Correio Braziliense
O governador joga a culpa sobre o povo do DF
ao decidir desapropriar seus eleitores e o restante da população para que
paguem pelo rombo que ele criou com a maior fraude bancária do Brasil
Faz dois anos que o Brasil assistiu às cenas
golpistas do 8 de Janeiro. Naquele domingo de 2023, nem as autoridades do
Executivo, do Judiciário ou do Legislativo, nem a imprensa conseguiram
localizar o governador do DF; ninguém ouviu sua voz de comando. Quando
ressurgiu, foi para aceitar que seus subordinados tivessem suas carreiras
profissionais interrompidas e fossem condenados a anos de prisão — sem uma
única fala assumindo responsabilidade. Seus subordinados, que sem dúvida
dividiam com ele a responsabilidade, estão pagando o preço e ficarão presos e
marcados por toda a vida.
Seu secretário de Segurança perdeu a carreira de policial federal e está preso, condenado a 24 anos — um quarto de século. Cinco oficiais superiores, comandantes da Polícia Militar, foram expulsos da corporação e cada um condenado a 16 anos de prisão. Enquanto isso, o governador, poupado de qualquer responsabilidade naqueles atos, participa de fraude bilionária usando o BRB e joga a culpa em novo subordinado.
Dois anos depois da tentativa de golpe,
agora, o governador deixa o presidente do BRB ser responsabilizado pela maior
fraude bancária do Brasil: culpado de desperdiçar R$ 12 bilhões de recursos de
um banco público, com o intuito de salvar um banco privado falido, em troca
ainda não se sabe de quais benefícios ou propinas. O mesmo que no golpe de 2023
se escondeu enquanto seus auxiliares caminhavam para a desonra e a cadeia,
condenados e presos, deixa agora a culpa para o presidente do BRB, que ele
nomeou e a quem acompanhou nas negociações.
A carreira desse profissional está
destroçada; talvez, seu destino seja perder patrimônio e liberdade, enquanto
seu chefe, sem poder negar presença, diz que "entrou mudo e saiu
calado" nas reuniões em que se decidiu desviar R$ 12 bilhões do banco do
DF, pertencentes não apenas a seus eleitores, mas a todos os cidadãos do
Distrito Federal. A culpa das fraudes, trapaças e negociatas, assim como das
tentativas de golpe, continua sendo dos outros.
Mas o governador não se limita aos seus
subordinados e, agora, joga a culpa sobre o povo do DF ao decidir desapropriar
seus eleitores e o restante da população para que paguem pelo rombo que ele
criou. Joga a culpa no povo ao propor a venda do patrimônio da população, atual
e futura, para cobrir o rombo e salvar o banco ameaçado de falir ou ser
incorporado à União. Propõe vender as terras reservadas para financiar a
construção de Brasília e seu desenvolvimento.
Sugere salvar sua culpa obrigando o povo a
pagar pelo erro que ele cometeu: sacrificar investimentos; reduzir gastos com
medicamentos de doentes, salários de servidores, segurança pública, merenda das
crianças, para cobrir o rombo que ele induziu. Um político tão rico que abriu
mão do salário de governador porque lhe pareceu insignificante e que achou a
residência oficial de Águas Claras tão pobre que preferiu ficar em seu palácio
pessoal não propõe usar sua fortuna para cobrir o rombo provocado por sua
irresponsabilidade. Apesar de seu imenso patrimônio, joga a culpa nos outros —
seu subordinado ex-presidente do BRB, o povo, seus eleitores, as crianças, os
doentes, os servidores.
Triste é que sua acusação termina sendo
aceita por aqueles a quem ele acusa e ficam calados. Na prisão, os golpistas
aceitam a culpa em silêncio, o povo aceita a culpa ao votar outra vez nele para
novo cargo, onde continuará errando e jogando a culpa nos outros. O silêncio
dos culpados presos e o voto dos culpados eleitores confirmam o que ele diz: a
culpa é realmente dos outros — dos que calam, dos que se omitem, dos que votam
e dos que não o julgam.
A culpa é dos deputados distritais que se
preparam para dar apoio à venda do DF a fim de salvar o banco. Aceitam a
culpa, protegem o patrimônio do governador, não convocam CPI e ainda dizem ao
povo que estão salvando o BRB. Triste ver que, no fim, estão dando razão a ele:
"A culpa é de vocês". Afinal, quem cala consente: o presidente que
ele nomeou aceita a responsabilidade por incompetência ou corrupção de quebrar
o BRB para salvar o Banco Master. Os eleitores aceitam a culpa ao verem o
patrimônio de seus netos evaporados e, ainda assim, votarem no responsável pela
fraude, pelo roubo, pelo rombo.
A culpa é dele, mas quem cala aceita a culpa.
*Cristovam Buarque — professor-emérito
da Universidade de Brasília (UnB)

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