É mais confortável a “guerra ideológica” do que refletir e debater democraticamente os problemas nacionais
As recentes declarações da ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, e de sua assessora Marcelle Decothé após a final da Copa do Brasil recolocou o extremismo às avessas no primeiro plano da cena política nacional. Ou seja, questões absolutamente secundárias, que mobilizam “gatos pingados”, deixam de lado os grandes problemas e – aí o perigo é maior ainda – jogam água no moinho do extremismo bolsonarista. Curiosamente, em um momento de enfraquecimento político de Jair Bolsonaro. Certamente, o mandrião deve ter agradecido entusiasticamente tanto à ministra, quanto à sua assessora.
Em inúmeras postagens nas
redes sociais, a assessora atacou os “brancos”. Para ela, todos os “brancos”
são culpados pelas mazelas brasileiras. É uma típica visão de um segmento da
(péssima) sociologia americana. Além da descontextualização histórica,
retira componentes classistas da esfera política e econômica. O primarismo
analítico é evidente. Além do que, qual seria o problema (ou suposto problema)
da torcida do São Paulo ser branca? Primeiro, a maioria dos seus torcedores não
são brancos. Especialmente desde os anos 1990, houve um grande crescimento do
número de torcedores do time do Morumbi — neste caso, relacionado com as
conquistas da era Telê Santana. Mas não estamos na África do Sul na época do
apartheid, como supõe a assessora. Pior ainda, ela ataca covardemente os
“paulistas”. Qual a razão (se é que poderia haver alguma razão) desta agressão?
E os palavrões na mesma postagem?
Para completar, a assessora,
seguindo os passos da ministra, “adota” o que chamam de linguagem neutra. Aí a
idiotia atingiu o ápice. É até ridículo, causa riso, a todos nós. Contudo, cai
como uma luva para os extremistas bolsonaristas que estão sempre à espreita,
aguardando a ação do outro extremismo. Vivem do confronto sem ideias, do
xingamento, das notícias falsas, do acirramento do que intitulam de
polarização. Isto porque ambos os extremismos não têm ideias, não imaginam, em
momento algum, refletir, analisar, estudar, debater, democraticamente os
grandes problemas nacionais. É mais confortável a “guerra ideológica”, denominação
daqueles que, no máximo, alcançam o senso comum como elemento de reflexão.
O Ministério da Igualdade Racial não pode se
transformar em Ministério da Desigualdade Racial. Seria mais recomendável ser
extinto e suas atribuições serem incorporadas pelo Ministério dos Direitos
Humanos. Em tempo: há voo comercial entre Brasília e São Paulo. E muitos.
*Publicado IstoÉ, nº 2803, 25/10/2023
Um comentário:
Linguagem neutra é de uma bobagem sem fim,rs.
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