quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A economia no ano eleitoral. Por Míriam Leitão

O Globo

Há certezas sobre 2026: um ano com volatilidade, mas bons indicadores na economia e uma safra boa. Uma bolha pode estourar nos EUA

O ano eleitoral de 2026 começa com algumas certezas. A volatilidade de ativos será grande. Juros futuros, Bolsa e dólar vão oscilar ao sabor das notícias, das pesquisas e dos debates. O ano agrícola não será tão bom quanto em 2025, mas não será ruim. Haverá uma queda dos juros, lenta, mas constante. A inflação ficará dentro do intervalo da meta, e o PIB terá crescimento moderado. No exterior a grande incerteza é a bolha que pode estourar na Bolsa americana. Por ser ano eleitoral, haverá mais pressão fiscal e o novo ministro da Fazenda, qualquer que ele seja, não terá nem de longe a força de Fernando Haddad no governo Lula.

O ano que terminou ontem foi muito melhor do que o previsto. A Bolsa teve alta de 34%. O dólar caiu 11%, a maior queda desde 2016. Na economia real o desemprego teve seguidos recordes de baixa. Hoje o país tem o menor número absoluto de desempregados registrado pela Pnad e o maior número de empregados. A renda subiu. A inflação surpreendeu positivamente. Em março, a estimativa do Focus era de que inflação terminaria o ano em 5,68% e terminou em 4,3%. Se a projeção de março se confirmasse seria um desastre, a inflação teria crescido em relação ao ano anterior e estaria muito acima do teto da meta. No fim das contas, ficou abaixo do teto, dentro do intervalo permitido. A grande explicação para isso foi a espetacular safra agrícola. Qual será a safra de 2026, na opinião do melhor especialista brasileiro, José Roberto Mendonça de Barros?

— Vai ser difícil repetir um desempenho tão positivo quanto foi 2025, mas não será ruim. No ano passado, quando a chuva chegou ela foi perfeita, exceto no Rio Grande do Sul. A safrinha foi bem e a safra foi espetacular. O PIB agrícola cresceu de 8% a 10%. Esperávamos que os preços fossem subir 8,5% a 9% e subiram 2%. Vai ser difícil repetir esse desempenho, mas não há qualquer perspectiva de ser o inverso — disse Mendonça de Barros.

Segundo o economista, se a chuva de janeiro for normal, talvez o país consiga igualar a produção agrícola do ano passado. A área cultivada aumentou e o Rio Grande do Sul deve produzir mais. Isso ajudaria a manter os preços, mas não os derrubaria como ocorreu no ano passado.

– Resumindo, não tem razão para o preço agrícola pressionar muito, a menos que o clima seja realmente ruim, em uma medida muito maior do que o esperado — diz José Roberto.

A inflação pode ser afetada pelo câmbio, mas há a expectativa de um ajuste forte na Bolsa americana nos próximos meses. Segundo José Roberto Mendonça de Barros, 90% do mercado americano avaliam que há uma bolha em empresas de inteligência artificial. O estouro dessa bolha desvalorizaria o dólar. No segundo semestre, contudo, a tensão do período eleitoral aqui dentro pode desvalorizar o real, o que terá impacto na inflação.

O Brasil conseguiu resolver muito bem a crise do tarifaço, e aumentou a exportação. O processo de diversificação dos mercados continua, mesmo se não houver acordo com a União Europeia. Isso ajuda a estabilizar o câmbio. A nova alíquota da China sobre a carne, anunciada ontem, pode afetar as vendas.

Se fosse escolher a melhor notícia de 2025, eu diria que foi a saída do Brasil do mapa da fome. O anúncio foi feito no fim de julho, pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, a FAO. Não significa que todos os brasileiros têm segurança alimentar mas, pela medida da ONU, o país está fora desta triste classificação. Só não valoriza esse fato, quem já se esqueceu da fila do osso, quando brasileiros disputavam restos dos açougues para se alimentar. Foi decorrência da pandemia, mas também da falta de políticas sociais eficientes.

A maior crítica dos economistas continuará sendo a política fiscal. Os dados mostram que a meta de 2025 foi cumprida, mas isso porque R$ 44 bilhões não serão contabilizados. A dívida, contudo, permanece crescendo, e para ela não tem desconto possível. O grande debate eleitoral na economia será sobre contas públicas. A direita, quando governou o país não teve bom desempenho fiscal, mas vive da fama de austera. A esquerda não foi tão mal quanto dizem os economistas de mercado financeiro, mas tem fama de gastadora. Qualquer que seja a pessoa eleita, o país precisará de um ajuste estrutural nas contas públicas em 2027. A direita vai prometer, mesmo que não saiba como fazer. A esquerda não quer prometer. E aí mora o perigo.

 

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