juros altos são motivados,
principalmente, pelo expansionismo orçamentário do governo petista. O aumento
persistente e temerário dos gastos públicos eleva a pressão sobre os preços
e força o BC a
manter a taxa de juros em patamar mais restritivo. Os próprios
dirigentes da instituição escolhidos pelo Planalto o afirmam.
A suposta "financeirização", um
conceito vago, decorre dessa escolha: para rolar uma dívida em alta contínua, o
Tesouro Nacional oferece remunerações elevadas, beneficiando os famigerados
rentistas. É irônico que Lula e seu partido, por tantos anos no comando da
economia, tenham se tornado os maiores amigos de quem pode viver de emprestar
dinheiro ao governo.
Acordo Argentina-EUA expõe atraso do Mercosul
Por Folha de S. Paulo
Acordo comercial com Washington instiga bloco
a liberar seus sócios para negociações individuais
Enquanto sua defesa da redução do Mercosul
para área de livre comércio recai no vazio, Milei acumula benefícios de sua
aliança com Trump
A Argentina firmou na
quinta (5) um acordo comercial com os EUA. Embora tenha havido
autorização do Mercosul para
tal negociação, com limites definidos, a iniciativa do governo de Javier Milei pode
afetar o bloco sul-americano.
Desde a posse de Donald Trump,
em janeiro de 2025, não há dúvidas sobre o alinhamento de Buenos Aires a
Washington. Enquanto sua defesa da redução do escopo do Mercosul para a esfera
de área de livre comércio recai no vazio, Milei acumula benefícios de sua
aproximação com o republicano em momentos econômicos e políticos delicados.
Sua gestão obteve do Tesouro dos EUA o
anúncio de um acordo de troca de moedas (swap cambial) de US$ 20 bilhões em
outubro, pouco antes das eleições legislativas argentinas —das quais o
partido governista saiu vitorioso. E a liberação de igual valor pelo
Fundo Monetário Internacional a Buenos Aires, também no ano passado,
dificilmente viria à tona sem o aval americano.
O Acordo de Comércio e Investimentos
Recíprocos entre os Estados
Unidos e a Argentina (Arti, na sigla em inglês) de fato
fortalece a aliança entre os dois países. A rigor, trata-se de versão
aprofundada de um pacto de cooperação bilateral firmado em novembro.
A Argentina concederá acesso favorecido a
mais de 200 posições tarifárias, como setores que reúnem medicamentos, veículos
e até mesmo o de carnes dos EUA a partir de abril, além de alinhar suas
políticas de propriedade intelectual e segurança econômica, entre outras, às
americanas.
Já Washington reduzirá tarifas sobre e cerca
de 1.600 bens argentinos e elevará as cotas de importação de carne bovina e
aço. Sua contribuição mais relevante a Buenos Aires, porém, está na promessa de
alavancar investimentos, especialmente no segmento de minerais críticos —tema
de outro pacto bilateral, assinado na quarta-feira (4).
Marcado por desequilíbrios nas concessões de
lado a lado, o texto tende a desagradar setores produtivos argentinos. No
entanto desafiará os críticos a investir no aumento de produtividade e
competitividade e pode beneficiar os consumidores locais.
Não há dúvida sobre a escolha de Milei. Sua
ousadia, de todo modo, instiga a retomada do debate sobre a conveniência da
alforria aos parceiros do bloco para negociar individualmente os acordos que
lhes convenham.
As vantagens para os quatro sócios, sobretudo o Brasil, podem valer a revisão de uma união aduaneira que amarra as negociações e que, em 30 anos de existência, mostra-se atrasada.
O dever da Justiça Militar
Por O Estado de S. Paulo
Se a Justiça Militar não punir com perda de
posto e patente os oficiais condenados por tentativa de golpe, de resto um
imperativo legal e moral, será difícil justificar sua existência
O procurador-geral do Ministério Público
Militar, Clauro de Bortolli, apresentou ao Superior Tribunal Militar (STM) as
representações para declaração de indignidade para o oficialato contra o
ex-presidente Jair Bolsonaro, capitão reformado do Exército, o almirante Almir
Garnier e os generais Augusto Heleno, Walter Braga Netto e Paulo Sérgio
Nogueira. Como se sabe, todos cumprem pena de prisão após terem sido condenados
por tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes. Logo, a perda de posto e
patente, no caso deles, é um dever legal e moral da Justiça Militar, não apenas
como resposta à sociedade civil, mas como garantia da honorabilidade das
próprias Forças Armadas.
Em 218 anos, a Justiça Militar jamais
condenou oficiais generais que atentaram contra a democracia. E houve vários,
como registra nossa sobressaltada história política. A eventual procedência das
representações apresentadas pelo procurador-geral equivalerá à expulsão dos criminosos
das Forças Armadas. “Tudo nesses processos é inédito”, resumiu a presidente do
STM, Maria Elizabeth Rocha, uma das cinco civis com assento na corte. Como ela
afirmou, trata-se de um julgamento “simbólico e paradigmático, capaz de definir
o lugar do STM diante de crimes contra o Estado Democrático de Direito”.
É disso que se trata. Passou da hora de
militares traidores da Pátria prestarem contas de seus atos não apenas à
Justiça Civil, mas também à Justiça Militar. É para isso, afinal, que existe
uma estrutura judicial castrense em tempos de paz. Se oficiais do topo da
carreira que ousaram empregar o treinamento, a autoridade e as armas que lhes
foram conferidos pelo Estado contra o próprio povo e a Constituição não forem
considerados indignos de pertencer às Forças Armadas, para que – ou a quem –
serve a Justiça Militar em tempos de paz nesta república democrática?
Sob a liderança de Bolsonaro – um
comandante-chefe que foi, ele próprio, um “mau militar”, nas palavras de
Ernesto Geisel, e que chegou a ser proibido de pisar em quartéis por sua
indisciplina e espírito golpista –, esses oficiais decidiram, de livre e
espontânea vontade, conspirar contra a ordem constitucional para aferrá-lo no
poder. Tramaram o assassinato do presidente eleito e de seu vice, Luiz Inácio
Lula da Silva e Geraldo Alckmin, além do assassinato de um ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, a fim de subverter a vontade
popular expressa nas urnas de 2022. Se isso não basta para caracterizar
indignidade para o oficialato, o que bastaria?
Circula na imprensa a informação de que os
ministros do STM tendem a expulsar somente Bolsonaro e Braga Netto, preservando
posto e patente de Paulo Sérgio Nogueira e Augusto Heleno, em consideração ao
“histórico” de ambos na caserna. O destino de Garnier é incerto. Se assim for,
o tribunal cometerá um grave erro. Eventuais serviços prestados ao País, por
mais relevantes que tenham sido, não atenuam uma sedição armada. Ao contrário:
só agravam a responsabilidade de quem traiu o juramento de lealdade à
Constituição e os valores das Forças Armadas.
Há muito tempo, a Justiça Militar deve
explicações à sociedade civil. Em 1988, o próprio STM absolveu Bolsonaro em uma
representação que envolvia um plano para explodir bombas em unidades militares
do Rio de Janeiro como forma de pressão salarial – plano cuja autoria Bolsonaro
negou, mas que perícias confirmaram. Absolvido, foi reformado, tornou-se
capitão e ingressou na política. O resto é uma lamentável história. Mais
recentemente, em 2021, o então comandante do Exército, o mesmo Paulo Sérgio
Nogueira, deixou impune o general intendente Eduardo Pazuello por participação
em um comício ao lado de Bolsonaro, sendo ele um oficial da ativa, em flagrante
violação à legislação militar.
A expulsão de Bolsonaro et caterva dos quadros do
Exército e da Marinha enviará um potente sinal a todos os quartéis espalhados
Brasil afora: militares não tomam parte nas lides políticas e devem obediência
cega à Constituição e ao Estado Democrático de Direito. Servem ao Brasil, não a
projetos pessoais ou aventuras autoritárias. A atual composição do STM tem
diante de si a chance histórica de afirmar à Nação que a corte não é uma ermida
para oficiais golpistas.
O PT envelheceu mal no Nordeste
Por O Estado de S. Paulo
Força de candidatos da direita em
Estados-chave para o PT e partidos aliados reflete menos uma guinada ideológica
e mais a incapacidade da esquerda de oferecer respostas ao eleitor de 2026
As eleições de 2026 projetam-se como um
desafio sem precedentes à hegemonia política que a esquerda – e o PT, em
particular – construiu ao longo de mais de duas décadas no Nordeste. Pesquisas
de intenção de voto têm apontado vantagem de candidatos de centro-direita e
direita em Estados centrais para o projeto petista, como Bahia, Maranhão e
Ceará. Em outros, como Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte, a situação
tampouco é confortável para a esquerda. O cenário só é menos adverso, hoje, no
Piauí e em Pernambuco, mas essas exceções apenas reforçam que o mapa político
da região não é um monólito.
Um estudo do cientista político Murilo
Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), ajuda a dimensionar a magnitude
dessa possível inflexão. Mantido o panorama sugerido pelas pesquisas mais
recentes, a esquerda poderá registrar, em 2026, seu pior desempenho em eleições
para governador no Nordeste desde a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à
Presidência, em 2002. Segundo os dados apurados pelo professor Medeiros, em
2018, partidos do chamado campo progressista governavam Estados que
concentravam cerca de 90% do eleitorado nordestino. Esse porcentual caiu para
74% em 2022 e pode recuar para 23% nas eleições deste ano. Caso isso se
confirme, será um baque e tanto para o PT e partidos aliados, que há tempos têm
no Nordeste seu principal reduto eleitoral.
Há múltiplas explicações para essa possível
mudança do perfil político-partidário dos governos estaduais da região. Como
Medeiros disse ao Estadão,
“o voto nordestino tornou-se mais volátil, urbano e pragmático”, mais sensível
a questões como custo de vida, segurança pública e qualidade dos serviços
públicos. Esse é um ponto crucial.
É fato que programas como o Bolsa Família e o
Minha Casa, Minha Vida, que durante muito tempo foram as vitrines eleitorais
mais reluzentes do lulopetismo no Nordeste, passaram a ser percebidos como
políticas de Estado. A associação quase automática entre esses programas e Lula
perdeu força. É lícito inferir que grande parte do eleitorado nordestino se
sente segura de que essas políticas públicas seguirão vigentes
independentemente de quem esteja no poder.
Mas a explicação mais relevante talvez esteja
na dificuldade crônica da esquerda em oferecer respostas aos problemas que hoje
mais afligem os cidadãos. Segurança pública é o exemplo mais eloquente. A
insistência em uma abordagem ideologizada, contaminada por uma leitura
sociológica do problema da violência urbana que relativiza a responsabilidade
do criminoso em nome de explicações estruturais, tem um preço eleitoral que
partidos à direita não costumam pagar.
Dois grandes Estados governados pelo PT,
Bahia e Ceará, são os exemplos mais bem acabados do fracasso da esquerda no
campo da segurança pública. O Anuário
Brasileiro de Segurança Pública mostra que, em 2024, a Bahia
registrou 40,6 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto o Ceará alcançou
37,5. Ambos só ficaram atrás do Amapá (45,1) como os Estados mais violentos do
País. São números impossíveis de fazer frente ao discurso da direita nessa
seara, que pode até não se materializar em boas políticas públicas, mas, no que
concerne ao apelo eleitoral, funciona como garantia de que providências duras
serão tomadas.
Naturalmente, nada disso autoriza predições
categóricas. A política brasileira é volátil, e o próprio lulopetismo ainda
dispõe de um ativo poderoso: a figura de Lula, incumbente cuja presença física
em campanhas estaduais continua sendo decisiva para viabilizar candidaturas.
Mas o fato de depender cada vez mais desse recurso revela fragilidade, não
força. O carisma de Lula, por si só, não basta ante a cobrança de respostas
concretas do próprio presidente às demandas de um eleitorado que mudou e ele
parece não ter se dado conta.
O Nordeste continua plural e politicamente relevante.
Justamente por isso, não é – e talvez nunca tenha sido – propriedade de um
partido ou de um campo político. Se a esquerda perder espaço na região, não
será por uma guinada ideológica dos nordestinos, mas pela incapacidade da
esquerda de compreender que o eleitor de 2026 exige mais do que memória afetiva
e programas sociais já consolidados.
A asfixia das agências
Por O Estado de S. Paulo
TCU quer saber por que o governo federal
deixou as agências reguladoras à míngua
O governo federal terá de justificar ao
Tribunal de Contas da União (TCU) os congelamentos orçamentários que se
tornaram frequentes nas agências reguladoras. Foi determinado ainda à Casa
Civil que apresente em até seis meses um plano para efetivar a autonomia
financeira das agências auditadas pela Corte de Contas e que regulam os setores
de energia elétrica (Aneel), petróleo e gás (ANP), telecomunicações (Anatel) e
mineração (ANM).
Apesar de fazer referência às quatro agências
que integraram o processo, a decisão tomada pelo TCU vale para todas as 11
autarquias federais que monitoram setores essenciais, a maioria deles
resultante da privatização de serviços públicos. Cortes de recursos não poderão
afetar a fiscalização nem o custeio dos órgãos que, de acordo com a avaliação
do tribunal, têm sofrido uma “asfixia orçamentária” nos últimos dez anos.
O veredicto do TCU não traz novidade alguma,
mas abre caminho para estancar uma sangria que há muito se reflete em prejuízo
para o consumidor, exposto a um maior risco de falhas na prestação dos
serviços. O sucateamento das agências é um processo antigo, e mesmo não sendo
exclusividade do lulopetismo, é particularmente acentuado em governos do PT,
crítico feroz tanto da privatização quanto da autonomia legal assegurada às
agências.
Especificamente neste terceiro mandato de
Luiz Inácio Lula da Silva, as agências têm sido enxergadas pelo governo como
meros instrumentos arrecadatórios. Repassam ao Tesouro os recursos que recebem
por meio de taxas, tarifas e multas e recebem de volta autorização para
utilizar parcela muitas vezes insuficiente para sua manutenção básica. Esse
dinheiro fica sob risco de contingenciamento sempre que o governo determina que
os ministérios (aos quais as agências estão vinculadas) congelem despesas para
tentar corrigir desequilíbrios fiscais.
Como também é notório, apesar do apagão
técnico e financeiro atual, algumas agências arrecadam mais do que necessitam
para custear suas atividades, mas a prioridade do governo tem sido reforçar o
caixa do Tesouro. O sucateamento impacta diretamente os cidadãos, expostos a
uma série de problemas, que vão de atrasos na aprovação de produtos, como
medicamentos, até uma maior exposição a fraudes no sistema financeiro, já que a
Comissão de Valores Mobiliários também é uma autarquia regulatória.
Embora muitas vezes a convivência entre
reguladores e regulados não seja fácil, não há como prescindir da atuação das
instituições que garantem, principalmente, a segurança do mercado. Quando uma
agência, como a ANP, informa que fechará as portas três dias úteis por semana
para economizar dinheiro, como ocorreu no ano passado, é sinal de que o descaso
do governo extrapolou qualquer limite. Assim como a vacância de cargos por
meses a fio salienta, ao mesmo tempo, o pouco-caso do Executivo e o interesse
em formar estoque para arranjos políticos.
A exigência do TCU está longe de se traduzir em solução para a atual crise regulatória. Mas tomara que seja o início de uma pressão mais forte para chegar a esse resultado.
Prevenção não pode tirar folga no carnaval
Por Correio Braziliense
Historicamente, esse período de intensa interação
social e relaxamento de inibições traz um desafio recorrente: o aumento da
vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs)
O carnaval é uma das principais manifestações
culturais do Brasil. Entre o brilho dos desfiles na Marquês de Sapucaí, no Rio
de Janeiro, o calor dos trios elétricos em Salvador, na Bahia, e as multidões
nos blocos de rua em Belo Horizonte, São Paulo e muitas outras capitais e
cidades, a atmosfera de celebração e liberdade contagia brasileiros e turistas
de diversos países. No entanto, historicamente, esse período de intensa
interação social e relaxamento de inibições traz um desafio recorrente: o
aumento da vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
A folia faz parte da identidade nacional e
deve ser incentivada, mas também é preciso promover a consciência coletiva no
quesito saúde pública. O cenário epidemiológico atual exige atenção. Dados do
Ministério da Saúde indicam que, embora o acesso à informação seja amplo, as
taxas de novas contaminações, especialmente entre jovens de 15 a 24 anos,
aparecem em patamares preocupantes. Doenças como HIV/Aids, sífilis, gonorreia e
HPV não "descansam" nos feriados festivos e encontram na mistura de
álcool com eventos prolongados o terreno fértil para se propagarem.
A estratégia de saúde pública no país
apresentou melhorias. Hoje, as campanhas não tratam apenas do uso da
camisinha — que continua sendo a barreira física mais eficaz e acessível
—, e o conceito de prevenção combinada tem introduzido importantes camadas de
autocuidado, com resultados significativos.
Atualmente, também é mais disseminada a
possibilidade de acesso a medidas de urgência, como o tratamento
antirretroviral, que evita a infecção se iniciado em até 72 horas em caso de
uma relação desprotegida. Além disso, boa parte da população se conscientizou
que saber o próprio status sorológico é um ato de responsabilidade individual e
social.
Outro ponto importante de avanço é a
orientação sobre as formas de contágio, tema que vem quebrando preconceitos,
especialmente dentro das escolas. Nesse aspecto, conteúdos direcionados para
esse aprendizado são essenciais, assim como a abertura para debates com os
adolescentes de uma forma que eles se sintam à vontade para tirar as dúvidas
sem julgamentos. Não menos relevante é o diálogo familiar, principalmente para
estabelecer uma base de confiança com os jovens. Sem contar que os responsáveis
precisam cumprir o dever de levar os menores para que sejam vacinados contra
HPV e hepatite B.
O estado, por sua vez, desempenha papel
estratégico na prevenção e controle dessas doenças. Por isso, a atuação não
pode se limitar à entrega de remédios e campanhas esporádicas. Ambas são
necessárias, porém é preciso atacar o problema em várias frentes. A
distribuição de preservativos e autotestes em postos médicos e circuitos de rua
é essencial, mas as iniciativas devem fazer parte de uma agenda prioritária dos
governos federal, com a compra de medicamentos e definição de protocolos;
estadual, com a coordenação da entrega de insumos e apoio técnico; e municipal,
com a execução direta das ações.
As ISTs são uma questão de saúde, não de moralidade. E quando o assunto deixa de ser um tabu, a prevenção correta chega antes do perigo. O carnaval, que é uma festa de vida, pede atenção. Celebrar com segurança significa entender que o prazer não é oposto ao cuidado e respeito. Depois da folia, quando chegar a quarta-feira de cinzas, o que deve restar são as memórias dos momentos de alegria, e não as consequências de uma negligência que poderia ter sido evitada com gestos simples.
Com desmate e menos chuva, agronegócio corre
riscos
Por Valor Econômico
Desde a década de 70, a vazão dos rios do
Cerrado diminuiu 27%
De “crises globais de água”, choques
temporários seguidos de recuperação, o mundo caminha agora para a “falência
hídrica global”, declarou a ONU em janeiro. Trata-se de uma escassez
persistente atingindo muitas regiões, o que implica maior disputa pela água
para o consumo humano e para a atividade econômica. Mesmo o Brasil, que abriga
16% dos recursos hídricos renováveis do planeta, começa a sentir os efeitos
dessa tragédia anunciada, resultado das mudanças climáticas e do efeito
cumulativo de décadas de desmate em importantes biomas - da Amazônia à Mata
Atlântica e ao Cerrado. Meteorologistas alertam que as regiões Sudeste e
Centro-Oeste, que concentram grandes centros urbanos e importante produção
agrícola exportadora e industrial, devem se preparar para uma seca severa este
ano.
Um planeta cada vez mais quente tem levado a
profundas mudanças no regime de chuvas. Nos últimos três anos, a temperatura
média global ficou mais de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais pela primeira
vez desde o início dos registros, segundo dados do Serviço de Mudanças
Climáticas Copernicus, da Comissão Europeia. Essas temperaturas recordes são
resultado principalmente do acúmulo de gases-estufa na atmosfera com a redução
da absorção de CO2 pelos sumidouros naturais (como a Floresta Amazônica), e de
temperaturas da superfície do mar em níveis excepcionalmente altos em todo o
oceano.
No Brasil, há 60 anos chove menos a cada ano.
Mesmo a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) - o equivalente às monções
da Ásia - está despejando menos água do que o esperado nas regiões Sudeste e
Centro-Oeste. Assim, o ano começou com importantes reservatórios em níveis
críticos em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A situação precária dos
reservatórios ocorre na sequência de uma onda de calor extremo que atingiu os
Estados do Sudeste em dezembro e início de janeiro, o que elevou o consumo de água,
enquanto a falta de chuvas reduziu a reposição dos lençóis freáticos e a
supressão de matas ciliares levou à seca de nascentes, diminuindo a vazão dos
rios. Acrescente-se a expansão da irrigação agrícola e a extração descontrolada
da água e o resultado é menos água doce disponível para o consumo humano e a
atividade econômica.
Apesar de ter começado a chover no fim de
janeiro no Sudeste, a situação continua crítica nos reservatórios, uma vez que
o pico da estação de chuvas termina este mês. Nos últimos 40 anos, a estação
chuvosa encurtou 25 dias no Sudeste e no Centro-Oeste, segundo estudo do Centro
Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden, O Globo,
27-1). No Cerrado, bioma que abriga as nascentes de oito das doze grandes regiões
hidrográficas do país, o encurtamento do período de chuva é ainda maior, de 56
dias, aponta um relatório da Ambiental Media de junho de 2025 que analisa 51
anos de dados da Agência Nacional de Águas (ANA).
Desde a década de 70, a vazão dos rios do
Cerrado diminuiu 27%, enquanto as chuvas caíram 21%. O bioma está secando. Os
sinais são evidentes no oeste da Bahia, o coração da fronteira agrícola de
Matopiba, onde cursos d’água antes confiáveis agora só aparecem após chuvas
intensas. Um mapeamento participativo realizado por organizações locais mostrou
que mais de 7 mil quilômetros de rios e córregos deixaram de fluir durante o
ano todo, aponta um estudo publicado em janeiro no site Trase, fundado pelo
Stockholm Environment Institute e a Global Canopy.
O Cerrado já perdeu mais de 50% de sua
cobertura original com o avanço do agronegócio. Isso tornou o Brasil um dos
maiores exportadores mundiais de soja e carne bovina e também de água - embora
esse custo ainda não esteja representado nos preços dessas commodities. A
pecuária brasileira precisa de 10,1 bilhões a 10,4 bilhões de metros cúbicos de
água por ano para manter o rebanho, de acordo com a Trase (Folha de S. Paulo,
1-2). Trata-se de um volume maior do que a soma do consumo das populações dos
Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná e mais o Distrito Federal,
que atinge 7,8 bilhões de metros cúbicos. A maior parte da água consumida pelos
animais vem de rios e aquíferos. Já a produção de soja consome de 188 bilhões a
206 bilhões de metros cúbicos de água anualmente, sete vezes a capacidade da
represa da usina hidrelétrica de Itaipu. No caso da soja, a maior parte desse
volume vem da água da chuva. Toda essa produção agora encontra-se em risco.
A deterioração das principais bacias hidrográficas para o abastecimento de água do país eleva a pressão competitiva entre setores empresariais, usuários domésticos e ecossistemas. Mas o futuro não é necessariamente de falência hídrica, como observou Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas. É preciso dar início a um plano de recuperação estruturado, estancar a sangria, proteger os serviços essenciais e investir na reconstrução. O primeiro passo para o enfrentamento é reconhecer de forma franca e objetiva a irreversibilidade das perdas até o momento, proteger os recursos hídricos remanescentes e elaborar políticas que correspondam à realidade hidrológica, em vez de normas do passado.
Por O Povo (CE)
Às vésperas de uma eleição, sobretudo de uma
que se anuncia novamente polarizada, há sempre a tentação de ceder ao impulso
de confundir o que é da esfera administrativa com aquilo que é estritamente do
âmbito da disputa política. Veja-se o caso dessa querela entre o Governo do
Estado e a Prefeitura de Juazeiro do Norte envolvendo a Patrulha Maria da
Penha.
Ainda no mês de janeiro deste ano, o
Executivo estadual informou que 29 municípios cearenses seriam beneficiados com
uma viatura do convênio celebrado entre a gestão do Abolição e as prefeituras.
O contrato prevê, além da cessão do veículo, a entrega de kits para a guardas
municipais, a quem caberá operar o patrulhamento, vital para a redução de
episódios de violência doméstica.
Maior cidade do interior do Ceará, Juazeiro
do Norte, na região do Cariri, não foi inicialmente contemplada no programa do
Governo. Reeleito em 2024, Glêdson Bezerra (Podemos), gestor caririense,
queixou-se da exclusão. Auxiliares do prefeito, por sua vez, atribuíram o
problema a divergências de natureza política com o governador Elmano de Freitas
(PT), mais agudas em ano eleitoral.
Vice-governadora do Estado, Jade Romero (MDB)
rebateu essas declarações. De acordo com a também secretária da Proteção
Social, Juazeiro teria aderido ao programa apenas em outubro de 2025, o que
acabou inviabilizando sua participação já agora. Pelas redes sociais, tanto
Elmano quanto Glêdson rejeitaram qualquer hipótese de "politicagem"
na contenda. Que bom que pensem assim.
Mas o fato é que Juazeiro, com seus mais de
300 mil habitantes, ficou de fora do projeto estadual, mesmo que
provisoriamente. Considerando-se as necessidades da população local, interessa
muito pouco se isso se deveu a uma letargia dos gestores, e aqui não se aponta
o dedo para ninguém, ou a possíveis desentendimentos entre o prefeito e o
governador, ambos eleitos para um mandato cujo principal objetivo é honrar os
compromissos assumidos não apenas com o eleitorado que lhe endereçou o voto.
Próprias de um regime liberal, as diferenças
políticas e ideológicas se resolvem nas urnas, no período apropriado para esse
embate, que é o da campanha eleitoral. Se deflagradas antes da hora, essas
tensões mais atrapalham que ajudam, principalmente num estado com números
crescentes de feminicídios como é o Ceará. Nele, a politização da violência é
danosa, primeiro porque dificulta a procura por respostas, segundo porque não
contribui para a constituição de políticas mais efetivas.
É de se esperar que o governador e os
prefeitos cearenses, alguns dos quais de oposição (da lista de 29 municípios
que vão receber viaturas da patrulha, apenas um não é da base da administração
petista), tenham clareza do papel que cada um deve cumprir no traçado
republicano.
A proximidade de um pleito não autoriza
qualquer autoridade, estadual ou municipal, a se deixar conduzir e a conduzir
os negócios do estado fiando-se na régua da corrida política, pela qual os
aliados têm primazia na distribuição dos frutos da administração, encarados
como rendimentos privados. A democracia não funciona assim.

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