quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O dogmatismo continua sendo uma tendência na era atual da humanidade. Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Contra os dogmas antigos, coragem; contra os novos, silêncio

O novo moralismo pune quem ousa rediscutir os consensos

Neste país, você não pode dizer impunemente que resultantes da mistura de negros, brancos ou indígenas não são uma subcategoria de negros. Uma jovem mestranda achou que podia transformar isso em agenda de pesquisa em uma universidade pública. Mostraram-lhe a porta da rua, depois de tentativas forçadas de reeducação ideológica. A certo ponto, a estudante já não era tratada como alguém que discutia posições hegemônicas, fazia novas perguntas e queria reexaminar pressupostos, mas como tola, inimiga ou imoral.

Como isso é possível? E, sobretudo, como isso é possível em uma universidade?

É simples: o dogmatismo continua sendo uma tendência intelectual nesta estação. Sabemos bem o que é o dogmatismo porque o pensamento moderno se forjou na luta contra ele.

Em filosofia política, dogma é a convicção que a fé ou a autoridade colocam fora do alcance da razão. O Iluminismo, que se insurge contra o dogmatismo e o obscurantismo, afirmava que o progresso humano e a vida em comum dependem do que pode ser examinado pela inteligência e livremente discutido em busca de consensos esclarecidos. Nada deve estar fora do alcance do exame racional e livre; não há crença, lei ou princípio que não possam ser discutidos.

Na psicologia social, dogmatismo é um modo rígido de pensar. A ênfase recai na inflexibilidade: o indivíduo dogmático resiste a evidências contrárias, evita a dúvida, fecha-se ao dissenso e concebe suas posições como fixas. É uma maneira de pensar. Se esse traço aparece mais na direita ou nos extremos de ambos os lados, continua sendo a controvérsia clássica da área. Há resultados consistentes para sustentar ambas as teses.

O que surpreende hoje são duas coisas.

Primeiro, que justamente as arenas institucionais por excelência da liberdade de pensamento —universidade e jornalismo, onde se fazem perguntas, se desafiam consensos e se testam certezas— tenham se tornado alguns dos principais espaços do dogmatismo e da ortodoxia. É mais que paradoxal, é contraditório, mas esses são os fatos.

Segundo, que a posição progressista, que se bateu por séculos por ciência, crítica, emancipação e desmistificação, seja agora protagonista de uma nova onda dogmática. Os progressistas não hesitam em declarar que determinadas proposições são indiscutíveis por princípio, fora do alcance do escrutínio da razão, blindadas do atrevimento da inteligência. Os ambientes sociais em que predominam formam mentes fechadas, dogmáticas, intolerantes. Negam fatos que não se encaixam em suas crenças ou que as incomodam, evitam livros, pessoas e ideias divergentes, simplificam de forma grosseira o campo adversário ("é tudo a mesma coisa"), aceitam com maior facilidade o uso da força contra divergentes, dependem da ortodoxia e passam a criminalizar as posições que não toleram. O Iluminismo prometeu libertar a dúvida; os progressistas a reclassificaram como ofensa, para fazê-la calar.

Nada disso tem a ver com importância temática. Segundo o recém-lançado livro "Brasil no Espelho", de Felipe Nunes, 96% dos brasileiros acham que Deus está no comando de suas vidas. Para uma grande parte da população, questões relacionadas à vida após a morte, à existência de um Deus onipotente e de uma ordem moral criada por ele são o que mais importa na vida de um ser humano —talvez a única coisa que realmente importe. Ora, neste país, não é considerado crime, imoralidade ou mancha indelével de caráter não acreditar em Deus nem em lei moral natural. Quase 80% afirmam, por exemplo, que alguém pode ser uma boa pessoa mesmo sem fé.

Agora diga que negros, como todo mundo, podem ser racistas; que racismo estrutural ou ambiental são hipóteses discutíveis; que políticas públicas baseadas em cotas raciais ou identitárias podem não ser nem justas nem eficientes; que "mulher" não é sinônimo de "pessoa que menstrua"; que mestiços não são negros de segunda classe; que não existem pessoas cis; que competência na matéria não é um valor menor que diversidade; que o feminismo não deveria ser uma luta contra os homens, mas contra a desigualdade; que, em um conceito rigoroso de democracia, tem de haver espaço para a direita e para conservadores —e veja a mágica acontecer.

Não é preciso afirmar o contrário; basta um "gostaria de rediscutir este ponto" para que se descubra o que o dogmatismo faz com quem o desafia. É surpreendente, mas, no novo consenso dogmático intelectual, é mais seguro duvidar da existência de Deus do que pedir para rediscutir qualquer cláusula do catecismo progressista.

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