O Estado de S. Paulo
A ausência de um ordenamento fundiário efetivo obstaculiza investimentos e termina sendo um poderoso instrumento de não preservação ambiental
A Amazônia tornou-se uma questão geopolítica, de profundas repercussões militares, diplomáticas, econômicas e ambientais. Com a prevalência das relações internacionais da “lei do mais forte”, não há mais fronteiras asseguradas. O que era reconhecido ontem, pode deixar de sê-lo amanhã. As maiores potências agem estritamente segundo os seus interesses. A invasão da Ucrânia pela Rússia e a operação americana na Venezuela expõem essa nova realidade. O Brasil deve assegurar a defesa do seu território, dando-se os meios para isso.
A Amazônia é, em muitos aspectos, um
território sem lei, com o Estado mostrando pouca presença, sendo o exemplo mais
gritante os rios dessa região, que são controlados pelo narcotráfico.
Narcoestado foi o nome utilizado por Trump para justificar o ataque à
Venezuela. Há aqui uma indicação que deveria ser cuidadosamente observada. O
garimpo corre solto, com o desmatamento ilegal sendo uma realidade
descontrolada. De nada adiantam os discursos de defesa do meio ambiente, se
questões essenciais não forem enfrentadas, a exemplo da regularização
fundiária. Qualquer um desmata na Amazônia, porque ninguém é responsável por
nada.
O desmatamento, o garimpo e a grilagem de
terras são problemas que deveriam ser enfrentados realisticamente e não somente
com bonitos discursos não aderentes à realidade. Um grileiro avança numa
determinada propriedade, a desmata e quando for enfrentar algum tipo de
problema, abandona essa terra e parte para a invasão de outra e assim
sucessivamente. Se proprietário fosse, deveria prestar contas, assumir
responsabilidades individuais, sofrer multas, reparar crimes ambientais. Seu
arbítrio seria controlado pelo Estado, que teria meios apropriados para agir. A
regularização fundiária é o seu instrumento.
Ocorre que nem os títulos de propriedade são seguros. A incerteza reina. Cartórios e registros de imóveis não são confiáveis, títulos de propriedade se sobrepõem. Terras públicas cruzam com privadas e assim por diante. Investir é uma atividade de alto risco, dada a insegurança jurídica. Um empresário celebra um contrato num cartório, o leva para o Registro de imóveis e está tudo aparentemente normal. Cada parte cumpre com suas obrigações e a vida segue. Certo? Errado!
Descobre mais adiante, seja por ação do
Ministério Público, seja pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra), que esse território era só aparentemente privado, sendo, na verdade,
público devido a um decreto ou a uma lei que não consta nos registros. Seria
dever dele investigar em diferentes órgãos públicos se há alguma
irregularidade, ou essa deveria ser uma função básica do Estado? Seu
investimento vira pó? A ausência de um ordenamento fundiário efetivo
obstaculiza investimentos e termina sendo um poderoso instrumento de não
preservação ambiental.
A floresta amazônica é a maior floresta do
mundo, em grande parte preservada e constituída de mata nativa. Com os
problemas ambientais do mundo, com lançamento de carbono na atmosfera em muito
superior ao que o planeta pode suportar, uma região como essa poderia deixar de
ser um problema para tornar-se uma solução. Pode ser uma fonte inesgotável de
crédito de carbono, compensando poluições pelo mundo afora. Pode vir a ser uma
reserva de ouro verde, vendida para o mercado internacional. Todavia, ninguém
pretende comprar um produto falso ou inexistente.
Há empreendedores e desenvolvedores
ambientais que investem com honestidade e convicção, enfrentando, porém,
diversas adversidades provenientes da insegurança jurídica. Por que um
empresário europeu compraria crédito de carbono? Várias respostas são
possíveis: porque acredita na preservação ambiental, porque quer aumentar a sua
lucratividade ou porque quer melhorar sua imagem no mercado. A Amazônia, além
disso, tornou-se um símbolo mundial, sendo mesmo considerada uma espécie de
pulmão do planeta.
Como em qualquer transação comercial, o
contrato deve ser assegurado entre as partes. Os documentos devem estar em
ordem, o produto vendido correspondendo ao contratado. Ocorre, porém, que essas
condições básicas não são asseguradas numa das mais ricas áreas ambientais do
mundo, aquilo mesmo que deveria ser o seu cartão de visitas. Se isso não ocorre,
as partes abandonam as negociações e as já concluídas são anuladas por um
problema cartorial qualquer. O que era um grande ativo perde-se simplesmente.
Isso exige, ademais, empresas de certificação
de crédito de carbono, com algumas grandes internacionais já atuando nesse
domínio. O Brasil carece de empresas desse tipo, embora haja pesquisadores
nacionais que estão avançando nessa área. Ter empresas, institutos de pesquisa
ou universidades com essa especialização daria uma projeção suplementar ao Brasil,
mostrando um país cientificamente e tecnologicamente avançado com pesquisa e
metodologia próprias, como a de certificar um mercado de crédito de carbono
tropical.

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