sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Fascistas normalizam o bolsonarismo? - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Questões que alimentam as guerras culturais podem ser resolvidas ou pelo menos iluminadas por uma análise da linguagem

Alguns representantes do positivismo lógico já acalentaram a ideia de que todos os problemas filosóficos seriam na verdade problemas linguísticos, que poderiam ser resolvidos com uma readequação da linguagem. Como projeto totalizante, essa ideia fracassou, mas daí não se segue que não existam problemas filosóficos que podem ser solucionados ou ao menos iluminados por uma análise da linguagem.

Donald Trump é fascista? A mídia normaliza líderes autoritários? Existe bolsonarismo moderado? Penso que essas três perguntas e as múltiplas respostas que comportam se alimentam de confusões linguísticas, mais especificamente da polissemia de seus termos principais.

Com efeito, "fascista" designa primariamente a ideologia de extrema direita que chegou ao poder na Itália no início do século 20. Como não estamos na Itália do início do século 20, não faria sentido chamar personagens atuais de fascistas, se quisermos usar as palavras da forma mais técnica possível. No mínimo, seria preciso acrescer-lhe o prefixo "neo".

Mas "fascista" significa também "gente autoritária de direita" e encerra carga pejorativa. No contexto de uma campanha eleitoral, é normal referir-se a oponentes de forma pejorativa, assim como os trumpistas chamaram Kamala Harris de "comunista".

Algo parecido vale para "normalizar", que tem tanto o significado frequentista de "ser ou tornar corriqueiro" como o ético de "considerar moralmente aceitável". A ambiguidade se presta a confusões e manipulações.

Quanto ao "bolsonarismo moderado", são dois termos que evito conjugar. Mas não sou fiscal de adjetivos. Essa é só uma preferência minha, que não muda o fato objetivo de que, de quaisquer dois políticos que você compare, haverá fatalmente um que é mais moderado (ou menos radical) que o outro. E não dá para dizer que não faça diferença ser governado por um Ricardo Nunes ou por Bolsonaro em pessoa.
Não vejo como sair do imbróglio. Se nem filósofos mais sonham com uma linguagem à prova de confusões, a política vive justamente do ruído entre as múltiplas acepções das palavras.

 

3 comentários:

Mais um amador disse...

" Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado. "

Benito Mussolini

Os ( neo )fascistas daqui são apenas cópias de 9a. categoria dos originais.

O que eles querem do Estado são os recursos públicos e se dar muito bem nas negociatas particulares.

😏😏😏

ADEMAR AMANCIO disse...

Ricardo Nunes é menos radical,concordo.

Daniel disse...

O colunista cometeu uma impropriedade ao usar a expressão "Bolsonaro em pessoa". Ela é intrinsecamente contraditória, pois Bolsonaro não é pessoa, já que não é humano. É a própria maldade personificada, a materialização do Mal, mas certamente não é humano.