Valor Econômico
A expectativa é de que o dólar terminará o
ano na casa de R$ 5,50, mas incertezas sobre as contas públicas poderão
pressionar o real
O comportamento do câmbio terá um papel muito
importante para a economia em 2026, um ano eleitoral, com um ciclo de queda de
juros já encomendado. A expectativa dominante hoje é de que o dólar terminará o
ano na casa de R$ 5,50, próximo do nível de fechamento do ano passado, mas
incertezas sobre as contas públicas, que dependerão em parte das perspectivas
para o pleito presidencial, poderão pressionar o real e provocar volatilidade
no mercado.
Além disso, o desempenho global do dólar será essencial para o rumo do câmbio por aqui - no ano passado, houve um recuo de quase 10%, segundo o índice DXY, que mede o valor da moeda americana em relação a seis divisas (euro, iene, libra, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço). Para 2026, a aposta é de alguma desvalorização adicional do dólar, num cenário de corte dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Um quadro mundial marcado por vários pontos de tensão, como a invasão dos EUA à Venezuela, também pode trazer instabilidade ao mercado de câmbio no Brasil.
Em 2025, a queda de 11% do dólar em relação
ao real foi fundamental para a perda de fôlego dos índices de preços, ao
contribuir para o recuo da inflação de bens industriais e de alimentos no
domicílio. Esse movimento é decisivo para que a Selic, hoje em 15% ao ano,
possa começar a cair no primeiro trimestre deste ano. Prévia oficial da
inflação, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo -15 (IPCA-15) fechou
2025 em 4,41%, abaixo do teto da banda de tolerância da meta, de 4,5%. As
expectativas no segundo trimestre de 2025 eram de que a inflação terminaria o
ano na casa de 5,5%.
O dólar, que encerrou 2024 em R$ 6,18, perdeu
força ao longo do ano, terminando 2025 em R$ 5,4887 - em novembro, chegou a ser
negociado abaixo de R$ 5,30. O principal fator para o recuo no ano passado foi
o comportamento da moeda americana no mercado internacional. As políticas do
presidente Donald Trump, em especial, enfraqueceram o dólar, que perdeu valor
globalmente. Também contribuiu para a queda da moeda americana por aqui o nível
da Selic, por estimular os investidores a tomarem recursos no exterior a juros
mais baixos e aplicá-los em reais, para aproveitar a diferença entre as taxas.
Para 2026, a perspectiva é de que novos
cortes dos juros nos EUA levem a uma desvalorização adicional do dólar no
mercado internacional. No entanto, a aposta é num movimento mais modesto do que
o registrado em 2025. Além disso, se a economia mostrar mais força do que o
projetado, o Fed pode ser mais comedido no ciclo de baixa dos juros.
O consenso de mercado colhido pelo Boletim
Focus do Banco Central (BC) aponta para um dólar de R$ 5,50 no fim de 2026,
número próximo aos R$ 5,4887 da cotação de fechamento do ano passado. Previsões
para a taxa de câmbio, porém, são um exercício extremamente precário. No fim de
2024, num momento em que a moeda americana atingiu R$ 6,18, as estimativas dos
analistas eram de que a divisa encerraria 2025 em R$ 5,9970, e se falava no
risco de a cotação atingir R$ 7, a depender de incertezas sobre as contas
públicas. O comportamento da moeda, porém, foi muito diverso do esperado.
As projeções para o câmbio neste ano se
tornam ainda mais difíceis devido às eleições presidenciais. A política fiscal
será conduzida neste ano com o objetivo de cumprir as metas do arcabouço, que
só serão atingidas por causa de um número considerável de exceções. Segundo
especialistas, será necessária uma mudança na orientação das contas públicas a
partir de 2027, com medidas firmes para controlar o ritmo de crescimento dos
gastos obrigatórios e reduzir os subsídios tributários, o que dependerá
principalmente do Executivo, mas também do Congresso e do Judiciário.
Provável candidato à reeleição, o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva não deu sinais até o momento de que pretenda alterar
profundamente o rumo da política fiscal num eventual quarto mandato. Se na
campanha Lula se mostrar favorito e continuar sem indicar a intenção de
promover um ajuste das contas públicas, o câmbio poderá registrar maior
volatilidade, e o dólar tenderá a subir com mais força em relação ao real. É um
cenário que pode tirar espaço para a queda dos juros, pelo impacto sobre a
inflação e sobre as projeções para os índices de preços. Hoje, as apostas
majoritárias são de que o BC começará a cortar a Selic em março, que terminaria
o ano um pouco acima de 12%, um nível ainda elevado.
Se um candidato de oposição aparecer nas
pesquisas como um adversário competitivo para Lula e adotar um discurso fiscal
mais austero, é possível que o dólar fique mais comportado e recue. O
comportamento da moeda americana no mercado internacional, porém, será um fator
muito importante para os rumos do real, como foi em 2025. Se o dólar ganhar
força no mercado global, por exemplo, o quadro será adverso para moedas
emergentes como o real.
O grau de incerteza sobre as contas públicas
brasileiras, contudo, será um dos principais pontos a influenciar o câmbio. O
Brasil não vive uma crise fiscal iminente, mas não há perspectiva de
estabilização da dívida pública num prazo razoável, que cresce a perder de
vista, devendo superar 80% do PIB neste ano - em 2022, estava em 71,7% do PIB.
Esse é o principal fator que explica o nível dos juros de longo prazo do país,
acima de 7%, descontada a inflação. Reduzir as dúvidas sobre a política fiscal
é um caminho para um câmbio menos volátil - e o que está nas mãos do governo e
de quem pretende governar o país a partir de 2027.

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