sábado, 7 de fevereiro de 2026

Algumas notas sobre o eleitor da juventude brasileira, por Vagner Gomes

Se houvesse a polarização afetiva do voto consolidada nas faixas etárias, saberíamos antecipar com precisão o voto da juventude brasileira nas próximas eleições gerais. Um eleitorado que está em queda percentual à medida que há uma transição demográfica do país no sentido do envelhecimento. Contraditoriamente, as candidaturas mais novas em idade tem ganhado mais confiança do eleitor. Segundo Maquiavel, “os homens esquecem mais depressa a morte do pai do que a perda do patrimônio.” (Capítulo XVII de O Príncipe).

O eleitor nascido após o ano de 2002 certamente não tem a memória política dos ajustes fiscais e suas consequências sociais para chegar à estabilidade econômica. A ideia da “Bolsa Escola” se perdeu assim como o “Orçamento Participativo” ao longo do tempo. A memória política se esvai rapidamente num país aonde a crise da educação (por exemplo, os jovens hoje leem muito bem sem compreender aquilo que leem) atingiu de forma grave os estudos de humanidades, como os indicadores do IDEB provavelmente irão confirmar assim que forem divulgados os resultados do ano passado.

Assim, a juventude mantém sua característica de força política contestadora das elites políticas. E esse segmento da juventude compreende a elite política como todos aqueles que fazem parte da governança. “Si hay gobierno, soy contra” (“Há governo? Sou contra!”) é o lema que ronda a mente desse segmento que “namorou” a campanha de Pablo Marçal em 2024 e se sentiu “anistiada” no reencontro do mesmo com o atual Secretário-Geral da Presidência da República na lamentável Live de 25 de outubro de 2024. Uma vez que não foi resultado de uma aliança política programática, mas o aprofundamento do comportamento político e eleitoral do individualismo. Assim Maquiavel escreveu que “aqui existe bastante valor no povo, embora faltem chefes.” (Capítulo XXVI de O Príncipe).

O individualismo ganha uma força avassaladora num cenário político em que o voto de opinião deixou de existir com a emergência do “voto de permuta”. Ai se encontra uma juventude aguardando sempre uma promessa de “ganho político”, o que faz um programa como o “Pé de Meia” ser lido como gerador de um eleitor jovem ressentido, uma vez que um programa público que prioriza um nicho do conjunto da juventude impede que haja um entendimento republicano. Outro registro de Maquiavel: “porque o objetivo do povo é mais honesto do que o dos poderosos; estes querem oprimir e aquele não ser oprimido.” (Capítulo IX de O Príncipe). O eleitor na juventude brasileira acabou por se educar no voto empreendedor, ou seja, maximize seus interesses individuais ou seus reconhecimentos identitários e sempre renegue esse sistema político.

As considerações de Pierre Rosanvallon em A contra democracia: a política na era da desconfiança seria relevante em nossa avaliação. Segundo ele:

Votar e julgar constituem dois meios de intervir na organização da vida da pólis. Há, certamente, uma dissemetria entre o princípio do sufrágio universal, que rege o voto, e o princípio de competência delegada sobre o qual se apoia a intervenção do juiz. Mas essa distância é apenas relativa. Testemunha isso a figura intermediária do cidadão-jurado que é até mesmo dotado, em vários aspectos, de um poder muito mais extenso do que o do cidadão-eleitor. Testemunha também o fato de a publicidade das ações que se desenrolam nas cortes de justiça ser frequentemente mais bem assegurada do que a publicidade das atividades parlamentares. (…) (ROSANVALLON, 2022, p. 259)

Então, podemos identificar a preferência pelo julgamento na política na via da abstenção política ou pela comparação entre candidaturas pela via da rejeição. O jovem é o “cidadão-jurado” com menos tempo de experiência na observação política e sem que tenha os efeitos mediadores das juventudes partidárias e lideranças estudantis que se deixaram cooptar pelos cargos comissionados. O eleitor jovem se vê diante das redes sociais se identificando com um “voto de rebanho”, sem qualquer compromisso com a ética da responsabilidade, ou seja, sem pensar nas consequências de suas ações.

O pensamento retrógrado é uma variável em ascensão entre os eleitores da juventude que tem pouca afeição à prática dos princípios liberais da tolerância de costumes e de valores políticos. Iliberais a favor da liberdade econômica, pois querem ser seus próprios gestores nesse mundo interpretado como um caos. Outra vez a educação é compreendida como parte dessa sociedade de espetáculo que se manifesta no eleitor jovem como um eleitor simplesmente, que aplaude ou que vaia. Entretanto, o sufrágio universal na democracia teria como objetivo aproximar as visões pluralistas dos eleitores.

Nossos jovens preferem se afastar e se apoiar em um perfil de “vingadores”, como as juventudes que se reuniram em grupos políticos no entreguerras do século passado. Então, esperemos que nos próximos meses a política das forças democráticas se repactue com elementos programáticos que ocupem o campo político do centro sem deixar dúvidas sobre os perigos que ocorrem à nossa Democracia nas seguidas tentativas de lhe retirar os ganhos sociais e democráticos da Carta de 1988.

*Vagner Gomes é Doutorando no PPGCP-UNIRIO.

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