segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O peso das eleições e do cenário externo para o câmbio em 2026. Por Sergio Lamucci

Valor Econômico

A expectativa é de que o dólar terminará o ano na casa de R$ 5,50, mas incertezas sobre as contas públicas poderão pressionar o real

O comportamento do câmbio terá um papel muito importante para a economia em 2026, um ano eleitoral, com um ciclo de queda de juros já encomendado. A expectativa dominante hoje é de que o dólar terminará o ano na casa de R$ 5,50, próximo do nível de fechamento do ano passado, mas incertezas sobre as contas públicas, que dependerão em parte das perspectivas para o pleito presidencial, poderão pressionar o real e provocar volatilidade no mercado.

Além disso, o desempenho global do dólar será essencial para o rumo do câmbio por aqui - no ano passado, houve um recuo de quase 10%, segundo o índice DXY, que mede o valor da moeda americana em relação a seis divisas (euro, iene, libra, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço). Para 2026, a aposta é de alguma desvalorização adicional do dólar, num cenário de corte dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Um quadro mundial marcado por vários pontos de tensão, como a invasão dos EUA à Venezuela, também pode trazer instabilidade ao mercado de câmbio no Brasil.

Em 2025, a queda de 11% do dólar em relação ao real foi fundamental para a perda de fôlego dos índices de preços, ao contribuir para o recuo da inflação de bens industriais e de alimentos no domicílio. Esse movimento é decisivo para que a Selic, hoje em 15% ao ano, possa começar a cair no primeiro trimestre deste ano. Prévia oficial da inflação, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo -15 (IPCA-15) fechou 2025 em 4,41%, abaixo do teto da banda de tolerância da meta, de 4,5%. As expectativas no segundo trimestre de 2025 eram de que a inflação terminaria o ano na casa de 5,5%.

O dólar, que encerrou 2024 em R$ 6,18, perdeu força ao longo do ano, terminando 2025 em R$ 5,4887 - em novembro, chegou a ser negociado abaixo de R$ 5,30. O principal fator para o recuo no ano passado foi o comportamento da moeda americana no mercado internacional. As políticas do presidente Donald Trump, em especial, enfraqueceram o dólar, que perdeu valor globalmente. Também contribuiu para a queda da moeda americana por aqui o nível da Selic, por estimular os investidores a tomarem recursos no exterior a juros mais baixos e aplicá-los em reais, para aproveitar a diferença entre as taxas.

Para 2026, a perspectiva é de que novos cortes dos juros nos EUA levem a uma desvalorização adicional do dólar no mercado internacional. No entanto, a aposta é num movimento mais modesto do que o registrado em 2025. Além disso, se a economia mostrar mais força do que o projetado, o Fed pode ser mais comedido no ciclo de baixa dos juros.

O consenso de mercado colhido pelo Boletim Focus do Banco Central (BC) aponta para um dólar de R$ 5,50 no fim de 2026, número próximo aos R$ 5,4887 da cotação de fechamento do ano passado. Previsões para a taxa de câmbio, porém, são um exercício extremamente precário. No fim de 2024, num momento em que a moeda americana atingiu R$ 6,18, as estimativas dos analistas eram de que a divisa encerraria 2025 em R$ 5,9970, e se falava no risco de a cotação atingir R$ 7, a depender de incertezas sobre as contas públicas. O comportamento da moeda, porém, foi muito diverso do esperado.

As projeções para o câmbio neste ano se tornam ainda mais difíceis devido às eleições presidenciais. A política fiscal será conduzida neste ano com o objetivo de cumprir as metas do arcabouço, que só serão atingidas por causa de um número considerável de exceções. Segundo especialistas, será necessária uma mudança na orientação das contas públicas a partir de 2027, com medidas firmes para controlar o ritmo de crescimento dos gastos obrigatórios e reduzir os subsídios tributários, o que dependerá principalmente do Executivo, mas também do Congresso e do Judiciário.

Provável candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não deu sinais até o momento de que pretenda alterar profundamente o rumo da política fiscal num eventual quarto mandato. Se na campanha Lula se mostrar favorito e continuar sem indicar a intenção de promover um ajuste das contas públicas, o câmbio poderá registrar maior volatilidade, e o dólar tenderá a subir com mais força em relação ao real. É um cenário que pode tirar espaço para a queda dos juros, pelo impacto sobre a inflação e sobre as projeções para os índices de preços. Hoje, as apostas majoritárias são de que o BC começará a cortar a Selic em março, que terminaria o ano um pouco acima de 12%, um nível ainda elevado.

Se um candidato de oposição aparecer nas pesquisas como um adversário competitivo para Lula e adotar um discurso fiscal mais austero, é possível que o dólar fique mais comportado e recue. O comportamento da moeda americana no mercado internacional, porém, será um fator muito importante para os rumos do real, como foi em 2025. Se o dólar ganhar força no mercado global, por exemplo, o quadro será adverso para moedas emergentes como o real.

O grau de incerteza sobre as contas públicas brasileiras, contudo, será um dos principais pontos a influenciar o câmbio. O Brasil não vive uma crise fiscal iminente, mas não há perspectiva de estabilização da dívida pública num prazo razoável, que cresce a perder de vista, devendo superar 80% do PIB neste ano - em 2022, estava em 71,7% do PIB. Esse é o principal fator que explica o nível dos juros de longo prazo do país, acima de 7%, descontada a inflação. Reduzir as dúvidas sobre a política fiscal é um caminho para um câmbio menos volátil - e o que está nas mãos do governo e de quem pretende governar o país a partir de 2027.

 

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