segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Ação reitera objetivo de Trump de um mundo sem lei. Por Humberto Saccomandi

Valor Econômico

O ataque americano reafirma um padrão de comportamento de Trump de ignorar leis, acordos e normas internacionais, o que em outros presidentes era uma exceção

O principal argumento em favor da captura de Nicolás Maduro é que, ainda que os EUA tenham violado a carta da ONU com a agressão militar, tanto a Venezuela como a região estarão melhor com uma mudança de regime e uma eventual redemocratização do país. Os fins justificariam os meios.

Seria algo semelhante ao que ocorreu no Panamá em 1989, quando uma invasão dos EUA derrubou a ditadura de Manuel Noriega. O Panamá desde então tem sido uma democracia e um dos países que mais crescem no continente.

O regime de Maduro transformou a Venezuela numa ditadura, fraudou eleições, destruiu a economia do país, levou milhões de pessoas a emigrarem e é responsável pela tortura e pelo assassinato de opositores. Ele merece ser punido pelos seus crimes.

Então a sua captura é boa para a Venezuela e para a região? Pode vir a ser, mas a questão é complexa e há riscos significativos. Sobretudo, porém, o ataque americano reafirma um padrão de comportamento de Trump de ignorar leis, acordos e normas internacionais. O que em outros presidentes era uma exceção, com Trump passou a ser a regra. Isso é ruim para todo o mundo.

Recuperar a Venezuela dos 27 anos de desastre econômico do chavismo será um desafio hercúleo. Não está claro ainda se os EUA estão dispostos ou preparados para mobilizar o pessoal e os recursos necessários para isso.

Também não está claro se os EUA controlam e/ou colaboram com o novo governo da Venezuela, liderado pela vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez.

Trump disse que os EUA governarão a Venezuela por um período de transição. Mas como? Por quanto tempo? Quem assumirá em seguida? Ele não explicou. Nem garantiu que o opositor Edmundo González, que aparentemente venceu as fraudadas eleições de 2024, assumirá. No caso do Panamá, o vencedor da eleição de 1989, anulada por Noriega, foi logo empossado.

O presidente americano afirmou que os EUA controlarão o petróleo, principal recurso venezuelano. Após a invasão do Panamá, não houve uma captura de recursos locais. Pelo contrário. Washington respeitou o acordo de devolução do Canal do Panamá (algo que Trump quer agora desfazer) e retirou tropas e bases militares do país. Um governo democrático na Venezuela deveria poder gerir seus recursos. Não se deve esquecer que, na gênese do chavismo, está a distribuição desigual da receita do petróleo ao longo da história venezuelana.

Assim, sobre a evolução política e econômica da Venezuela, há ainda muitas incertezas.

A operação militar reitera, porém, a disposição de Trump de impor a lei do mais forte. É o que o seu governo fez nos ataques ilegais a barcos suspeitos de narcotráfico, no tarifaço que violou regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e acordos com aliados, na pressão pela eleição de um direitista em Honduras (num processo eleitoral sob suspeita), na reiterada reivindicação sobre a Groenlândia (apesar dos protestos da Dinamarca), na sinalização de que Washington recuperará a hegemonia e autoridade no continente americano.

O ataque à Venezuela legitima, ao menos no curto prazo, a invasão da Ucrânia pela Rússia. E abre o caminho para a China invadir Taiwan. O argumento mais forte contra uma invasão chinesa sempre foi que uma eventual reunificação com Taiwan não deveria ser feita pela força. Como, então, condenar Pequim se os EUA usam a força na Venezuela?

Trump não quer questionamentos, limitações ou freios de organizações internacionais à sua liberdade de ação. Por isso abandonou o acordo climático de Paris (assinado pelos EUA), a OMS, a Unesco e mantém a OMC paralisada. Quer atuar livremente em benefício político próprio e em benefício econômico das empresas americanos e dos EUA.

Sua política econômica mercantilista consiste em drenar riqueza de outros países e regiões para enriquecer os EUA, já um dos países mais ricos do mundo. Isso se dá por meio da imposição de tarifas, da negociação (sob coação) de investimentos nos EUA e de privilégios para empresas americanas no exterior (como parece que acontecerá com o petróleo na Venezuela).

O mundo sempre foi dominado pelos mais fortes. Mas, desde a 2ª Guerra, houve uma tentativa importante de regular, ainda que de modo imperfeito, as relações internacionais. Trump quer fazer a história recuar. Um mundo sem lei é essencialmente mais inseguro e menos próspero.

 

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