O Estado de S. Paulo
A grande transformação da economia chinesa nas
últimas décadas é fruto do trabalho de pesquisa nas principais universidades do
país
Não surpreenderia se, em algum momento, a norteamericana Harvard e a britânica Oxford, duas das mais renomadas universidades do mundo, fossem igualadas ou superadas em termos de prestígio, produção acadêmica, qualidade de ensino ou por outro critério de avaliação. O que surpreende em recentes classificações internacionais é a avassaladora presença de instituições chinesas na lista das melhores. Em algumas classificações, das dez mais importantes universidades do mundo, as chinesas ocupam oito posições, inclusive as primeiras. Numa delas, mostrada em matéria do The New York Times publicada pelo Estadão na semana passada (O avanço das universidades chinesas, 3/2/26, C6 e C7), Harvard aparece na terceira posição; Oxford ficou fora da lista. A primeira é a Universidade de Zhejiang; há duas décadas, ela aparecia só na 25.ª posição.
É possível criticar algumas dessas listas e
compará-las com outras, nas quais universidades dos Estados Unidos e de outros
países ocidentais continuam a ocupar posições destacadas e uma ou outra chinesa
é incluída entre as melhores. Também se pode argumentar que, no que se refere a
artigos publicados em revistas especializadas e citações por outros autores,
pode haver alguma distorção, com referências recíprocas intensas entre acadêmicos
chineses. Mas o fato é que o ensino superior chinês passou por profundas
transformações nos últimos anos. Nem se pode falar que as grandes universidades
ocidentais deixaram de produzir conhecimento ou produzem menos. Elas continuam
muito ativas e produzindo mais pesquisas e artigos do que antes, mas a
velocidade de expansão da produção nas universidades chinesas foi muito maior
nos últimos anos e continua sendo.
O impacto desse fenômeno notável é igualmente
notável.
A grande transformação da economia chinesa
nas últimas décadas foi baseada na ciência, na tecnologia e na inovação, fruto
do trabalho de pesquisa nas principais universidades do país. “Diferentemente
de outras potências, a China orientou a maior parte (85%) de seus gastos
governamentais com pesquisa e desenvolvimento para atividades de
desenvolvimento experimental relacionado à fabricação e produção, em vez de
pesquisa básica ou pesquisa aplicada”, resumiu o Instituto de Estudos para o
Desenvolvimento Industrial (Iedi), em estudo sobre inovação e desenvolvimento
na China publicado em junho de 2025. “Transferir os motores da inovação de
organizações públicas de pesquisa para setores industriais, empregar os
investimentos públicos em pesquisa e desenvolvimento para ensejar a capacidade
de inovação dos setores industriais e melhorar a comercialização de resultados
das pesquisas básicas e aplicadas são objetivos considerados há muito tempo na
China.”
Embora pareça óbvia, a integração entre
geração de conhecimento e seu emprego para a melhoria do processo produtivo e
das condições de vida da população nem sempre é alcançada de maneira eficaz. No
caso brasileiro, o tema foi tratado em artigo anterior nesta página (
Conhecimento para quê?, 27/1/26). Quando essa integração se dá de maneira
fluida, como ocorreu na China, seu impacto pode ser espetacular.
Em artigo publicado no Jornal da USP há algum
tempo, o professor do Instituto de Física de São Carlos, Osvaldo Novais de
Oliveira Jr. lembrou que, no início da década de 1990, a produção científica da
China era, em termos numéricos, semelhante à do Brasil, e havia pouca
tecnologia produzida localmente. Mas o governo chinês, aproveitando a base de
uma educação pré-universitária de qualidade, impulsionou a produção científica
de qualidade em suas universidades. “A capacidade de gerar conhecimento
consolidado em publicações científicas foi complementada com a geração de
inovações tecnológicas”, segundo Novais de Oliveira. Ele lembra que esforço
semelhante, com resultados comparáveis, foi feito pelo Japão logo após o fim da
2.ª Guerra Mundial, o que propiciou “qualidade de vida à sua população e o
domínio de algumas áreas tecnológicas, como a automobilística e a eletrônica”.
A Coreia do Sul pode se transformar no novo exemplo.
Ao contrário do que faz o presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, que cortou verbas públicas para as principais
universidades americanas, em especial para Harvard – o que pode prejudicar
ainda mais seu desempenho no cenário internacional –, países como o Brasil
precisam fortalecer políticas públicas que estimulem a geração de
conhecimentos. Mas é preciso também que o setor produtivo, e a indústria em
particular, se valham dos conhecimentos gerados nos centros de pesquisa
científica. Para isso, porém, como advertiu o sociólogo e especialista em
desenvolvimento econômico e relações do trabalho José Pastore em conversa com o
autor, a indústria precisa renunciar ao protecionismo de que sempre gozou e
que, embora confortável financeiramente, a levou à estagnação e ao atraso
tecnológico.

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