O Globo
Acadêmicos de Niterói andou sobre a linha
tênue que separa a crônica social da propaganda política
O desfile da Acadêmicos de Niterói no
carnaval de 2026 se transformou num dos capítulos mais complexos do Direito
Eleitoral brasileiro. Ao escolher o presidente Lula como enredo, a agremiação
andou sobre a linha tênue que separa a crônica social da propaganda política,
gerando uma batalha jurídica que poderá redefinir os limites da liberdade de
expressão artística.
A principal acusação que pesa sobre o desfile é de propaganda eleitoral antecipada. Em ano de eleições presidenciais, a legislação proíbe qualquer pedido de voto ou exaltação de candidatos antes de 16 de agosto. Para a oposição, o desfile funcionou como “showmício” financiado indiretamente, em que a biografia do presidente foi apresentada de forma hagiográfica e messiânica. O samba-enredo, as cores e a simbologia (como a onipresente estrela vermelha) foram apontados em representações ao TSE como tentativa de incutir no eleitor a ideia de continuidade administrativa, muito antes do permitido.
Se o enredo em si já era polêmico, a participação
da primeira-dama relatada pela imprensa elevou a temperatura. Foi noticiado que
ela atuou pessoalmente na captação de recursos junto a empresários e usou a
estrutura do cerimonial da Presidência para organizar o carro alegórico “Vale
uma nação, vale um grande enredo”, com a presença de convidados do presidente.
Caso tais denúncias sejam comprovadas
juridicamente, tais condutas podem configurar abuso de poder político e
econômico, pois há uso da máquina estatal e do prestígio do cargo para
beneficiar um ator privado (a escola) com fins eleitorais claros.
Somada a isso, há outra questão. Embora a
Embratur tenha repassado R$ 1 milhão a todas as escolas, a Acadêmicos de
Niterói tornou-se o único alvo de um pedido de suspensão de verba pelo TCU. O
argumento é o desvio de finalidade, já que, enquanto as outras celebram a
cultura, o uso de dinheiro público para exaltar o governante vigente fere o
princípio constitucional da impessoalidade.
A escola e o governo sustentam a tese da
liberdade de expressão artística, com o argumento histórico de que o carnaval é
o “jornal do povo” e sempre retratou figuras vivas, de políticos a líderes
sociais. Portanto, proibir o enredo é, segundo eles, uma forma de censura
prévia. Há precedente importante dando fundamento a isso: o festival
Lollapalooza 2022, quando se entendeu que as manifestações políticas de
artistas no exercício de sua arte são protegidas pela Constituição.
Entretanto o caso não é nada simples, por
causa de outro precedente recente: o TSE aplicou a Jair Bolsonaro no episódio
do 7 de setembro uma forma diferente de interpretação. Naquela ocasião, decidiu
que o contexto importa tanto quanto a forma, de modo que, se um evento oficial
ou cultural é “sequestrado” para fins de campanha, a ilegalidade está
configurada.
Saber se houve interferência direta do governo na construção do desfile definirá boa parte dos rumos das eleições deste ano. O desfecho dessa investigação determinará se o carnaval continuará sendo um espaço de livre crítica política ou se passará a ser visto como extensão perigosa da máquina de propaganda eleitoral.

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