A primeira providência de um líder
autoritário é tentar minar, esvaziar, anular, confrontar as instituições.
Donald Trump tem dado sucessivos exemplos disso. Atropela o Poder Judiciário
numa tempestade torrencial de decretos inconstitucionais e ilegais. Tenta
desmoralizar a ONU como fórum que reflete o pacto global pós-guerra, obstruindo
seu papel de arbitragem. Revive um mercantilismo tardio usando politicamente as
tarifas de importação e decretando o fim da OMC e da globalização. Desconhece, vezes
seguidas, o Congresso americano. O sequestro ilegal do ditador venezuelano
Nicolas Maduro, as escaramuças em relação à Groelândia e o assassinato de Rene
Good e Alex Pretti pela polícia americana anti-imigração expõem até onde podem
chegar os delírios autoritários do atual presidente dos EUA.
Aqui no Brasil, há rusgas entre os poderes da
República, desgastes aqui e ali, mas não há uma confrontação direta contra a
ordem institucional. O último risco foi a tentativa de golpe de Estado em 2022.
Mas há um incômodo crescente: o abismo existente entre as elites no poder e o
cidadão comum. Não basta ancorar a estabilidade institucional na Constituição e
nas leis. É preciso haver um ambiente de confiança e credibilidade, se possível,
que os cidadãos admirem seus dirigentes a partir de seus exemplos de vida.
A
renda média mensal dos brasileiros é em torno de 3.600 reais. Grande parte vive
em condições de pobreza ou até miséria. Como pode a sociedade achar normal
familiares de um ministro do STF fecharem um inusual contrato de serviços
advocatícios de 130 milhões de reais e outro ex-membro da nossa Corte Suprema e
ex-ministro do governo um contrato de 6 milhões de reais com o Banco Master,
acusado de lesar investidores e investigado por operações fraudulentas? Também
um ex-ministro da fazenda vira consultor desse mesmo banco, com salários de 1
milhão de reais por mês. Decisões monocráticas anulam penas de bilhões de reais
numa penada, mesmo os réus sendo confessos, por erros processuais cometidos. Privilégios
para a elite são ampliados. A liturgia dos cargos é arquivada por relações
incestuosas entre agentes públicos e interesses privados.
Como um morador pobre da periferia das
cidades ou do campo pode ter esperança e confiança nas instituições? São mundos
desconectados.
Nos EUA, as manifestações de Minneapolis e os
resultados de eleições isoladas recentes em Minnesota e no Texas anunciam o
início de uma reação social. No Brasil, há desencanto e desmobilização. As
eleições de 2026 caminham para um perfil tradicional. No entanto, não nos
esqueçamos das grandes jornadas de 2013. Elas surpreenderam as elites e representaram
uma explosão social espontânea. E que já tivemos, mais de uma vez, outsiders
populistas vitoriosos por sua posição antissistema.
Quem semeia vento, colhe tempestade!

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