CartaCapital
O mundo demonstra seu desprezo pelo
presidente dos Estados Unidos
Donald Trump descobre, aos poucos, a dimensão do desprezo do mundo por seu governo. Durante a abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão, a entrada da delegação dos Estados Unidos no desfile foi marcada por uma mistura de aplausos e vaias. A celebração foi para os atletas, alguns dos melhores do mundo em suas modalidades. Mas um sonoro protesto ocorreu quando o telão do estádio de San Siro mostrou o vice-presidente JD Vance, de pé, aplaudindo a delegação. Curiosamente, o público dos EUA jamais soube disso. Na transmissão oficial veiculada nas televisões de milhões de norte-americanos, a NBC cortou o som das vaias. Horas depois, quando a Casa Branca divulgou o vídeo do vice-presidente no evento na Itália, uma vez mais o som das vaias havia sido convenientemente abafado.
Ali foi apenas um termômetro de críticas,
protestos e manifestações de repúdio diante de um governo que desmonta a
democracia, abala os direitos humanos, interrompe a ajuda humanitária pelo
mundo e ainda se diz orgulhoso de invadir países estrangeiros.
Nos dias seguintes à cerimônia de abertura,
foram diversos os eventos e competições que viram as arquibancadas se
manifestar contra os EUA. Num jogo de hóquei entre Canadá e Suíça, no sábado 7,
torcedoras canadenses abriram um cartaz de protesto contra o ICE, a polícia de
imigração de Trump. Manifestações da mesma dimensão tomaram outros locais de
eventos esportivos durante os Jogos.
As arquibancadas eram, porém, meras caixas de
ressonância de uma tendência mais profunda. Um levantamento da entidade YouGov
revelou que poucas vezes nas últimas décadas a popularidade do governo
norte-americano na Europa esteve em patamares tão baixos como hoje. A pesquisa
revelou que, em janeiro, apenas 16% dos britânicos tinham uma opinião favorável
a Trump e 81% tinham uma opinião desfavorável. Na França, 18% dos entrevistados
apresentaram uma opinião favorável ao presidente dos EUA, contra apenas 11%
entre os alemães. Na Itália, 77% dos entrevistados tinham uma opinião
desfavorável, taxa similar àquela registrada na Espanha. Nem George W. Bush nos
primeiros anos de seu governo registrou índices tão baixos.
Nada se equipara, no entanto, aos índices de
desaprovação de Trump na Dinamarca, país que sofre um assédio direto do
republicano em busca do controle da Groenlândia. Em janeiro, apenas 4% dos
escandinavos tinham uma percepção positiva sobre o presidente dos EUA. Os dados
contrastam com a popularidade de Barack Obama na Europa ao terminar o mandato
em 2016. Naquele ano, o democrata chegou a registrar um índice de aprovação de
mais de 75% na Espanha, Alemanha, Reino Unido e França.
A Olimpíada de Inverno, portanto,
transformou-se num primeiro teste real da imagem dos EUA no exterior, desde a
volta ao poder de Trump. Os protestos não se limitaram às arquibancadas. O
esquiador da equipe britânica, Gus Kenworthy, compartilhou uma foto no
Instagram na qual critica o ICE, escrevendo seu desagravo na neve com urina.
“Não podemos ficar de braços cruzados enquanto o ICE continua a operar com
poder irrestrito em nossas comunidades”, afirmou. Os atletas de Minnesota,
epicentro do confronto entre as forças de Trump e imigrantes, também usaram o
evento para se distanciar do republicano. “Estou competindo por um povo
americano que defende o amor, a aceitação, a compaixão, a honestidade e o
respeito ao próximo”, disse Jessie Diggins, medalhista de ouro olímpica no
esqui cross-country. “Não apoio o ódio, a violência ou a discriminação.”
O próprio Trump envolveu-se em uma troca de
farpas com o esquiador Hunter Hess. O atleta foi questionado sobre como era
representar os EUA nas Olimpíadas, dada a situação atual do país, que incluiu
operações do ICE e uma série de crises geopolíticas. Hess disse que representar
os EUA lhe causava “sentimentos mistos” e que era “um pouco difícil”. “Só
porque estou vestindo a bandeira não significa que represento tudo o que está
acontecendo nos EUA.”
Extremistas de direita dos EUA passaram a
pedir a exclusão de Hess da delegação. Trump deixou clara sua indignação. “Ele
(Hess) não representa seu país nas atuais Olimpíadas de Inverno. Se for esse o
caso, ele não deveria ter tentado entrar para a equipe, e é uma pena que esteja
nela. É muito difícil torcer por alguém assim”, escreveu o presidente, que o
chamou de “perdedor”.
O mal-estar ganhou tal dimensão que os
próprios organizadores tiveram de tomar medidas de precaução. Para evitar uma
polêmica ainda maior, a delegação norte-americana renomeou a casa que havia
alugado em Milão para promover atletas e patrocinadores. O nome original era
ICE House, numa referência ao gelo. Mas, a poucos dias da abertura do evento, o
local passou a se chamar Winter House, ou a Casa de Inverno. Que venha a
primavera.
Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital,
em 18 de fevereiro de 2026.

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