O Globo
O caso Master coloca na mesa questões
cruciais como as relações de ministros do STF e escritórios de advocacia de
parentes
Chama a atenção uma frase curta numa das
notas em que o ministro Alexandre de Moraes nega ter mantido conversas sobre o
caso Master com o presidente do BC, Gabriel Galípolo. Diz a frase: “Por fim, (o
ministro) esclarece que o escritório de advocacia de sua esposa jamais atuou na
operação de aquisição BRB-Master perante o Banco Central.”
Viviane Barci de Moraes, titular do escritório, não fez qualquer declaração sobre suas atividades nesse caso, desde que a colunista Malu Gaspar revelou a existência de um contrato milionário com o Banco Master. De amplo alcance, o contrato previa atuação junto a várias instituições, incluindo o Banco Central.
De modo que já temos aqui não um, mas dois
fatos que chamam a atenção. Primeiro, é o marido, ministro do STF, que presta
informação sobre a atividade do escritório de sua esposa. Sendo óbvio que
Moraes não pode ser sócio de sua mulher nesse negócio.
Segundo, o caso mais importante do Master —
que ameaçava sua existência — estava justamente na fiscalização do BC, que
acabou por liquidar o banco de Daniel Vorcaro. Mas ali Viviane Barci não se
envolveu, como ficamos sabendo não por ela, mas por nota de seu marido.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet,
afirma que não há qualquer ilicitude no contrato entre o escritório de Viviane
Barci e o Banco Master. Digamos que a tese é discutível, mas a manifestação do
PGR confirma formalmente a existência do contrato.
Estava correta, portanto, a primeira
informação da jornalista Malu Gaspar. Mas a colunista acrescentou que Moraes
fez pressão sobre o presidente do BC, em favor do Banco Master. Outros
jornalistas apuraram a mesma história básica, com diferenças de nuances.
Moraes desmente. Disse que esteve com
Galípolo para tratar dos efeitos da Lei Magnistiky. O presidente do BC, em nota
curtíssima, confirmou essas reuniões. Mas não negou a ocorrência de outros
encontros e/ou telefonemas, que seriam sobre o caso Master.
Por outro lado, Galípolo informou que toda a
movimentação do BC está registrada e documentada. Fácil, portanto, saber onde
está a verdade. Mesmo porque o presidente do BC se colocou pessoalmente à
disposição dos órgãos que investigam a liquidação do Master.
O problema é que outro ministro do Supremo,
Dias Toffoli, colocou todo o caso sob sigilo. Mas qual caso exatamente?
Do pouco que se soube, parece que Toffoli
está interessado em descobrir se o BC teria demorado demais para apurar fraudes
na atividade do Master e, portanto, teria agido tardiamente.
Mais circunstâncias estranhas aparecem aqui.
Por que Toffoli não chamou Galípolo para prestar as informações? O ministro
preferiu convocar o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino,
aparentemente um elo mais fraco e que não conhece toda a história, como a
conhece o presidente do BC — inclusive as pressões exercidas por políticos.
De outro lado, entrou no caso um ministro do
Tribunal de Contas da União, Jonathan de Jesus, ex-deputado do Centrão. Se
Toffoli estaria interessado em saber se o BC se atrasou, o ministro do TCU
considera precipitada a liquidação do Master.
De qualquer modo, o resultado dos dois
processos daria na mesma: a anulação da liquidação, a devolução do Master a
Daniel Vorcaro e eventual punição aos diretores do BC. E um enorme impacto
negativo no sistema financeiro.
Quem teria interesse nisso? Vorcaro, claro, e
um amplo elenco de políticos e governantes que fizeram negócios com o Master.
O caso Master é, de longe, o maior desastre
do sistema financeiro. As possíveis fraudes e operações impróprias passam de
uma dezena de bilhões de reais. E colocam na mesa questões tão cruciais como as
relações de ministros do STF e escritórios de advocacia de cônjuges e parentes.
No discurso inaugural de 2026, o presidente
do Supremo, Edson Fachin, disse que o Judiciário deve promover a transparência
para ganhar a confiança da sociedade.
Confiança que se perde com relações
impróprias de magistrados, tudo sob sigilo. E quando vaza alguma coisa, é
constrangedora.

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