terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Homenagem a Lula na Sapucaí teve ar de campanha antecipada

Por O Globo

Cabe ao TSE avaliar as punições que julgar adequadas para o desfile da Acadêmicos de Niterói

No ano em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende disputar a reeleição, a escola de samba Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial, escolheu apresentar na Marquês de Sapucaí o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. Foi impossível disfarçar o tom de propaganda eleitoral antecipada, como pôde perceber qualquer um que tenha assistido ao desfile no domingo à noite.

O refrão do samba-enredo era exatamente o slogan adotado em todas as campanhas de Lula há décadas — “olê, olê, olê, olá, Lula! Lula!”. A letra fazia referências a motes frequentes da propaganda do governo que decerto serão tema da campanha prevista para começar em agosto. É o caso da exaltação à “soberania” contra “tarifas e sanções”, ao “filho de pobre virando doutor”, à “comida na mesa do trabalhador” e do ataque implícito ao ex-presidente Jair Bolsonaro no verso “sem mitos falsos, sem anistia”. Para quem duvidasse do alvo, por duas vezes Bolsonaro foi retratado jocosamente na Marquês de Sapucaí como o palhaço Bozo, trancafiado atrás de grades. Alas homenagearam a estrela vermelha do PT, ironizaram conservadores como latas de conserva e associaram “patriotas” à bandeira dos Estados Unidos.

Não é de hoje que a política se infiltra no desfile das escolas de samba. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, o venezuelano Hugo Chávez e até a ditadura militar já foram tema de enredos. O carnaval é uma festa popular que não deveria se misturar com a política eleitoral. Mas o regulamento da Liga das Escolas de Samba (Liesa) não proíbe de modo explícito manifestações dessa natureza no desfile. A Liesa deveria cuidar para evitar esse tipo de uso da festa. Ainda que se possam admitir homenagens históricas, uma coisa é louvar figuras do passado, outra bem diferente é fazer propaganda política em ano de eleição. Lula e o PT deveriam ter desencorajado essa ideia descabida desde o nascedouro, afinal são todos políticos experientes, com plena condição de avaliar as consequências de seu endosso.

Em vez disso, limitaram-se a tomar providências preventivas, como impedir ministros e a primeira-dama Janja Lula da Silva de desfilar — mesmo assim de última hora. Ela e vários ministros ficaram na plateia, mas nenhum dos cuidados foi suficiente para evitar o tom eleitoreiro. Apesar do veto nos ensaios ao gesto do L (para não configurar pedido de voto), o mestre de bateria e o puxador do samba não se furtaram a fazê-lo diante das câmeras. E o próprio Lula não se conteve. Lá pelas tantas, desceu à avenida acompanhado do prefeito Eduardo Paes para confraternizar brevemente com a escola. Pareceu arrogância.

O desfile da Acadêmicos de Niterói é alvo de pelo menos dez iniciativas na Justiça. A mais relevante tramita no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Corte autorizou o desfile, mas fez inúmeras ressalvas. “É um ambiente propício para que haja excessos, abusos e ilícitos”, afirmou a presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia. Ela assegurou que a autorização não representava um “salvo-conduto” para violar leis eleitorais. Cabe agora ao TSE estipular se as salvaguardas foram respeitadas e, se for o caso, determinar que punições devem ser adotadas.

Rubio desponta como principal rival de Vance na corrida pela sucessão de Trump

Por O Globo

Tom conciliador do discurso a europeus em Munique contrasta com mensagem agressiva do vice e traz sinal positivo

Ao fim do discurso do secretário de Estado americano, Marco Rubio, na Conferência de Segurança de Munique, a plateia europeia irrompeu em aplauso. Não poderia haver maior contraste com a reação silenciosa há um ano diante do vice-presidente americano, J.D. Vance. Nem sinal mais nítido de que Rubio desponta como principal rival de Vance na disputa que se enceta no Partido Republicano de olho na sucessão de Donald Trump e na eleição de 2028.

No lugar da mensagem agressiva de Vance, Rubio procurou reatar laços com a Europa. Lembrou que os países de ambos os lados do Atlântico são “herdeiros da mesma grande e nobre civilização”. “Sempre seremos filhos da Europa”, afirmou. Despertou risadas na plateia ao dizer que os imigrantes alemães ajudaram a melhorar a cerveja americana e ao ressaltar, ao lado de Shakespeare, Da Vinci ou Michelangelo, a genialidade de Beatles e Rolling Stones. Não perdeu a oportunidade para marcar as diferenças com Vance. A mensagem de Rubio traduz uma inflexão bem-vinda na orientação de Trump em relação ao continente europeu, que deve ser celebrada.

Publicamente, Rubio segue a cartilha do republicano fiel. Promete apoiar Vance se ele disputar a presidência. Mas o vice sabe quem é seu adversário. Ao posar para um fotógrafo recentemente, brincou: “Pago US$ 100 por pessoa que você fizer parecer muito pior que eu. E US$ 1.000 se for o Marco”.

O tom mais conciliador de Rubio em Munique trouxe algum alívio, mas não bastou para dissipar o ceticismo europeu em relação ao futuro da aliança atlântica. Enquanto Trump estiver no poder, persiste o temor de que continuará a sucessão de crises. Mesmo em estilo mais ameno e civilizado, Rubio não atenuou a mensagem nacionalista e unilateral de seu chefe em temas como imigração, comércio internacional ou mudanças climáticas.

Tanto Rubio como Vance foram críticos de Trump no passado. Ambos se aproximaram dele por caminhos distintos. “Marco não é o tipo de pessoa que viola seus princípios”, disse Susie Wiles, chefe de gabinete da Casa Branca. “Simplesmente não é. Por isso precisou amadurecer essa posição.” Na opinião de Wiles, a mudança de Vance foi “um pouco mais, digamos, política”. A avaliação mostra que Rubio tem conseguido angariar apoio relevante na Casa Branca.

Filho de imigrantes cubanos anticomunistas, Rubio tem desempenhado papel crítico na execução da nova política externa americana, sobretudo no que diz respeito à prioridade dada à América Latina. Esteve envolvido nas operações que culminaram na captura do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro e nas negociações que reaproximaram Trump do governo brasileiro, depois da maior crise diplomática entre os dois países, deflagrada pelo tarifaço. Também estende suas iniciativas a Oriente Médio e Ucrânia. Ante o radicalismo ideológico de Vance, a tentativa de Rubio de trilhar um caminho mais pragmático e moderado pode ser uma aposta eleitoral mais consistente para os republicanos.

Crise fiscal e dívida precisam ocupar centro da campanha

Por Folha de S. Paulo

Ao burlar regras do arcabouço, Lula levou endividamento público a dar um salto, colocando o país em risco

Quando o petista assumiu, a dívida pública representava 71,7% do PIB; projeções indicam que encerrará seu quarto mandato em 83,6%

Durante três anos, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) modificou ou burlou sistematicamente a regra que ele próprio criou para o controle das contas públicas, o chamado arcabouço fiscal.

Nada indica que não fará o mesmo em 2026, sobretudo por se tratar de ano eleitoral, em que a propensão do incumbente candidato à reeleição é gastar mais.

O arcabouço tem regras bem mais complicadas do que as do teto de gastos adotado no governo Michel Temer (MDB) e mantido por Jair Bolsonaro (PL), que simplesmente limitava o aumento da despesa à inflação.

A regra da gestão petista autoriza crescimento do gasto de até 2,5% acima do aumento dos preços, com limite calculado como proporção de 70% da variação real das receitas no ano anterior.

De qualquer maneira, no último triênio, o governo Lula impôs exceções frequentes ao seu arcabouço fiscal, como precatórios, dispêndios fora da meta e reclassificações de gastos.

O desfecho é que, embora venha cumprindo formalmente a meta de resultado primário, que é a diferença entre as receitas e despesas não financeiras, a dívida pública bruta do país entrou em trajetória explosiva.

Quando Lula assumiu, o indicador representava 71,7% do PIB. No final do ano passado, havia subido para 78,7%. Projeções indicam que o presidente encerrará o mandato com a dívida bruta em 83,6% do PIB, quase 12 pontos acima da herdada de Bolsonaro.

O desconforto do mercado com o indicador vem sendo amortecido por forte entrada de dólares no Brasil e em países emergentes devido às políticas erráticas do presidente Donald Trump, que têm estimulado a desvalorização da moeda americana e levado à busca, por investidores, de ganhos fora dos EUA. Esse fator vem contendo os preços aqui via importações mais baratas.

O arranjo atual é conjuntural. Mantida a leniência e a falta de comprometimento com regras mais rígidas para as contas públicas em um eventual quarto mandato de Lula, uma grave crise de confiança estará encomendada.

Em vez de continuar maquiando os limites do arcabouço, o petista deveria considerar, por exemplo, a desvinculação de despesas previdenciárias de sua política de correção do salário mínimo acima da inflação e dos gastos com saúde e educação à evolução da receita corrente líquida.

Embora não tenha abordado diretamente o tema, seu provável principal adversário na eleição deste ano, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), sinaliza a busca de assessores econômicos preocupados com a questão. Ventila-se até a entrada do ex-ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, nessas discussões.

Seria fundamental que essa agenda estivesse no centro da campanha, pois promessas populistas de praxe do período eleitoral certamente serão frustradas pela realidade sombria que se aproximará caso a dívida pública não seja contida o quanto antes.

Trump faz Europa assumir o custo do apoio à Ucrânia

Por Folha de S. Paulo

Republicano zera recursos sem contrapartida a Kiev; medida força europeus a deixar passividade relativa

O risco de ruptura é que o atual rearmamento europeu acenda antigas rivalidades, o que seria uma vitória para Vladimir Putin

A uma semana de completar quatro anos, a invasão russa da Ucrânia segue balizando a transformação geopolítica em curso no planeta.

Após recolocar o uso da força entre Estados no centro das relações internacionais, o que não se via na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o conflito serviu em 2025 como eficaz termômetro da desordem mundial promovida por Donald Trump.

Antes de voltar à Casa Branca, o republicano já dizia que terminaria com a guerra em 24 horas, para isso cortando a ajuda incondicional a Volodimir Zelenski.

Pouco mais de 9.400 horas se passaram desde sua posse, e a violência grassa nos campos ucranianos. Já a promessa econômica é uma das raras que Trump pode dizer que cumpriu até aqui.

Segundo dados do alemão Instituto Kiel, o presidente zerou a ajuda direta a Kiev em 2025. Foram enviados apenas restos a pagar da gestão do antecessor, Joe Biden, no começo do ano passado —equivalente a R$ 2,9 bilhões.

Em 2024, havia sido R$ 283,3 bilhões, grande parte em apoio militar direto —munições, mísseis, blindados, tanques e dados de inteligência sem os quais a resistência das forças ucranianas teria sido quase impossível.

Até 2025, os EUA eram os maiores fornecedores deste tipo de ajuda, dado o tamanho de seus estoques de armamentos e a capacidade de sua indústria de defesa. Desde o começo da guerra, Washington enviou R$ 397 bilhões em armas para a Ucrânia, superando os R$ 123 bilhões do segundo colocado, a Alemanha.

Fiel aos preceitos de sua nova Estratégia de Segurança Nacional, Trump passou a conta para aliados. Com efeito, de 2024 a 2025, a ajuda total da União Europeia e de vizinhos como o Reino Unido passou dos já altos R$ 272,8 bilhões para R$ 447 bilhões.

Ainda assim, boa parte dos armamentos empregados pelos ucranianos é de origem americana, devido ao grande volume enviado até o último ano da gestão Biden e pela introdução de um mecanismo segundo o qual países europeus compram armas dos EUA e as repassam a Kiev.

A nova realidade choca os europeus, acostumados com 80 anos de guarda-chuva militar americano. Trump pode oferecer cinismo em troca de alianças, mas é fato que há muito o continente acumula riquezas e negligencia sua defesa, e isso um dia iria mudar.

Isso dito, o risco de ruptura é que o corrente rearmamento europeu acenda antigas rivalidades, tirando os países da região do rumo de união e prosperidade que buscaram desde 1945, o que seria uma vitória para Vladimir Putin.

A água no limite do colapso

Por O Estado de S. Paulo

Relatório da ONU diz que o mundo passou da fase de escassez e crise e fala em falência hídrica global. Um sinal de que a degradação dos sistemas hídricos já compromete o presente e ameaça o futuro

Alertas globais costumam oscilar entre a banalização e o alarmismo, dois equívocos igualmente paralisantes. Há momentos, porém, em que reconhecer a dimensão do problema não significa exagero retórico, mas requisito mínimo de lucidez. Um relatório da Universidade das Nações Unidas, apresentado como subsídio à Conferência da ONU sobre a Água de 2026, introduz uma mudança conceitual inquietante no debate: segundo os autores, o mundo já não vive apenas uma crise pontual ou mera escassez de água, mas ingressou numa era de falência hídrica global. A expressão pode soar alarmista para alguns, mas traduz a constatação de que, em vastas regiões do planeta, os sistemas hídricos foram tão degradados que já não conseguem se recompor nos marcos tradicionais de gestão, mesmo em cenários razoáveis de mitigação das mudanças climáticas.

A principal novidade do relatório não está na enumeração dos problemas, conhecidos há décadas, mas na conclusão de que muitos deles se tornaram estruturalmente irreversíveis. Aquíferos superexplorados, rios artificializados, zonas úmidas destruídas, poluição crônica e uso predatório do solo corroeram os mecanismos naturais de armazenamento e renovação da água. Em outras palavras, o mundo passou a gastar um capital hídrico que não será recomposto no tempo histórico das sociedades humanas. O resultado é um déficit permanente entre oferta e demanda, com impactos crescentes sobre alimentos, energia, saúde pública, estabilidade política e desenvolvimento econômico.

Ao propor o termo “falência”, o relatório busca romper com a complacência embutida em expressões como “estresse hídrico” ou “escassez”. Crises, por definição, são temporárias e solucionáveis; falências exigem reestruturação profunda, escolhas duras e redefinição de prioridades. A analogia é direta: assim como empresas insolventes não se recuperam com ajustes marginais, sistemas hídricos colapsados não serão salvos por políticas pontuais, campanhas educativas episódicas ou obras desconectadas de uma estratégia de longo prazo.

O documento também desmonta uma ilusão recorrente: a de que a crise da água é apenas um subproduto das mudanças climáticas. Embora o aquecimento global amplifique os riscos, o relatório deixa claro que a má governança da água – marcada por subsídios distorcivos, ausência de regulação efetiva, captura política e invisibilidade institucional – tem peso igual ou maior na degradação atual. Países com climas distintos e níveis variados de renda enfrentam problemas semelhantes quando tratam a água como recurso inesgotável, barato e politicamente secundário.

Nesse ponto, o alerta é particularmente relevante para o Brasil. Dono de uma das maiores disponibilidades hídricas do planeta, o País costuma confundir abundância relativa com imunidade estrutural. A realidade desmente essa complacência. A degradação de bacias, o avanço desordenado do desmatamento, a poluição urbana e industrial, a irrigação ineficiente e a fragilidade dos instrumentos de governança colocam regiões inteiras sob risco crescente. A falência hídrica global já se manifesta, de forma desigual, dentro das fronteiras nacionais.

O relatório da ONU insiste que a água precisa deixar de ser tratada como variável técnica e passar ao centro das decisões políticas e econômicas. Isso implica integrar políticas de uso do solo, energia, agricultura, saneamento e clima; revisar incentivos que estimulam o desperdício; fortalecer instituições de gestão; e reconhecer que conflitos por água tendem a se intensificar num mundo mais quente. Trata-se de uma advertência sobre os limites físicos que a retórica política já não consegue contornar.

Ao declarar o início de uma era de falência hídrica, a ONU oferece ao mundo um diagnóstico duro, porém necessário. Ignorá-lo significa aceitar que a escassez, a insegurança alimentar e os conflitos associados à água deixem de ser exceção para se tornarem regra. Enfrentá-lo exige reconhecer que, sem uma mudança profunda na forma de governar e valorizar a água, o custo da inação será incomparavelmente maior do que o da prevenção.

Um tsunami no mercado de trabalho

Por O Estado de S. Paulo

Segundo o FMI, a IA pode afetar até 60% dos empregos, sobretudo os dos jovens, nos países desenvolvidos. No Brasil, que forma mal grande parte de seus jovens, a situação pode ser ainda pior

Um tsunami no mercado de trabalho. Foi assim que a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, definiu o impacto da inteligência artificial (IA) sobre o emprego, especialmente o dos jovens.

Georgieva alertou os participantes do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) que a disseminação da IA está redefinindo a demanda por habilidades. De acordo com ela, nos próximos anos, a adoção mais generalizada da tecnologia nos países desenvolvidos afetará 60% dos empregos, o que significa que postos de trabalho podem ser transformados, mas, também, eliminados. Globalmente, o impacto deve ser de 40%.

É verdade que em alguns casos o domínio da IA não só dinamiza o trabalho dos profissionais, como lhes garante remuneração mais robusta. A adoção da inteligência artificial também tende a ampliar a produtividade, mas com um efeito colateral: o corte de postos de trabalho tradicionalmente ocupados por cidadãos da classe média.

Ainda mais preocupante, à medida que a tecnologia vai ganhando escala, as chamadas vagas para iniciantes são eliminadas, o que prejudica, sobretudo, os jovens. Mesmo entre aqueles com educação superior, a dificuldade de encontrar o primeiro emprego tem sido crescente.

Uma transformação dessa magnitude no mercado de trabalho pode causar grandes distúrbios mundo afora, mas, por ora, as discussões em torno dos efeitos negativos da IA estão concentradas no potencial estouro de uma bolha no mercado de ações.

Uma coisa, porém, não elimina a gravidade da outra. Mesmo que uma crise se confirme nas principais bolsas do mundo, varrendo empresas do mapa e levando à bancarrota aqueles investidores que calibraram mal suas apostas na corrida tecnológica, os efeitos da revolução da IA permanecerão.

Foi assim em grandes crises do passado, como o crash da bolsa de 1929 e o estouro da chamada bolha “pontocom” no início deste século. Em ambos os casos, o Produto Interno Bruto (PIB) global sucumbiu e grandes fortunas desapareceram da noite para o dia. Contudo, produtos relacionados a esses dois eventos traumáticos, como o telefone e a internet, se propagaram globalmente. Logo, o mesmo deve ser esperado da IA.

Por isso, o alerta de Georgieva deve ser tratado com a urgência que merece por governos de todo o mundo. Ela sugere que os benefícios gerados pela IA sejam distribuídos de modo justo entre a sociedade.

Faz sentido. Se a IA aumenta a produtividade e, potencialmente, os ganhos econômicos, mas, ao mesmo tempo, destrói empregos, é desejável que haja alguma forma de compensação aos mais prejudicados, pelo menos de forma transitória.

Para países como o Brasil, que estão muito longe de estar na vanguarda da IA, os potenciais efeitos negativos sobre o mercado de trabalho podem ser devastadores no longo prazo.

Se jovens altamente qualificados de nações ricas já enfrentam barreiras cada vez maiores para conseguir um emprego, o que dizer da juventude brasileira, que em sua maioria não tem acesso a uma boa educação?

A situação de quase pleno emprego que o País experimenta atualmente tampouco perdurará. A economia já vem desaquecendo e a demanda por produtos e serviços tende a cair, o que só deve aumentar o estoque de jovens disputando um espaço na chamada economia da uberização.

Além disso, como o Brasil não é líder no desenvolvimento de IA, não tem exatamente como distribuir os benefícios da tecnologia entre sua população. Supondo que os países desenvolvidos acordem que compensarão a eliminação de milhares de postos de trabalho usando os ganhos de produtividade da IA para criar uma espécie de renda mínima, o Brasil não está em condições de replicar o mesmo modelo.

Por aqui, uma boa parte da população, por negligência de governos em série, já vive de assistência social. O peso disso nas contas públicas é crescente, donde se conclui que ampliá-la para compensar as transformações profundas geradas pela IA será praticamente impossível.

Se os jovens do mundo desenvolvido estão diante de um tsunami no mercado de trabalho, no Brasil, infelizmente, as perspectivas parecem ser ainda mais sombrias.

Antissemitismo de manual

Por O Estado de S. Paulo

Ao tratar Epstein como peão do ‘lobby judaico’, sociólogo dá aula de ódio aos judeus

O sociólogo Jessé Souza publicou um vídeo no qual tomou a rede de tráfico e exploração sexual de menores criada por Jeffrey Epstein como pretexto para reeditar as mais abjetas teorias antissemitas. Ao fim e ao cabo, o indigitado atribuiu os crimes cometidos por um indivíduo – que, por acaso, era judeu – a toda a coletividade judaica.

Ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no governo Dilma Rousseff, professor da Universidade Federal do ABC e autor de vários livros que perscrutam os traços distintivos da nação brasileira, Jessé Souza é uma voz relevante no debate público. E foi dessa posição de autoridade que o sociólogo fez de uma ignomínia o seu opróbrio ao destilar o velho ódio contra os judeus em uma nova formulação igualmente antissemita.

Como muitos de seus colegas na academia e companheiros progressistas, Souza explora a suposta defesa do povo palestino contra o que chama de “opressão” de Israel. Nesse sentido, odiar Israel e seu povo equivale a odiar o “opressor”. Logo, a desumanização dos judeus em geral, disfarçada como “antissionismo” – ou seja, a negação do direito dos judeus de se autodeterminarem em um Estado –, não só está legitimada, como faz essa turma dormir o sono dos justos.

Ao afirmar que Epstein seria “o produto mais perfeito do sionismo judaico” e que agiria sob a influência de um “lobby judaico”, Souza difundiu a ideia de que judeus controlariam instâncias globais de poder e as utilizariam para ganhar dinheiro e encobrir seus crimes. Trata-se de uma teoria conspiratória que atravessou séculos e ensejou perseguições, pogroms e violências que, em seu momento mais catastrófico, levaram ao Holocausto. A ideia de um “complô internacional judaico”, associada à corrupção moral dos judeus e à violência contra crianças, é a raiz do antissemitismo moderno.

De novidade no vídeo repugnante de Jessé Souza, só a roupagem do preconceito. Em vez de um discurso abertamente antissemita, a acusação veio empacotada como “crítica ao sionismo”. Em seu simulacro de retratação, não por acaso, o sociólogo tentou se defender alegando que, ora vejam, até tem “amigos judeus”.

A fronteira entre a crítica a um governo e a desumanização de um povo é muito bem delimitada. Mesmo assim, Souza a violou deliberadamente. Quando trata Israel como um Estado essencialmente criminoso e sugere, como fez, que judeus acobertariam toda sorte de violências e abusos por meio de maquinações ocultas em defesa de seus interesses, não se está mais na arena do debate político. No vídeo se vê uma moral degenerada que pode, eventualmente, configurar crime.

No moderno antissemitismo à esquerda, didaticamente explicado por Jessé Souza em seus vídeos, a defesa dos direitos humanos é seletiva e cínica, pois não vale nem para os judeus atacados por terroristas palestinos nem para os cidadãos iranianos massacrados pelo regime dos aiatolás. E a defesa dos palestinos é mero pretexto para o exercício do mais puro ódio aos judeus – que nesse contexto, como acontece historicamente, servem como bodes expiatórios para fracassados.

Instabilidade global ajuda a impulsionar as desigualdades em saúde

Por Correio Braziliense

A gestão da saúde pública global é um dos pontos nevrálgicos da atual crise de multilateralismo. Ajustar mercados pode ser menos desafiante do que fechar as fronteiras para vírus ou controlar o subir dos termômetros

Recorrendo ao conhecido discurso de ataque à ciência, Donald Trump revogou, na última quinta-feira, a base legal de medidas que visam proteger a saúde da população dos efeitos da crise climática, criada na gestão de Barack Obama. Na percepção do atual chefe da Casa Branca, a "determinação não tinha nenhuma base factual" e é "odiada" pelos estadunidenses pelos custos gerados — o republicano estima uma economia de US$ 1,3 trilhão (R$ 6,7 trilhões), chancelada pelo chefe da Agência de Proteção Ambiental (EPA), Lee Zeldin. "Tenho orgulho de apresentar a maior ação de desregulamentação da história dos EUA em nome dos contribuintes e consumidores americanos", afirmou o administrador. 

A ciência tratou de não deixar a dupla falando sozinha. No mesmo dia em que a chamada constatação de perigo caiu por terra, uma pesquisa divulgada na renomada revista científica Nature Communications alertou que a fragmentação do mundo em relação ao enfrentamento da crise climática leva a uma maior desigualdade em saúde, afetando sobretudo as nações mais pobres, que têm menos controle sobre a qualidade do ar respirado.  

Enquanto Trump prometia, em um segundo momento da revogação, derrubar as normas que regulamentam as emissões de gases de efeito estufa de veículos, cientistas das universidades de Cardiff, no Reino Unido, e do Colorado em Boulder, nos EUA, atestavam que melhorar a qualidade do ar global pode salvar até 1,32 milhão de vidas por ano até 2040. "Estratégias climáticas mais inclusivas exigem que se leve em conta explicitamente a evolução das desigualdades transfronteiriças", enfatizou, em nota, Daven Henze, coautor do estudo e professor da universidade estadunidense.

Prega a sabedoria popular que "qualquer semelhança é mera coincidência". Mas essa sincronia nas declarações de Trump e dos estudiosos do clima não tem nada de insignificante. O que o chefe da Casa Branca anuncia agora com orgulho não surpreende. Vinte dias antes, ele havia declarado que os Estados Unidos encerravam sua participação na Organização Mundial da Saúde (OMS), cumprindo ordem executiva assinada poucas horas depois de ser empossado, em janeiro de 2025. É imprescindível, porém, que suas decisões não reverberem sem contraponto qualificado e responsável. Ainda que haja uma perigosa sensação de que o enfrentamento a grandes dilemas da atualidade não transcende ao campo declaratório, o silêncio enfraquece instituições consolidadas — incluindo a ciência — favorecendo rupturas.

O texto assinado por Daven Henze e colegas propõe a adoção de uma política climática "holística", que "avalie o grau de dependência de uma nação em relação à redução de emissões de outros países", levando a esforços globais que contribuam para relações mais equânimes. Os cientistas concentraram-se no impacto das partículas finas (PM2,5) no corpo humano — justamente os poluentes emitidos por veículos e indústrias que queimam combustíveis fósseis —, mas o desafio é maior. 

A gestão da saúde pública global é um dos pontos nevrálgicos da atual crise de multilateralismo. Ajustar mercados — buscando novos parceiros ou reorganizando dinâmicas internas — pode ser menos desafiante do que fechar as fronteiras para vírus ou controlar o subir dos termômetros. A pandemia da covid-19 e os sucessivos registros de calor recorde  — incluindo a onda que matou mais de 60 mil moradores, em 2022, na Europa — sustentam a tese de que o mundo não enfrenta um mal-estar passageiro.

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