quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Os genes egoístas de Trump, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pesquisadores propõem modelo neorrealista para entender ações de presidente dos EUA

Ele não defenderia interesses do país, mas os da família, como numa corte de monarquia absolutista

Trocar as lentes que utilizamos para interpretar fenômenos pode esclarecer muita coisa. Richard Dawkins promoveu uma pequena revolução conceitual na biologia ao destacar, em 1976, que são os genes, e não o indivíduo ou a espécie, a unidade fundamental sujeita à seleção natural. São os genes que buscam perpetuar-se e, ao contrário de indivíduos e espécies, que têm data mais ou menos marcada para morrer ou extinguir-se, podem perdurar pelo tempo em que existir vida na Terra.

A mudança de lentes explica o que antes parecia inexplicável. Um bom exemplo é a homossexualidade. Para o indivíduo que a pratica de forma exclusiva, é um beco sem saída reprodutivo. Mas, se pensarmos em termos de genes, tudo muda de figura. As mesmas sequências genéticas que levam uma pessoa gay a não ter filhos podem conferir vantagem reprodutiva a seus irmãos do sexo oposto. Com isso, esses genes se fixam no pool da humanidade mesmo que prejudiquem a reprodução de indivíduos específicos.

Stacie Goddard e Abraham Newman sugerem uma troca de óculos para entender Donald Trump. Para a dupla, ações e atitudes do presidente americano que aparentemente desafiam a lógica ficam menos malucas se as virmos como voltadas para beneficiar não os EUA nem grupos econômicos fortes do país, mas para satisfazer suas próprias necessidades egoicas, ajudar nos negócios da família e de seus colaboradores próximos.

O modelo não é Metternich nem Maquiavel, mas Henrique 8º ou os Borgias. A unidade de seleção é a corte trumpiana. Os autores chamam esse estilo de administração de neorrealista ("neoroyalist" em inglês, que é menos ambíguo).

O interessante nessa abordagem é que ela permite entender a facilidade com que Trump sacrifica interesses de longo prazo dos americanos e eventualmente até se alia a Putin ou Xi, tradicionalmente vistos como competidores dos EUA, se a parceria servir a seus interesses paroquiais.

A teoria tem corroboração empírica. Neste ano de Presidência, a família Trump já ficou US$ 1,4 bilhão mais rica.

 

 

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