quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Encanto com isenção do IR finda na largada, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Eleição em que o presidente é candidato é plebiscito sobre seu governo. Pesquisas eleitorais sobre esta disputa viram sucessivas corridas de cavalo se não cotejadas com a avaliação de governo. A última rodada da Genial/Quaest mostrou que o açude de votos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Nordeste (27% do eleitorado) está ameaçado por dois problemas, a violência e a economia, preocupações piores lá do que em qualquer outra parte do país. Nos últimos seis meses, Lula passou de 62% na região para 53% e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de 22% para 29%.

Apenas no Nordeste registra-se a percepção de que a economia piorou nos últimos 12 meses. E não foi pouco. É um tombo de 10 pontos percentuais de janeiro pra cá. Felipe Nunes, diretor da Quaest, arrisca uma explicação: o governo inflou as expectativas sobre o impacto da isenção do Imposto de Renda que acabaram diluídas na percepção da população sobre a melhoria de sua vida.

Em outubro, quando seus pesquisadores perguntaram se a isenção do IR os beneficiaria, 61% disseram que sim. Voltaram a fazer a mesma pergunta agora e apenas 30% deram a mesma resposta (o NE colheu o menor percentual do país, 23%). Entre aqueles que dizem ter sido beneficiados, apenas 15% acham que a renda aumentou de maneira expressiva com a medida. Propagandeada como um 14º salário por Lula, a isenção, diluída em parcelas mensais, não fez a diferença que se imaginava. “Não dá pra trocar o celular”, resume Nunes.

Se a isenção do IR não mudou a vida das pessoas, ou pelo menos não gerou esta percepção, o medo e a insegurança são norteadores de expectativas, principalmente entre lulistas, fatia do eleitorado mais preocupada com o tema. Enquanto caiu no país como um todo, a preocupação com a violência, no Nordeste, é o dobro daquela provocada por “questões sociais”, como a pobreza. Felipe Nunes diz que a Bahia e o Ceará puxam a preocupação. Ambos os Estados são governados pelo PT.

Renato Sérgio de Lima, diretor do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, não registra indicadores de violência drasticamente piores na região mas vê o crescimento da presença do crime organizado nos dois Estados como causa da disseminação da insegurança e do medo. Os dois ex-governadores desses Estados, Rui Costa (BA) e Camilo Santana (CE), ministros da Casa Civil e da Educação, batem ponto em toda reunião feita no Palácio do Planalto sobre o tema mas esta assiduidade não parece ter ajudado a endereçar melhor as soluções.

A Força Nacional de Segurança está no Sul da Bahia, onde os balneários de Trancoso e Caraíva seguem indiferentes ao aumento da violência provocado pela presença crescente do Comando Vermelho numa região de conflito fundiário em terras indígenas. Morada Nova, a 167 quilômetros de Fortaleza, virou uma cidade fantasma com o êxodo de moradores afugentados pela disputa de facções.

A aproximação de Flávio Bolsonaro de Lula no 2º turno - eram 16 pontos em agosto e agora são apenas cinco - não pode ser dissociada da preocupação com a violência. Mas não apenas. O primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro consolidou-se como o eixo da oposição em cenários que trazem a “terceira via” com chances reduzidas. Sua consolidação ainda é favorecida por uma rota em que não é questionado sobre sua capacidade de gestão pública, ainda não testada, nem privada, pouco esmiuçada além da franquia da Kopenhagen.

No evento desta quarta, no BTG, o candidato do PL mostrou não ter incorporado o figurino de “Bolsonaro moderado” nem mesmo para falar do que seria sua gestão na economia: chamou Lula de “Opala velho que bebe muito”, disse esperar que o presidente não vá falar com Donald Trump embriagado, elogiou a liberação das tilápias, no lago de Itaipu, pelo Paraguai, criticou a “roubalheira” do PT e, depois de dizer que tinha um “plantel” de pessoas dispostas a ajudá-lo, brincou com um convite ao CEO do banco, André Esteves, para a Fazenda.

A rejeição do senador permanece estagnada se olhada em relação àquela vigente no início de 2025 depois de ter um pico, em dezembro, provocada pela prisão do pai que colocou em primeiro plano a condenação pela trama golpista. Já a de Lula, passou de 49%, em janeiro de 2025, para 54% hoje.

O entorno do presidente comemorou o pré-lançamento do 01 como sinal do favoritismo da reeleição. Não é bem assim. Lula não subestima apenas Flávio, mas também a resistência do eleitor a si. A quase inexistência de indecisos no eleitorado de esquerda mostra que Lula bateu no teto no seu quintal. Sua chance está nos 7% de “independentes” indecisos. A inexistência de uma estratégia para conquistá-los se reflete nos planos de Lula e da primeira-dama para o Carnaval.

Muitos governantes foram homenageados na Sapucaí, inclusive em ano eleitoral. A pergunta não é por que uns podem e Lula, não. No limite, não é nem sobre a razão pela qual o PT questiona a proposta do TSE que libera o impulsionamento de propaganda negativa contra governos na pré-campanha, e não vê problemas com a homenagem da Acadêmicos de Niterói a Lula. De idiossincrasias e saúvas vive o país.

A pergunta é no que a presença do presidente da República na plateia e de Janja da Silva na avenida reduzem a crescente rejeição de Lula num eleitorado que pouco está se lixando para a isenção do IR.

 

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