Folha de S. Paulo
Desenho institucional do financiamento
público afeta a competição, a organização partidária e os vínculos com a
sociedade
Ele pode aumentar a inclusão, mas apenas quando combinado com fiscalização independente e regras de transparência
Passado o Carnaval, a eleição de 2026 já domina o debate público. Lula buscará a reeleição, Flávio Bolsonaro se consolida como principal nome da oposição e, nos estados, multiplicam-se as incertezas sobre candidaturas aos governos e ao Senado. Mas, enquanto os nomes ainda estão em aberto, as regras e o dinheiro da disputa já estão definidos e influenciam decisões sobre o lançamento de candidaturas em todos os partidos e níveis da competição.
No Brasil, a
maior parte dos recursos é distribuída com base no desempenho anterior
dos partidos na eleição para a Câmara dos Deputados, e sua alocação interna
fica concentrada nas direções partidárias. Assim, dirigentes partidários têm
incentivos para priorizar estruturas já estabelecidas e candidaturas
competitivas, reduzindo o espaço para experiências novas ou para a mobilização
de base.
Esse cálculo deve estar sendo feito pelos
políticos do PSD, tanto pelos que almejam ser apresentados
como a terceira via na disputa presidencial de 2026, como por aqueles
que prefeririam que o partido destinasse a totalidade dos recursos para as
disputas legislativas e dos governos estaduais com grandes chances de vitória.
Por exemplo, em 2022, cerca de 80% dos
recursos de campanha tiveram origem estatal. A literatura comparada mostra que
o financiamento público não é neutro. Seu desenho institucional afeta a
competição, a organização partidária e os vínculos com a sociedade.
Estudo recente publicado na European
Political Science Review por Fernando Casal Bértoa, William Horncastle e Sergiu
Lipcean revisa evidências internacionais sobre os efeitos do financiamento
público direto. A conclusão é menos normativa e mais institucional: o
financiamento público não é, por si só, solução nem problema. Pode reduzir
desigualdades de competição, mas também pode produzir efeitos paradoxais, como
a cartelização partidária e o insulamento burocrático.
Tudo depende do desenho. Quando os recursos
são distribuídos em níveis muito elevados, pagos apenas como reembolso
pós-eleitoral ou restritos a partidos já representados no Parlamento, o sistema
tende a reforçar a reeleição daqueles que já ocupam cadeiras e dificultar a
renovação. Em vez de ampliar a competição, cristaliza o status quo.
A ampla revisão feita por Casal Bértoa e
coautores permite-nos concluir que o financiamento público pode aumentar a
inclusão e reduzir a dependência de grandes doadores, mas apenas quando
combinado com fiscalização independente, regras de transparência e incentivos à
mobilização social. Sem isso, tende a fortalecer partidos como organizações
dependentes do Estado e sem raízes na sociedade.
O debate público, no entanto, segue
concentrado no montante do fundo. Discutimos se o valor é alto demais, mas
raramente questionamos os critérios de distribuição e seus efeitos sobre a
competição, a renovação de lideranças e a conexão entre representantes e
eleitores.
Se queremos fortalecer a legitimidade do
financiamento público, é preciso ir além da cifra bilionária. A questão central
não é apenas a origem dos recursos e quanto custa a democracia, mas que tipo de
democracia estamos financiando.
O financiamento público pode ser bênção ou
maldição. Tudo depende do desenho institucional.

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