CartaCapital
O presidente brasileiro busca aproximação com
governos ultraconservadores para frear o avanço de Trump
Dias depois da vitória de Lula em 2022, a equipe de transição começou a reavaliar a política externa brasileira, profundamente abalada pelo governo de Jair Bolsonaro. Uma das prioridades era restaurar a integração sul-americana como um projeto viável para a região. Nos primeiros meses de mandato, o presidente convocou os líderes de todos os países do subcontinente a Brasília, retomou projetos paralisados e orientou o Itamaraty a encarar a região como um espaço estratégico para os interesses nacionais.
À época, os ventos sopravam em outra direção.
Na Argentina, a vitória do ultradireitista Javier Milei abriu uma fratura
significativa no coração do Mercosul e, em 2024, o retorno de Donald Trump à
Presidência dos EUA desmontaria a ambição brasileira de reconstruir uma América
do Sul unida. A Casa Branca passou a tratar a região como prioridade, exerceu
pressão, recorreu à chantagem e estabeleceu novas alianças.
Em menos de um ano, a diplomacia trumpista
fechou acordos militares com o Paraguai, transformou a Argentina em uma espécie
de protetorado econômico, garantiu apoio tácito aos projetos de segurança no
Equador e, nos bastidores, apoiou movimentos de direita nas eleições do Chile e
da Bolívia. Não bastasse, o ano de 2026 começou com o sequestro de Nicolás
Maduro por tropas norte-americanas e a transformação do governo de Delcy
Rodríguez em uma marionete dos interesses de Washington.
No Palácio do Planalto, havia o temor de que
se formasse uma aliança regional contra Lula, especialmente diante das eleições
presidenciais de 2026. Havia também o receio de que governos sul-americanos,
guiados por Washington, pudessem desestabilizar o País e comprometer o processo
democrático. Outro risco era criar na região a impressão de que o Brasil não
seria o candidato natural da América Latina a um assento permanente no Conselho
de Segurança da ONU, uma antiga ambição do Itamaraty.
A nova realidade regional obrigou o governo a
reavaliar sua estratégia. A integração baseada em afinidades ideológicas ou
políticas estava enterrada. Nos bastidores, a ordem era implementar ações para
desmobilizar a extrema-direita e neutralizar qualquer ingerência externa na
eleição. A prioridade da política externa passou a ser a preservação da
democracia.
Para isso, foi instituído um processo de
“desideologização” da política externa, reflexo, para muitos, da própria
trajetória de Lula de acomodar posições em prol de um objetivo maior. É o que
passou a ser chamado, dentro do governo, de “integração possível”. Se houver
foco em ideologia, não há acordo. No entanto, se projetos concretos de
interesse mútuo forem a base da relação, ela pode prosperar. O lema é simples:
uma ponte construída não é de esquerda nem de direita. E ela pode atender aos
interesses estratégicos do Brasil, reforçando sua posição de liderança na
região.
O primeiro passo foi salvar o Mercosul e
evitar sua implosão. A arma do governo Lula foi acelerar o acordo comercial com
a União Europeia, estabelecendo que, para ter acesso privilegiado aos mercados
europeus, o governo de Javier Milei precisaria permanecer no bloco, apesar de
todas as críticas. A jogada defensiva parece ter funcionado, ao menos por
enquanto.
Outro gesto foi a aproximação com Rafael
Noboa, presidente ultraconservador do Equador. Em agosto do ano passado, Lula
recebeu Noboa para a primeira visita de Estado entre os dois países em 18 anos.
Na pauta, uma agenda concreta: retomada da compra, pelo Brasil, de camarões e
bananas do Equador; cooperação policial no combate ao narcotráfico; e o envio
de adidos policiais nas embaixadas de ambos os países. Também foram debatidas
ligações físicas entre o Porto de Manta e a cidade de Manaus, encerrando uma
paralisia nas negociações que existia já em 2007.
Desde o início de 2026, o chanceler Mauro
Vieira realiza uma turnê por países sul-americanos, como Peru, Bolívia e
Equador. A aproximação estratégica de Lula aos governos de direita teve outro
capítulo importante com sua visita, na semana passada, ao Panamá. O presidente
brasileiro recebeu do homólogo José Raúl Mulino a maior honraria concedida pelo
país centro-americano. “Consolidamos uma relação muito importante, como
políticos e como amigos, que hoje se traduz no início de um mecanismo de
cooperação bilateral entre o Panamá e o Brasil”, destacou Mulino.
Lula ofereceu avançar as negociações do
acordo de preferências tarifárias para apoiar a adesão do Panamá como Estado
Associado do Mercosul, assinou acordos de cooperação em turismo e gestão
portuária, e defendeu a neutralidade do Canal do Panamá, alvo da cobiça de
Trump.
O Itamaraty também se preocupa com
interferências externas nas eleições deste ano
O trabalho também se deu nos bastidores: Lula
reuniu-se com o presidente eleito do Chile, José Antonio
Kast, aliado de Milei e expoente da extrema-direita. O Palácio do
Planalto divulgou um vídeo em que ambos conversam de forma descontraída e
trocam bandeiras na lapela do terno. Na agenda, Lula apresentou temas concretos
de cooperação ao chileno, apesar da profunda distância ideológica. “Isso
transcende qualquer diferença política, pois o que nos move é melhorar a
qualidade de vida de nossos compatriotas”, afirmou Kast, após uma hora e meia
de reunião com Lula.
O combate ao crime organizado, bandeira do
futuro presidente chileno, também entrou na agenda. Houve ainda sinalização de
que os dois países têm interesse na estabilização da Venezuela, uma vez que
tanto o Brasil como o Chile recebem números importantes de imigrantes. Kast
venceu sua eleição prometendo o controle da imigração em seu país.
Outro encontro de Lula foi com Rodrigo Paz,
presidente boliviano que derrotou a esquerda e teve sua vitória celebrada por
Trump. O centro do debate foram as “rotas para a integração sul-americana e
alternativas para garantir o acesso da Bolívia a portos e ao escoamento de sua
produção”. Lula convidou Paz a realizar uma visita de Estado ao Brasil, com
empresários, prevista para meados de 2026, reforçando a aproximação estratégica
com um governo valorizado pela Casa Branca.
Entre diplomatas latino-americanos, o
movimento é visto como uma tentativa do Brasil de oferecer uma alternativa à
“Doutrina Donroe” – uma atualização da Doutrina Monroe, de 1825, promovida por
Donald Trump para garantir hegemonia política, militar e econômica na região. A
esperança do Brasil é de que, com essa contraoperação, consiga criar um espaço
de autonomia, frear a estratégia de controle do Hemisfério Ocidental pelos EUA
e proteger a eleição brasileira de interferências da extrema-direita. •
Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital,
em 11 de fevereiro de 2026.

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