domingo, 15 de fevereiro de 2026

O sigilo virou veneno, por Elio Gaspari

O Globo

No dia 2 de dezembro, o ministro José Antonio Dias Toffoli impôs o grau máximo de sigilo às investigações sobre o escândalo do Banco Master. Má ideia, coisa de poderosos de Brasília. Em menos de um mês o ministro virou um braço das tramas do banqueiro Daniel Vorcaro e de sua rede de intere$$e$. Com um funeral de primeira, seus pares tiraram-no do caso.

Quando Toffoli baixou o sigilo e também centralizou em seu gabinete o curso das investigações, supôs que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Cabe uma pergunta: a armação podia ter funcionado? Só se tivessem combinado com a Polícia Federal (PF). Como a lenda atribui ao jogador Garrincha, faltou combinar com os russos. Não só faltou combinar, Toffoli desafiou a Polícia Federal.

O presidente Lyndon Johnson, um mestre da política americana, não queria mexer com J. Edgar Hoover, o eterno diretor do FBI, a polícia federal dos EUA, e explicava: É melhor tê-lo mijando para fora do que mijando para dentro.

Sabe-se lá o que Toffoli achava, mas o sigilo virou um veneno. Ele levou a crise para dentro do tribunal, logo nos dias em que seu presidente defende a adoção de um código de conduta.

O sigilo tornou-se um panelão de acusações. É sabido que o recurso ao sigilo (leia-se censura) transforma-se numa usina de boatos. Por exemplo: em 1969 uma claque palaciana bloqueava detalhes sobre a saúde do presidente Costa e Silva, abatido por uma isquemia cerebral. Resultado: correu o boato segundo o qual o marechal estava morto.

O sigilo transformou a reputação de Toffoli num terreno baldio, no qual atiram-se quaisquer coisas. Essa foi uma situação criada por ele, produto de uma onipotência irracional. Seu estilo foi o de dobrar as apostas, até que ficou sem cartas.

Deixando-se de lado o caso do ministro, apareceram mais duas histórias de horror: escritórios de advocacia contratados pelo Master estariam lavando dinheiro e a prisão de Daniel Vorcaro teria vazado. Isso e mais a lista de poderosos de Brasília metidos de uma forma ou de outra com o afortunado banqueiro.

Quando o caso começou, estavam na roda um banqueiro e suas pompas; passaram-se poucos meses, caiu na pista o próprio tribunal e o ministro foi levado a pedir para sair. Quem cimentou essa trama foi o maldito sigilo.

No fundo, o erro de Toffoli foi desrespeitar um ensinamento de Tancredo Neves: no governo você não vende nem compra. Não é preciso ser vidente para prever que em pouco tempo será divulgado o preço que o fundo do cunhado de Vorcaro pagou pelo resort Tayayá.

Mendonça e sua sorte

A sorte, ou a falta dela, colocou o ministro André Mendonça na relatoria do caso Master. Durante a reunião que selou o destino de José Antonio Dias Toffoli, ele foi um crítico do relatório da Polícia Federal. Há elementos suficientes para se dizer que a PF investigou Toffoli sem ter a devida autorização do tribunal.

“Não acho que isso seja aceitável, eu não gostaria disso para ninguém”, disse Mendonça durante a reunião.

Tudo bem, nesse caso seus pares deveriam ter repelido o relatório da Polícia Federal.

A linha que separa uma prerrogativa de um privilégio é tênue. Se a Federal não olhasse para as contas de Toffoli, poderia estar respeitando uma prerrogativa, concedendo-lhe o privilégio de contar ao Tribunal o que bem entendesse.

Faculdades privadas

Depois dos resultados catastróficos dos exames de proficiência das faculdades privadas de Medicina, o MEC suspendeu o edital de 2023 que criaria até 5.900 vagas.

Bendita providência. Muitas dessas faculdades fingem que ensinam e cobram mensalidades de mais de R$ 15 mil.

Algum dia essas máquinas de criar médicos sairão do ar. Até lá vale o ensinamento do ministro da Educação Paulo Renato Souza — 1995-2002:

“Se você entregar o poder de decisão para a abertura de faculdades privadas às freiras carmelitas descalças, na segunda reunião elas virão com bolsas Louis Vuitton.”

O professor José Arthur Giannotti (1930-2021) era um dos melhores amigos do presidente Fernando Henrique e quando ia a Brasília hospedava-se no Palácio da Alvorada. Nomeado para o Conselho Federal de Educação, em 1997 preferiu pedir o boné. Ele explicava:

“Minha demissão tem a ver com a debilidade do Estado, com a sua natureza pastosa, com a existência de pessoas qualificadas que não saem de seus nichos e com os anéis burocráticos que controlam setores do Estado. São crostas a serviço de organismos com interesses definidos.”

Paulo Guedes

O PL de Valdemar Costa Neto sugerirá a Flávio Bolsonaro que faça do economista Paulo Guedes seu guru para assuntos econômicos.

Durante a presidência do pai de Flávio, “PG” foi ministro da Economia, acumulando os ministérios da Fazenda, Planejamento, Indústria e parte da pasta do Trabalho.

Pode-se discutir seu desempenho na superpasta, mas seu melhor momento esteve nos dias tensos da trama golpista. Com atos e palavras, Guedes afastou-se da maluquice. Depois disso tornou-se um ex-ministro exemplar, dispensando-se de virar alma penada azucrinando seus sucessores.

Deuses do Carnaval

Os deuses das festas fazem surpresas para ilustrar o paganismo da alegria.

Em setembro de 1987 cerca de 15 mil latinhas de maconha bateram em praias do Rio e de São Paulo. Os meses seguintes foram conhecidos como o “Verão da Lata”. A carga estava a bordo de um navio que atracou no Rio.

Na quarta-feira passada a Polícia Federal foi a um edifício do Balneário Camboriú. A troco de nada, do 30º andar um cidadão jogou uma mala de dinheiro com R$ 429 mil, que se espalharam numa área interna.

Alckmin na frigideira

O avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas levou uma ala do governo a admitir a troca do candidato a vice na eleição de novembro.

Confirma-se a frase atribuída ao general francês Charles de Gaulle: “A ingratidão é um dever do governante”.

Lula na Sapucaí

Hoje à noite a arquibancada da Sapucaí mostrará se foi uma boa ideia homenagear Lula no desfile da Acadêmicos de Niterói.

Quem passou inteiro por esse tribunal foi o presidente Juscelino Kubitschek, homenageado pela Mangueira em 1981, cinco anos depois de sua morte.

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