segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Nunes contra o carnaval, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

A Prefeitura da capital paulista, por incompetência ou desinteresse, está dinamitando a festa

Carnaval também é política. O desfile-comício sobre Lula da Acadêmicos de Niterói na Sapucaí, que resultou no rebaixamento da escola, é o exemplo mais óbvio e recente. Além da bajulação ao presidente, os carros alegóricos e as fantasias foram elaborados para ridicularizar uma parcela da sociedade brasileira – e da classe política. O contrário também já ocorreu. Em 2019, o então presidente, Jair Bolsonaro, fez críticas aos blocos de rua, tomando a atitude isolada de alguns foliões como uma prova da degradação moral do carnaval. Seu filho Flávio, como pré-candidato à Presidência, tenta vender uma imagem mais moderada que a do pai e, na semana passada, tratou de enaltecer o carnaval, inclusive os cortejos de rua, como “uma das festas mais populares do planeta” e “um exemplo de como o Brasil pode ser criativo e fazer muito, mesmo com pouco”.

Os donos e frequentadores de blocos de rua de São Paulo que o digam. Há tempos não enfrentavam tanta falta de estrutura, organização e boa vontade do poder público. A Prefeitura da capital paulista, sob a gestão de Ricardo Nunes, por incompetência ou desinteresse, está dinamitando a festa. A verba para a infraestrutura caiu de R$ 42,5 milhões para R$ 30,2 milhões. O número de banheiros químicos diminuiu 39%.

Este ano, a Prefeitura terceirizou o planejamento do carnaval para a Agência Quarter, uma empresa com mais de R$ 180 milhões em contratos com o setor de turismo do município e que, segundo divulgou o site Metrópoles, está registrada em nome de laranja. Em diversos momentos, foi um caos. Fruto de mau planejamento, um tumulto ocorrido no fim de semana de précarnaval no encontro dos públicos de dois megablocos resultou em medidas excessivas nos dias seguintes, prejudicando cortejos menores.

Na terça-feira de carnaval, a Guarda Civil Metropolitana valeu-se de desnecessária truculência para dispersar os foliões após o bloco Vai Quem Qué, no Butantã. Foram usados bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta, que afetaram até quem estava dentro de bares e restaurantes.

No sábado, 21, o bloco Te Amo, Mas Só Como Amigo foi impedido de seguir o trajeto registrado com antecedência supostamente porque havia outro desfile algumas quadras adiante. O coordenador do bloco tentou negociar, em vão, com três funcionárias uniformizadas da Quarter, que pareciam perdidas. O que se exige para o carnaval é uma boa política pública. Não que a política pública se torne um carnaval. •

 

Nenhum comentário: