O eleitor nascido após o ano de 2002 certamente não tem a memória política dos ajustes fiscais e suas consequências sociais para chegar à estabilidade econômica. A ideia da “Bolsa Escola” se perdeu assim como o “Orçamento Participativo” ao longo do tempo. A memória política se esvai rapidamente num país aonde a crise da educação (por exemplo, os jovens hoje leem muito bem sem compreender aquilo que leem) atingiu de forma grave os estudos de humanidades, como os indicadores do IDEB provavelmente irão confirmar assim que forem divulgados os resultados do ano passado.
Assim, a juventude mantém sua característica
de força política contestadora das elites políticas. E esse segmento da
juventude compreende a elite política como todos aqueles que fazem parte da
governança. “Si hay gobierno, soy contra”
(“Há governo? Sou contra!”) é o lema que ronda a mente desse segmento que
“namorou” a campanha de Pablo Marçal em 2024 e se sentiu “anistiada” no
reencontro do mesmo com o atual Secretário-Geral da Presidência da República na
lamentável Live de 25 de outubro de 2024. Uma vez que não foi resultado de uma
aliança política programática, mas o aprofundamento do comportamento político e
eleitoral do individualismo. Assim Maquiavel escreveu que “aqui existe bastante
valor no povo, embora faltem chefes.” (Capítulo XXVI de O Príncipe).
O individualismo ganha uma força avassaladora
num cenário político em que o voto de opinião deixou de existir com a
emergência do “voto de permuta”. Ai se encontra uma juventude aguardando sempre
uma promessa de “ganho político”, o que faz um programa como o “Pé de Meia” ser
lido como gerador de um eleitor jovem ressentido, uma vez que um programa
público que prioriza um nicho do conjunto da juventude impede que haja um
entendimento republicano. Outro registro de Maquiavel: “porque o objetivo do
povo é mais honesto do que o dos poderosos; estes querem oprimir e aquele não
ser oprimido.” (Capítulo IX de O
Príncipe). O eleitor na juventude brasileira acabou por se educar
no voto empreendedor, ou seja, maximize seus interesses individuais ou seus
reconhecimentos identitários e sempre renegue esse sistema político.
As considerações de Pierre Rosanvallon
em A contra democracia: a
política na era da desconfiança seria relevante em nossa
avaliação. Segundo ele:
Votar e julgar constituem dois meios de
intervir na organização da vida da pólis. Há, certamente, uma dissemetria entre
o princípio do sufrágio universal, que rege o voto, e o princípio de
competência delegada sobre o qual se apoia a intervenção do juiz. Mas essa
distância é apenas relativa. Testemunha isso a figura intermediária do
cidadão-jurado que é até mesmo dotado, em vários aspectos, de um poder muito
mais extenso do que o do cidadão-eleitor. Testemunha também o fato de a
publicidade das ações que se desenrolam nas cortes de justiça ser
frequentemente mais bem assegurada do que a publicidade das atividades
parlamentares. (…) (ROSANVALLON, 2022, p. 259)
Então, podemos identificar a preferência pelo
julgamento na política na via da abstenção política ou pela comparação entre
candidaturas pela via da rejeição. O jovem é o “cidadão-jurado” com menos tempo
de experiência na observação política e sem que tenha os efeitos mediadores das
juventudes partidárias e lideranças estudantis que se deixaram cooptar pelos
cargos comissionados. O eleitor jovem se vê diante das redes sociais se
identificando com um “voto de rebanho”, sem qualquer compromisso com a ética da
responsabilidade, ou seja, sem pensar nas consequências de suas ações.
O pensamento retrógrado é uma variável em
ascensão entre os eleitores da juventude que tem pouca afeição à prática dos
princípios liberais da tolerância de costumes e de valores políticos. Iliberais
a favor da liberdade econômica, pois querem ser seus próprios gestores nesse
mundo interpretado como um caos. Outra vez a educação é compreendida como parte
dessa sociedade de espetáculo que se manifesta no eleitor jovem como um eleitor
simplesmente, que aplaude ou que vaia. Entretanto, o sufrágio universal na
democracia teria como objetivo aproximar as visões pluralistas dos eleitores.
Nossos jovens preferem se afastar e se apoiar em um perfil de “vingadores”, como as juventudes que se reuniram em grupos políticos no entreguerras do século passado. Então, esperemos que nos próximos meses a política das forças democráticas se repactue com elementos programáticos que ocupem o campo político do centro sem deixar dúvidas sobre os perigos que ocorrem à nossa Democracia nas seguidas tentativas de lhe retirar os ganhos sociais e democráticos da Carta de 1988.
*Vagner Gomes é Doutorando no PPGCP-UNIRIO.

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