Correio Braziliense
O pecado original das escolas de samba é que elas foram, e ainda são, uma pedra incômoda no sapato de muita gente. Nascidas nas periferias, subúrbios e favelas, sempre deram um jeito de subverter os podres poderes
As escolas de samba sofrem de um pecado original. Essas instituições que nasceram poucas décadas após o fim da escravidão tornaram-se um "perigo" para o Estado. A Primeira República brasileira (1889-1930), fundada em 15 de novembro de 1889, teve como metas o progresso e o desenvolvimento — leia-se excluir tudo aquilo oriundo de África ou dos povos originários. Tal busca pelo branqueamento da nação não significava apenas eliminar os povos não brancos, mas também extirpar todas as práticas, culturas, religiosidades, traços africanos e ameríndios.
É nesse contexto político, marcado pela
eugenia e pelo racismo científico, que surgem as escolas de samba. As
agremiações de samba eram e são muito mais que entidades carnavalescas, são
espaços de sociabilidade, de produção cultural, resistência, aquilombamento,
reexistência, protagonismo negro, produção multiartística, manifestação
política e de congraçamento da vida. Como diz o escritor Antônio Simas,
"as escolas de samba não desfilam por isso existem, mas existem e por isso
desfilam".
O pecado original das escolas de samba é que
elas foram, e ainda são, uma pedra incômoda no sapato de muita gente. No
pretérito, eram acusadas de centros de balbúrdia, antros de desocupados e lócus
da vadiagem. No presente, elas são alvos de críticas que associam à libertinagem,
reduto de gays e lésbicas, promotoras de "macumba", redutos da
contravenção (jogo do bicho), mantenedoras do atraso cultural e inimigas da
moral cristã e dos bons costumes.
Os atuais detratores recorrem a acusações de
que elas não contribuem para a cultura, não dão retorno à sociedade, ou o
desenvolvimento da nação, além de que não produzem nada de positivo ou
edificante. Essas acusações caem como frágeis castelos de cartas ao
constatarmos que esses detratores, na verdade, temem as escolas.
Desde o início, as escolas sofreram com a
censura ou o controle estatal. A Vizinha Faladeira foi proibida de ter como
tema do carnaval "Branca de neve e os setes anões", pois o
regulamento só permitia que as escolas abordassem temas nacionais. Ou seja, era
a busca incessante do Estado em fazer das escolas difusoras da história dos
chamados grandes temas e homens da nação. O Império Serrano foi censurado
durante a famigerada ditadura civil militar (1964-1985) por trazer um enredo
para a avenida falando em liberdade.
Décadas atrás, até a Igreja Católica também
censurou a Beija Flor, que proibiu a alegoria do Cristo Redentor caracterizado
de mendigo. Joãozinho, o Trinta, driblou a censura, embrulhou o Cristo com saco
preto e colocou a frase "Mesmo proibido, olhai por nós". Neste ano,
parlamentares de extrema-direita tentam censurar a escola de samba Acadêmicos
de Niterói, por ter como tema o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A
alegação é que a homenagem configura campanha eleitoral ilegal, com uso do
dinheiro público.
Aqui não quero discutir se o mandatário
merece ou não a singela homenagem, mas sobre o que leva à busca da censura,
pois são os mesmos que acusam as escolas de samba de não contribuírem em nada,
de não ser cultura e de não promover nenhum impacto positivo para a população
brasileira.
Na verdade, as acusações falam muito mais
sobre os acusadores do que sobre as tão criticadas escolas de samba. Porque só
se busca proibir ou censurar aquilo que tem relevância, força e potência
transgressora. Portanto, seja o Estado, seja a Igreja, e, atualmente, seja uma
parte dos parlamentares, não buscam censurar as escolas de samba porque elas
são irrelevantes. Mas, justamente, pelo contrário. As escolas de samba têm
relevância, potência, impacto sobre a opinião pública, poder de pautar a
sociedade e de construir imaginário social.
O pecado original dessas instituições está na
sua origem e no seu ethos. Nascidas nas periferias, subúrbios e favelas;
formadas em sua maioria por homens e mulheres negras; por manterem viva a
cultura popular; por não se submeterem aos poderes e interesses da elite,
sempre deram um jeito de subverter os podres poderes. Portanto, o problema dos
críticos e aspirantes a censores nunca foi sobre a relevância, potência e
importância delas. Mas sobre não poder controlá-las. Sem esse controle, para
quem tem medo das agremiações, sobra a famigerada censura.
*Jorge Santana, professor doutor de história
do Instituto Federal do Paraná (IFPR) campus Campo Largo

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