quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O país em transição. Por Merval Pereira

O Globo

Já estivemos recentemente perto da mudança efetiva em vários momentos, mas os retrocessos sempre vêm a favor da manutenção da situação anterior

Entramos em 2026 em plena crise político-institucional que nada indica se resolverá neste ano. Teremos eleições quase gerais dentro de um quadro de polarização a nos tornar reféns de um passado que envelheceu e de um futuro que ainda não se definiu. A famosa frase do filósofo marxista italiano Antonio Gramsci — “O velho mundo está morrendo. O novo demora a nascer. Neste claro-escuro, surgem os monstros” — pode se referir ao mundo trumpista, mas, se pegamos o recorte do Brasil atual, podemos usá-la como referência à situação de incerteza que outra frase famosa, sem autor determinado, descreve, nos colocando no “mundo pós-tudo e ante-nada”.

Seria um período de transição a trazer consigo as incertezas de um mundo que será diferente daquele de hoje, sem que se saiba exatamente o que acontecerá. Há um embate surdo entre as forças conservadoras em todos os níveis de poder, sem que esse conservadorismo reflita uma postura política, pois os conservadores estão à direita e à esquerda do espectro político, unidos por interesses pessoais ou grupais que, não por acaso, se cruzam com frequência para manter o statu quo.

Já estivemos recentemente perto da mudança efetiva em vários momentos, mas os retrocessos sempre vêm a favor da manutenção da situação anterior. Assim foi no mensalão, no petrolão, na Operação Lava-Jato, e tudo voltou a ser como antes, “com Supremo, com tudo”. Agora temos o caso do Banco Master, que resume a eterna luta do sistema — que, como dizia o Capitão Nascimento, “é foda” — para manter-se intocado. O novo pode vir da revolta que esse comportamento corporativo dos Poderes eventualmente provoque no cidadão comum, hoje refletida nas pesquisas de opinião, mas ainda não nas eleitorais.

A oferta de proposituras continua represada entre direita e esquerda tradicionais, sem que surjam alternativas a justificar a mudança de expectativa diante do futuro incerto. O choque entre o presente defeituoso e o futuro, que nunca chega, para recompensar os inconvenientes atuais com mudanças estruturais cria essa realidade líquida de que nos fala o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman. Uma relação efêmera, volúvel, em que as relações sociais ou institucionais dependem de interpretações, e as aparências têm mais peso que a realidade nua e crua.

A presunção da frase “mundo pós-tudo e ante-nada” é que o antigo “tudo” dará lugar a um “nada” transicional e levará a um novo Estado. Os momentos de crise por que passam países e instituições podem ser transformadores, mas a reação passadista estará sempre presente para preservar os valores que os sustentam e as vantagens já obtidas. O país já passou por momentos verdadeiramente memoráveis que garantiram avanços, como o fim da ditadura militar, a volta das eleições presidenciais diretas, o Plano Real, os programas sociais, o combate à corrupção com a Operação Lava-Jato; mas, na maioria dos casos, houve retrocessos também marcantes.

Desde a manutenção da democracia na transição da Nova República no governo Sarney até a reação à tentativa de golpe no governo Bolsonaro, que culminou com a insurreição de janeiro de 2023, são momentos gloriosos do nosso sistema democrático recente. Defender criminosos de colarinho branco é o caminho para desmoralizar as forças institucionais que reagiram à tentativa de golpe, como o Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional, parte majoritária das Forças Armadas.

É preciso definir rumos seguros, e não sair deles, ou alargá-los, porque os faltosos desta vez são “do nosso lado”. No caso do Banco Master, houve quem dissesse até que o contrato do escritório milionário da mulher de Alexandre de Moraes não existia. Foi preciso que a Procuradoria-Geral da República declarasse não ver “a priori” ilegalidade no contrato para que ele ganhasse vida. A questão, porém, não é de ilegalidade, mas de moralidade, base da credibilidade que o Supremo tem de recuperar a todo custo, para continuar tendo poder para defender a democracia.

Feliz Ano-Novo!

 

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