Corrupção é nódoa persistente na imagem do Brasil
Por O Globo
Estagnação em ranking de percepção sobre
combate aos corruptos prejudica investimentos
Se as instituições brasileiras que repeliram uma tentativa de golpe demonstrassem o mesmo vigor no combate à corrupção, o país subiria vários degraus no estágio de desenvolvimento. A corrupção endêmica se traduz em maior insegurança jurídica e em maior risco para os investidores. Infelizmente, o país tem se mostrado incapaz de combater essa chaga. E a percepção externa não melhora. Desde 2018, o Brasil está estagnado em patamar abaixo da média no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), calculado pela ONG Transparência Internacional. Em 2025, obteve 35 pontos numa escala de zero a cem, repetindo sua segunda pior nota. Num ranking liderado por Dinamarca (89), Finlândia (88) e Cingapura (84), ficou abaixo das médias das Américas e dos países pesquisados, ambas em 42 pontos. Com esse resultado, ocupa o 107° lugar entre 182 países. Vale lembrar que houve piora tanto na nota quanto na posição brasileira desde 2012, quando o índice foi criado.
Os três Poderes contribuem para a má
colocação do país na pesquisa, no entender de Bruno Brandão, diretor executivo
da Transparência Internacional-Brasil. “Embora o Executivo tenha promovido
avanço importante no uso de inteligência financeira para o combate à lavagem de
dinheiro associada ao crime organizado, também falhou muito, permitindo a
captura de agências regulatórias, além de manter a barganha política baseada na
farra das emendas”, diz ele.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca
escondeu sua aversão às agências reguladoras, equivocadamente consideradas por
ele instrumento de terceirização do governo. Com o tempo, a indicação de seus
diretores passou a ser avaliada pela régua da política. Quanto às emendas
parlamentares, elas cresceram de maneira desmedida, no vácuo de governos
frágeis no relacionamento do Congresso. Emendas individuais e de bancadas
estaduais passaram a ser impositivas, e seus valores explodiram. Em dez anos, o
total de emendas impositivas aumentou 2,5 vezes em relação à Receita Corrente
Líquida (de 1,2% entre 2015 e 2019 para 3% entre 2023 e 2025).
O Congresso contribuiu para relaxar o combate
à corrupção ao suavizar a Lei de Improbidade, a Lei da Ficha Limpa e outras
legislações. A Ficha Limpa, em especial, funciona como uma barreira a
candidatos condenados em segunda instância pela Justiça ou na esfera
administrativa. O fortalecimento do crime organizado aumentou ainda mais a
importância desse tipo de legislação, mas o Congresso tem dado de ombros para a
realidade.
A Transparência Internacional também critica
o Supremo Tribunal Federal (STF). Embora decisões recentes tentem dar
transparência às emendas parlamentares, outros processos têm garantido
impunidade em escândalos de corrupção, em particular os desmascarados pela
Operação Lava-Jato. Merece menção especial o caso de ministros que “aparecem
com vínculos altamente suspeitos a empresas com casos na Corte”, referência aos
escândalos que têm cercado as apurações em torno do Banco Master. Pelo menos
esse assunto ainda não teve desfecho. O presidente do STF, Edson Fachin, não
parece disposto a recuar na decisão de discutir e aprovar um Código de Ética
para a Corte. Além de oportuna e necessária, a iniciativa também poderá
melhorar a posição do Brasil em pesquisas sobre a percepção de corrupção.
É preciso blindar corporações policiais
contra infiltração do crime
Por O Globo
Investigação da corregedoria paulista
identificou agentes da Rota atuando como seguranças para o PCC
A investigação da Corregedoria da Polícia
Militar de São Paulo que
identificou agentes da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) trabalhando
como seguranças de dirigentes de uma empresa de ônibus punida por ter vínculos
com o PCC (Primeiro
Comando da Capital) é mais uma confirmação de como o crime organizado tem se
infiltrado nas instituições da República. O Rio de Janeiro tem longa história
de relação deletéria entre policiais e o jogo do bicho. É triste que a
hegemonia do PCC em São Paulo também tenha resultado em vínculos da mesma
natureza na tropa de elite da polícia paulista.
As investigações constataram que, enquanto
faziam a segurança de suspeitos de ligação com o PCC, os PMs também atendiam o
ex-vereador Milton Leite (União), presidente da Câmara Municipal por seis
vezes. Ele é acusado de ser o verdadeiro proprietário da empresa de ônibus
envolvida com os criminosos, a Transwolff, um dos alvos da Operação Fim de
Linha, em abril de 2024, que desbaratou esquemas de lavagem de dinheiro do PCC
usando concessionárias de transporte público. Três dos sete PMs investigados
foram presos. Eles trabalharam entre 2020 e 2024 como guarda-costas de dois
diretores da Transwolff, denunciados como integrantes do PCC que operavam para
lavar dinheiro. Quem gerenciava a escala dos seguranças era um capitão da PM e
ex-assessor militar da Câmara Municipal, também preso. Todos eram da Rota.
À medida que o PCC se fortalece, munido de
regras próprias, hierarquia e fachadas legais, é natural que tente corromper
mais agentes dos aparelhos de segurança pública. Um caminho para aliciá-los é a
oferta de trabalho no período de folga, o “bico”, prática formalmente proibida
pela PM paulista.
Conexões entre criminosos, quartéis de PMs e
delegacias não são novidade. Por ocasião do assassinato do delator Vinícius
Gritzbach no Aeroporto de Guarulhos em 2024 — um recado a quem ousasse
testemunhar contra o PCC —, o inquérito da Polícia Civil denunciou PMs por
envolvimento no crime, dois deles como executores diretos.
O grave é casos desse tipo se espalharem pelo país, no rastro da expansão nacional e internacional de facções como PCC, Comando Vermelho (CV) e congêneres. O combate ao crime organizado exige ação conjunta de todas as esferas de governo. Em muitos casos, apenas o governo federal, por meio de suas forças de segurança, tem condição de agir contra a infiltração das polícias estaduais. Daí a necessidade de apressar a aprovação da Lei Antifacção e da PEC da Segurança, instrumentos legais necessários para a integração do combate às facções. E, desde já, é prioridade estratégica blindar as forças policiais contra as ações insidiosas das organizações criminosas.
Reforma da Previdência é questão fiscal e de
justiça
Por Folha de S. Paulo
Déficit piora com política de reajustes do
salário mínimo, que deveria ser desvinculado de benefícios
Enquanto a OCDE destina, em média, 8% do PIB
a benefícios, Brasil alcança 11%, mesmo com proporção de idosos e expectativa
de vida menores
Pouco mais de seis anos depois da reforma da
Previdência aprovada em 2019, os números já demonstram a
necessidade de novos ajustes.
Reportagem do jornal Valor Econômico mostra
que o déficit combinado do INSS,
do regime dos servidores federais civis e dos militares saltou, em valores
corrigidos, de R$ 271,7 bilhões em 2015 (2,64% do PIB) para R$
442 bilhões em 2025 (3,42% do PIB), um aumento real de 62,7%.
Apesar da reforma, o crescimento contínuo do
rombo permanece. No INSS, que atende aos celetistas e demais trabalhadores do
setor privado, a parcela das despesas não coberta pelas contribuições atingiu
R$ 322 bilhões em 2025 (2,49% do PIB).
O resultado do ano passado contou com o
alívio temporário de dois fatores conjunturais: o
represamento de cerca de 3 milhões de pedidos na fila do INSS, que
precisa ser corrigido, e o aumento de receitas decorrente da maior formalização
do mercado de trabalho e da queda do desemprego nos últimos anos.
Ambos os efeitos devem perder força. Com o
país perto do pleno emprego e em desaceleração econômica, as contribuições
tendem a crescer menos. O número de contribuintes em relação aos beneficiários
também vem caindo —de 1,7 em 2014 para 1,53 uma década depois.
No setor público, o descalabro é ainda maior.
O regime civil registrou déficit de R$ 66,6 bilhões (0,52% do PIB), e o dos
militares, de R$ 53,3 bilhões (0,41% do PIB). Embora menores que as do INSS,
que atende quase 30 milhões de pessoas, as cifras dos servidores revelam
injustiças maiores.
Enquanto os países desenvolvidos da OCDE
destinam, em média, cerca de 8% do PIB a benefícios previdenciários, o Brasil
alcança 11%, mesmo com proporção de idosos na população e expectativa de vida
menores. Se considerados também benefícios como o BPC, a discrepância é maior.
O problema é agravado, no INSS, pela política
do governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
de reajustes do salário
mínimo acima da inflação, que transfere
ganhos reais para inativos. No setor público, as regras ainda são
demasiadamente generosas, especialmente para militares.
A nova realidade do mercado de trabalho, em
que há multiplicação de microempreendedores individuais (MEIs) com contribuição
mínima e novas modalidades de contratação, erode a base arrecadatória do
sistema.
Nesse quadro, serão necessárias novas
elevações de idade mínima, equalização completa entre homens e mulheres,
restrição de regimes especiais e continuidade das reformas no serviço público
civil e nas Forças Armadas.
Também é imperativo desvincular o salário
mínimo dos benefícios previdenciários. O mínimo deve refletir a produtividade e
a dinâmica do mercado de trabalho ativo; as aposentadorias, uma vez concedidas,
precisam preservar o poder de compra.
Trata-se de sobrevivência fiscal e de justiça
intergeracional.
Foi-se o Master, ficou o BRB
Por Folha de S. Paulo
Restaram à instituição brasiliense suspeitas
de malversação e rombo a ser coberto pelo contribuinte
Trata-se de um remanescente da era em que
todos os estados controlavam bancos; com federalização, inchaço estatal só
mudaria de endereço
O BRB, banco pertencente ao governo do Distrito
Federal, é um dos poucos remanescentes de um período de caos
financeiro em que todo estado brasileiro controlava uma ou mais instituições
financeiras.
Havia 31 bancos estaduais, além do distrital,
operando em 1992, quando o Banco Central publicou
um estudo sobre o efeito deletério deles para o controle das contas públicas e
da inflação —que
ultrapassaria a casa dos 1.000% naquele ano e dos 2.000% no ano seguinte.
Tais instituições eram geridas por critérios
políticos e usavam o dinheiro que captavam do público para ampliar os gastos
dos governadores. Injetavam moeda na economia com
o financiamento de projetos de baixa viabilidade. Tinham quadro de pessoal
inchado e serviam de cabide de emprego para apaniguados.
Só se mantinham de pé graças aos ganhos
fáceis proporcionados pela inflação. Quando se viam em dificuldades, o que não
era raro, buscavam a ajuda federal.
Após um amplo processo de privatizações,
liquidações e federalizações conduzido na esteira do Plano Real (1994), hoje os
cinco bancos comerciais regionais em funcionamento —em RS, PA, ES e SE, além do
DF— não têm dimensões capazes de produzir abalos financeiros sistêmicos. Isso
não quer dizer, porém, que não possam se meter em operações desastradas.
Assim o demonstrou, de modo
escandaloso, a tentativa
do BRB de socorrer o falimentar Banco Master em
março de 2025, com a compra de ações sem direito a voto e a permanência de
Daniel Vorcaro no controle da instituição privada. O negócio esdrúxulo foi
vetado pelo BC, que em novembro liquidou o Master.
Restaram ao BRB evidências de gestão
temerária, suspeitas de corrupção e um rombo a ser coberto, direta ou
indiretamente, pelo contribuinte. Como noticiou a Folha, especula-se
entre as saídas para o banco a federalização, vale dizer, sua
absorção pelo Banco do
Brasil ou pela Caixa
Econômica Federal.
Tratando-se do mundo político brasileiro, a
hipótese não é descartável. Foi esse o destino dos bancos de Santa Catarina e
do Piauí e da paulista Nossa Caixa, todos incorporados ao BB quando o PT ocupava o Palácio
do Planalto. Nesses casos, o inchaço estatal só muda de endereço.
A privatização, infelizmente, não consta dos planos do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). A velha tentação de dispor de instituições financeiras em favor de interesses políticos —ou coisa pior— independe de ideologia.
Terreno fértil para os aventureiros
Por O Estado de S. Paulo
Irresponsabilidade fiscal, privilégios,
corrupção e imediatismo corroem a confiança nas instituições e reabrem espaço
para ‘outsiders’ e promessas de ruptura já testadas pelo País
O Brasil voltou a pavimentar o caminho que,
num passado recente, produziu a perigosíssima onda de candidatos, lideranças e
retóricas antissistema, os chamados outsiders.
Figuras assim prosperam em ambientes políticos marcados por uma combinação de
desencanto, frustração, indignação e inércia institucional, terreno fértil
tanto para líderes messiânicos, como o petista Luiz Inácio Lula da Silva,
quanto para os que se propõem a destruir o “sistema”, como Jair Bolsonaro. Os
ingredientes dessa receita indigesta são conhecidos: corrupção, privilégios,
desperdício de recursos públicos e a sensação de que, mais preocupado com as
regalias da própria grei, o establishment político
nutre profundo desprezo pelo País.
A sequência recente de decisões ajuda a
explicar esse cenário. Replicando as piores práticas do Judiciário e do
Ministério Público, o Congresso aprovou uma gratificação que dobra salários de
servidores do Legislativo, em afronta ao teto constitucional. Ao mesmo tempo,
seus caciques reiteraram a retórica das “prerrogativas” parlamentares, senha
para avisar ao distinto público que tudo farão para preservar os amplos
direitos adquiridos sobre o Orçamento da União por meio de emendas sem
transparência. Mais: quando contrariados por uma eventual ausência de contrapartidas
do Executivo, como cargos e verbas, parlamentares não hesitam em transformar
pautas-bomba em matéria fiscal em armas políticas. Foi o que se viu no fim do
ano passado.
Do outro lado da rua, Lula e seus arcontes no
Palácio do Planalto, longe de atuarem como freio de responsabilidade,
contribuem para a erosão da disciplina fiscal. Relativizam metas que o próprio
governo propôs, fabricam ou aceitam atalhos para contornar limites
orçamentários, estimulam despesas permanentes sem contrapartidas e tratam o
equilíbrio das contas públicas como detalhe negociável para acomodar pressões
políticas. Não se trata de preciosismo técnico. Desequilíbrios dessa natureza
desorganizam o País, afastam investimentos de longo prazo e, no fim da cadeia,
penalizam a população. Ainda assim, o presidente subordina a ação governamental
à lógica de transformar o Planalto em palanque permanente, guiado pela
conveniência eleitoral.
O resultado é um Estado novamente capturado
pela visão de curtíssimo prazo, cenário ideal para a ressurgência de discursos
que se apresentam como antídoto ao “sistema”, quando na verdade apenas exploram
suas deformações. Nada mais propício para quem se vende como ruptura, ainda que
carregue riscos já conhecidos da sociedade brasileira.
Nesse ambiente, o senador Flávio Bolsonaro
ensaia a reencarnação do discurso antipolítica que impulsionou a ascensão do
pai entre 2017 e 2018. O MBL e seus líderes, como o deputado federal Kim
Kataguiri, reaparecem autoproclamando-se adversários do establishment. Como resumiu o
fundador Renan Santos, a estratégia é “colocar lenha na fogueira”. Para
completar o paradoxo, o próprio presidente Lula, às vésperas de iniciar seu
12.º ano no comando do País, posa como âncora do antissistema, um outsider injustiçado quando
ataca as “elites”, os bilionários, o mercado financeiro e a imprensa
profissional. Um escárnio.
Depois, de nada adiantará fingir surpresa ou
terceirizar culpas. O discurso antissistema prospera quando o sistema se mostra
incapaz de oferecer respostas sérias, previsíveis e minimamente coerentes.
Democracias avançadas ensinam, contudo, que mudanças duradouras são fruto de
reformas incrementais, pactuadas, baseadas em instituições fortes e respeito às
regras do jogo. Mas quando Executivo e Legislativo (e também o Judiciário,
convém dizer) parecem mais empenhados em proteger interesses imediatos do que
em construir um país econômica, política e socialmente sustentável, abrem
espaço para quem promete demolir tudo – não obstante nada tenha de sólido para
colocar no lugar.
O Brasil já sabe aonde isso pode levar. Em
2018, a frustração legítima com a política tradicional foi capturada por um
projeto personalista, autoritário e incompetente, vendido como ruptura
redentora. O custo foi alto demais para ser tratado como acidente. O desempenho
do arruaceiro digital Pablo Marçal na eleição municipal de São Paulo reforçou o
alerta. Tratar o voto como instrumento de protesto contra o sistema, e não como
escolha responsável de governo, já cobrou um preço elevado do País. E tende a fazê-lo
novamente.
A verdadeira prioridade das empresas
Por O Estado de S. Paulo
Pesquisa com conselheiros mostra que questões
ambientais caíram para o último lugar entre as preocupações das empresas, muito
mais interessadas no risco político e nas condições econômicas
A pesquisa Prioridades
dos Conselhos de Administração para 2026 no Brasil, divulgada
recentemente pela consultoria Ernst & Young (EY), revelou mudanças nada
triviais nas preocupações de conselheiros de grandes companhias brasileiras. O
tema “riscos políticos” ganhou espaço nas projeções da pauta das empresas.
Enquanto em 2025 a política foi apontada como uma prioridade para 23% dos mais
de cem conselheiros entrevistados, neste ano o índice subiu para 50%. Com isso,
os riscos políticos deixaram a última posição entre as nove prioridades
listadas e subiram para a sexta colocação de um ano para o outro.
Não foi sem motivo que a política avançou
tanto, passando à frente da preocupação com as mudanças climáticas e gestão
ambiental, cuja prioridade foi para o último posto do ranking, mesmo com a
realização de uma Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas no
Brasil, a COP-30 de Belém. Isso ocorreu neste ano porque os desafios imediatos
se impuseram, justificando essa inversão de prioridades. Como afirmou ao Estadão a sócia-líder de
Avaliações, Modelagem e Consultoria Econômica da EY para a América Latina,
Andréa Fuga, hoje, preocupam mais os conselheiros os temas que exigem reação de
curto prazo.
E, no curto prazo, há uma série de questões
políticas, internas e externas, que demandam mais a atenção, como uma eleição
presidencial no Brasil e o aumento das tensões geopolíticas impulsionadas pelo
governo Donald Trump, nos Estados Unidos, com a imposição de tarifas, numa
constante ameaça de guerra comercial. Tanto a corrida pelo Palácio do Planalto
quanto esse cenário internacional, com acordos comerciais, restrições
logísticas e direcionamento de investimentos estrangeiros, são elementos de
instabilidade para o mundo dos negócios.
A proeminência dada aos riscos políticos em
2026 dialoga ainda com as prioridades que ocupam o topo do ranking da EY:
condições econômicas, inovação e tecnologias emergentes e alocação de capital.
Isso quer dizer que os conselheiros estarão concentrados no aumento do custo de
capital, das dívidas e no comportamento da inflação.
Tudo isso tem relação direta com os riscos
políticos, sobretudo os internos. Hoje, a inflação é domada com a imposição de
uma alta taxa de juros pelo Banco Central (BC), haja vista que o governo de
Luiz Inácio Lula da Silva é incapaz de adotar uma política macroeconômica
fiscalmente responsável. Sem cortar gastos, a gestão do PT aumenta a pressão
sobre as contas públicas e finge cumprir um arcabouço fiscal ao mesmo tempo em
que aumenta o endividamento público do Brasil. E é claro que as empresas não
passam ao largo dessa política econômica – pelo contrário.
Como bem explicou Andréa Fuga, da EY, os
juros altos por longo tempo, como ocorre no Brasil, restringem a oferta de
capital e a capacidade de investimento das empresas. Eis o encontro dos riscos
políticos com as condições econômicas. Ademais, ainda conforme a executiva da
EY, a inflação no Brasil, que fechou 2025 em 4,26% (próximo do teto da meta, de
4,5%), e a variação dos custos sob o impacto das políticas comerciais globais
impõem a necessidade de constante monitoramento das condições na quais as
companhias operam.
Ou seja, são muitos os desafios que empurram
as mudanças climáticas e a gestão ambiental para o pé do ranking de
prioridades, e não em razão de um suposto desprezo ou abandono da pauta
ambiental. Tanto é assim que a agenda climática aparece em primeiro lugar, no
mesmo levantamento da EY, como o tópico que os conselheiros gostariam de
dedicar mais tempo e recurso. Não falta preocupação com o ambiente, mas sobra senso
de urgência com os negócios.
A imprevisibilidade tanto na política local
quanto na política externa exigirá cuidados redobrados, razão pela qual os
conselheiros não podem negligenciar os investimentos necessários para fazer os
negócios avançarem no Brasil e no mundo nem colocar em risco a sustentabilidade
das companhias em ambientes tão incertos. O mapeamento das prioridades dos
conselheiros brasileiros indica o caminho que as empresas adotarão: o da
cautela.
As universidades chinesas no topo
Por O Estado de S. Paulo
Mesmo com aumento de produção, universidades
dos EUA têm sido superadas pelas da China
A China, cujo poderio econômico há muito já
rivaliza com o dos EUA, vem se destacando também em uma área na qual os
americanos desfrutaram de primazia por décadas: produtividade em pesquisa
acadêmica.
De acordo com o Leiden Rankings, do Centro de
Estudos de Ciência e Tecnologia da Universidade de Leiden, na Holanda, a
Universidade de Zhejiang, na China, é a primeira do mundo atualmente em
produção científica, medida em artigos publicados em revistas especializadas. A
americana Harvard, que por anos liderou a classificação, ficou em terceiro
lugar.
Além de Zhejiang, outras sete universidades
chinesas aparecem entre as dez mais bem colocadas do ranking do centro
holandês. No início dos anos 2000, eram sete as instituições americanas que
figuravam entre as dez mais.
“Há uma grande mudança chegando, uma espécie
de nova ordem mundial no domínio global do ensino superior e da pesquisa”,
afirmou ao jornal The New
York Times o diretor de assuntos globais da Times Higher
Education, Phil Baty. A Times Higher Education, tal como a universidade de
Leiden, também produz rankings universitários de grande prestígio
internacional.
Não é que as universidades dos EUA tenham
deixado de produzir. Ao contrário. Harvard produz significativamente mais
pesquisas hoje do que há duas décadas. O mesmo vale para universidades como
Michigan e Johns Hopkins, entre outras, segundo o centro holandês. Ocorre que a
produção das universidades chinesas aumentou ainda mais. Como comentou Baty,
“outros países estão progredindo mais rapidamente”.
A mudança é relevante por pelo menos dois
motivos. O primeiro é que a China, por anos estigmatizada como nação que
produzia quinquilharias sem valor, chegou lá. De carros elétricos a painéis
solares, passando pelos avanços em áreas como inteligência artificial, a China
vem sofisticando cada vez mais quase tudo o que faz. O país não só tem
investido bilhões de dólares em suas universidades, como também vem trabalhando
para atrair mais pesquisadores estrangeiros.
Enquanto isso, os EUA têm operado na direção
oposta. O presidente Donald Trump adotou uma política de restrição de vistos a
alunos estrangeiros, que na visão dele se aproveitam da vida acadêmica em solo
americano para roubar informações e provocar desordem.
Historicamente, porém, a presença de
estrangeiros qualificados tanto nas universidades quanto nas empresas dos EUA
contribuiu para que o país se convertesse na maior potência econômica e militar
jamais vista.
Como comprovam os rankings internacionais, o
avanço chinês na educação superior não é consequência das ações correntes de
Trump, mas do entendimento de Pequim sobre a importância da produção acadêmica
de ponta. É sintomático que, enquanto Trump dificulta o acesso a estrangeiros,
a China produza cada vez mais artigos em inglês.
Ao combater ferozmente a presença estrangeira em instituições de ensino americanas, Trump pode ampliar a vantagem chinesa em educação, uma área que até pouco tempo atrás os americanos consideravam estratégica para seu futuro.
Carnaval não é festa sem lei
Correio Braziliense
A liberdade celebrada nas ruas não pode ser
confundida com licença para violar direitos
O carnaval no Brasil é a expressão da
alegria, da cultura, da música e da liberdade, mas expõe uma face preocupante:
a importunação sexual. Nas ruas, em meio a blocos lotados, os casos de
abordagens invasivas, toques sem consentimento e constrangimentos públicos se
acumulam, reforçando que essa prática é uma das expressões mais persistentes da
violência de gênero no país.
Não se trata de um comportamento isolado, mas
de uma questão estrutural que ultrapassa as comemorações populares. A
banalização histórica, travestida de "cantada",
"brincadeira" ou "excesso", encobre a violência concreta
que impõe às vítimas medo, trauma e sensação de impotência. Dessa forma, ainda
que o aumento significativo no policiamento ostensivo durante as festas coíba
os abusos, é necessário investir em prevenção, informação e mudança
cultural.
No plano jurídico, o crime de importunação
sexual está tipificado no Artigo 215-A do Código Penal, que define como conduta
criminosa constranger alguém, com o intuito de obter vantagem ou favorecimento
sexual. A pena prevista é de detenção de um a cinco anos. Trata-se de um avanço
normativo relevante, mas que não esgota o fenômeno.
A aprovação da Lei nº 13.718/2018, que
tipificou a importunação sexual, ampliou o escopo de proteção penal,
reconhecendo a gravidade de atos libidinosos praticados sem consentimento.
Ainda assim, a eficácia da legislação depende de dois fatores decisivos: a
denúncia e a responsabilização. E é justamente nesse ponto que o sistema revela
suas fragilidades, seja no carnaval, seja no cotidiano.
Na festa de Momo, fica claro que o
enfrentamento exige desconstruir a ideia de que a celebração suspende normas
básicas de respeito. A liberdade celebrada pelo país não pode ser confundida
com licença para violar direitos. É preciso reconhecer que a importunação
sexual não é apenas uma infração penal: ela é uma violação da dignidade da
vítima.
Ao constranger alguém com base em sua posição
de gênero, o agressor reafirma estruturas patriarcais que naturalizam a
objetificação do corpo feminino e a submissão simbólica. Compreender que o ato
libidinoso atinge de forma desproporcional as mulheres, especialmente em
situações vulneráveis, é um dos passos na busca por soluções.
O sistema de Justiça tem papel estratégico,
uma vez que a prova em crimes dessa natureza é frequentemente complexa, pois
envolve ocorrências sem testemunhas. Por isso, a escuta qualificada e a análise
contextual são essenciais. O Brasil avançou na legislação, mas a mudança
cultural é um processo em curso. A tolerância social ao comportamento invasivo
diminuiu, mas não desapareceu.
Aproveitar o carnaval pressupõe assegurar que todos participem com dignidade. O combate à importunação sexual durante a folia é condição essencial para que esse evento de expressão nacional seja símbolo de diversidade e preservação de direitos. Transformar a folia em ambiente verdadeiramente seguro é um desafio coletivo. Vestir a fantasia e ocupar as ruas não pode significar praticar — e tolerar — abusos. O respeito ao corpo e à vontade do outro tem que ser regra, sobretudo durante a celebração da maior manifestação cultural brasileira.

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