O Globo
Tudo aquilo de que o Brasil não precisa é um
conflito entre a Polícia Federal e o Supremo
Uma série de circunstâncias jogaram o Supremo
Tribunal Federal (STF)
no olho de um furacão político que só amainou depois que os responsáveis pela
trama golpista de 2022/2023 foram encarcerados. Nessa crise, escreveu uma de
suas melhores páginas. Destacou-se nessa sucessão de episódios a figura do
ministro Alexandre de Moraes.
Passado o furacão, o Tribunal embananou-se ao lidar com o caso do Banco Master e suas conexões políticas e financeiras. A reunião da semana passada, que tirou o ministro José Antonio Dias Toffoli da relatoria do caso, teve uma coreografia primorosa, mas não enganou ninguém. O propósito era afastar Toffoli, mas para enfeitar a cena avançaram em cima da Polícia Federal (PF).
Tudo aquilo de que o Brasil não precisa é um
conflito entre a PF e o Supremo. Desde as primeiras agressões do então
presidente Jair Bolsonaro ao tribunal, de lá partiram condutas exemplares e
inquéritos intimidadores. Passado o julgamento dos generais palacianos, o
Supremo deve considerar a hipótese de fechar a delegacia ou, pelo menos,
baixar-lhe a bola. Até porque a Corte tem mais o que fazer, noves fora a
discussão de um código de conduta para seus pares.
O STF passa por um período de extremo
desprestígio por culpa da atividade de uma bancada afeita a farofas e
parentelas. Esse é o lado ruim da moeda, irrelevante quando comparado ao lado
bom. Por maior que tenha sido o desgaste trazido pela novela Master/Toffoli,
não se pode esquecer que, em menos de três meses, o relator do processo foi
afastado. Quase um rito sumário.
Tendo feito o certo, o STF sinaliza (ou finge
sinalizar) uma saia justa com a PF. Tomara que a reunião de duas horas do
diretor da PF com o ministro André Mendonça, novo relator do caso Master,
acalme os ânimos. A saia-justa, como se viu, servia aos interessados em
embaralhar o processo. É certo que a Federal investigou indevidamente o
ministro Dias Toffoli, mas é certo também que, até agora, não se apontou um só
fiapo de falsidade nas 200 páginas entregues ao ministro Edson Fachin.
Quando o ministro Alexandre de Moraes manda
que a Receita rastreie nomes de ministros do STF e cerca de 100 familiares, a
delegacia reabre seus expedientes, levando constrangimentos a um nicho de
notáveis que passam por uma fase tétrica, mas não são a causa dos males
nacionais. O tribunal sabe avaliar convites impróprios, sabe até aceitá-los,
mas as coisas melhoram. Os ministros André Mendonça e Luiz Fux desistiram de ir
a um congresso jurídico na Espanha que previa a possível participação de um dos
integrantes de uma banca de advocacia que defende Daniel Vorcaro, dono do
Master. O congresso seria na cidade de Salamanca, farofa de primeira. Há alguns
meses, Toffoli ia a uma partida de futebol no Peru no jatinho de um empresário
e na companhia do advogado de um diretor do Master.
Funcionando como delegacia, o Supremo, que
fez um louvável trabalho indo além na fúria investigativa, acaba ajudando seus
piores inimigos: os golpistas e os larápios.

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