sábado, 7 de fevereiro de 2026

Por mais cotas, ou nenhuma. Por Eduardo Affonso

O Globo

Programas devem ser vistos como ‘auxílios emergenciais’, não como direito adquirido, subsídio a eternizar. São paliativos

Pablo Ortellado defendeu, em coluna recente, que a melhor forma de garantir as cotas raciais é ampliar o debate, mostrando seus resultados positivos. Para reverter o decrescente apoio popular, bons argumentos valeriam mais que blindagem. No dia seguinte, Flávia Oliveira tratou do mesmo tema, considerando o assunto encerrado: qualquer discussão sobre as cotas é retrocesso e racismo. Sou Team Pablo na teoria: o debate ilumina, ajuda a construir o consenso. Sou Team Flávia na prática: ninguém solta a cota de ninguém, nenhuma cota a menos; mexeu com uma, mexeu com todas.

Há cotas para pretos, pardos, indígenas e quilombolas — e comissões que escrutinam narizes, lábios, cabelos, melanina, filtrando os elegíveis a essas quatro categorias. É hora de rever e decolonizar tais critérios (made in USA), para incluir cafuzos, caboclos, mamelucos, caburés. Acobreados, amorenados, acastanhados, sapecados, bem-chegados. Retintos, trigueiros, jambos, fulos, sararás. Os que se dizem melado, canela, chocolate, café-com-leite. Ou macua, cardão, jamelão, bronze, bugre, guituta, galego, fogo-pagô, arubana, saraúba, araçá. Era assim — entre 136 variações — que o brasileiro se via no policromático censo de 1976. Estratégias de branqueamento ou acolhimento da diversidade? Você decide.

Também há cotas para trans: por que não para bi, poli, pan e assexuais? Para não binários, fluidos, queers, intergêneros, agêneros? Para os abrossexuais, alotrossexuais, autossexuais, ceterossexuais, cupiossexuais, demissexuais, omnissexuais, sapiossexuais, escoliossexuais, espectrossexuais? Para os menos, os mais, os médios, os por demais?

Proponho cota no STF para os sem contrato com o Banco Master, os sem parentes envolvidos nos casos que julgam, os sem medo de impeachment, os sem decisão monocrática, os sem Tayayá.

Cota para os sem-terra, os sem-água, os sem-fogo, os sem-ar. Para as vítimas da ditadura da beleza, da ditadura do proletariado, da ditadura do politicamente correto, da ditadura militar. Para os sem triplex, os sem mansão em Trancoso, os sem-teto, os sem-chão.

Cotas nasceram com a melhor intenção: permitir que grupos historicamente excluídos ocupassem espaços de prestígio nas universidades e no serviço público, ajudando a superar as desigualdades causadas pelo preconceito, pela escravidão. Não dá para ser contra isso — nem contra o Bolsa Família, que garantiu mais saúde e alguma segurança alimentar. O problema é que esses programas devem ser vistos como “auxílios emergenciais”, não como um direito adquirido, um subsídio a eternizar. São paliativos, não solução estrutural. E podem fazer crer que pretos, trans etc. só conseguirão ter o mesmo padrão dos brancos e dos cis se tiverem um empurrãozinho da sociedade. Sem investimento maciço no ensino fundamental, cota racial e para estudante de escola pública será a perpetuação da diferença. E acabará fazendo pelos “desprivilegiados” algo similar ao que a reserva de mercado fez pelo nosso desenvolvimento tecnológico. Sob o discurso de proteger, trouxe menos inovação, menos eficiência, menos competitividade, mais acomodação.

Cotas seriam desnecessárias num país com educação de qualidade e com disparidades não tão acintosas. Ou se investe nisso ou teremos de ir ampliando esses acessos alternativos — com o Brasil continuando do jeito em que está, e a menor das minorias sendo, em breve, a dos sem-cota.

 

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