O Estado de S. Paulo
Um ambiente conflagrado e de desconfiança generalizada aguarda o retorno das atividades na Praça dos Três Poderes a partir desta Quarta-feira de Cinzas. Nem mesmo o carnaval conseguiu abafar o clima de guerra que predomina na relação entre o Palácio do Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) desde que estourou o escândalo do Banco Master.
O presidente Lula deu carta branca para o
diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, investigar o ministro do
STF Dias Toffoli e seu relacionamento com Daniel Vorcaro, dono do Master.
Andrei ganhou tantos pontos com Lula que é visto na Esplanada como nome certo
para ocupar um ministério, provavelmente o da Segurança Pública, a ser criado,
caso o presidente conquiste novo mandato.
A atitude de Lula, porém, provocou mal-estar
entre magistrados. Nos bastidores, ele chegou a ser chamado de “ingrato” por
integrantes do STF, que fizeram uma aliança com o governo desde os aos
golpistas do 8 de Janeiro de 2023.
Sob pressão, Toffoli teve de deixar a
relatoria do caso Master, mas, logo em seguida, gravações com elogios a ele na
sessão secreta do STF foram vazadas. Havia grampo no STF? De repente, nesse
enredo envolvendo até resort de luxo, todos viraram suspeitos, como num romance
de Agatha Christie.
Com a Corte em chamas, Alexandre de Moraes,
relator do inquérito das fake news desde 2019, pediu à Receita Federal para
rastrear a quebra de sigilo dos magistrados e seus parentes. Foram
identificados vazamentos por parte de servidores da Receita.
É nesse cenário turbulento que deputados e
senadores do Centrão e também da esquerda, candidatos às eleições de outubro,
travam uma queda de braço. Apesar do discurso de que tudo será apurado, “doa a
quem doer”, a ideia é engavetar propostas de comissão para investigar
falcatruas cometidas pelo Master e direcionar o rumo da CPI do INSS.
Depois de um carnaval que já deu o que falar,
o Congresso e o Judiciário voltam ao trabalho sob os holofotes de uma
insatisfação social que não prescreve. E Toffoli será um dos titulares do
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no período de campanha, podendo ser o “fiel
da balança” nos julgamentos.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, já
avisou que não pautará pedido de impeachment de ministros do STF. O Planalto,
por sua vez, aposta no enfraquecimento de Alcolumbre e vê agora chance para
aprovar a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, a uma cadeira da
Corte.
Evangélico, Messias acabou de voltar de um
retiro espiritual. Não sambou na Sapucaí nem alfinetou Toffoli. Para os
católicos como Lula, a quaresma – que começa nesta Quarta-Feira de Cinzas – é
tempo de reflexão até a Páscoa. Mas haverá mesmo vida nova na Praça dos Três
Poderes? •

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