Valor Econômico
Eleição em que o presidente é candidato é plebiscito sobre seu governo. Pesquisas eleitorais sobre esta disputa viram sucessivas corridas de cavalo se não cotejadas com a avaliação de governo. A última rodada da Genial/Quaest mostrou que o açude de votos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Nordeste (27% do eleitorado) está ameaçado por dois problemas, a violência e a economia, preocupações piores lá do que em qualquer outra parte do país. Nos últimos seis meses, Lula passou de 62% na região para 53% e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de 22% para 29%.
Apenas no Nordeste registra-se a percepção de
que a economia piorou nos últimos 12 meses. E não foi pouco. É um tombo de 10
pontos percentuais de janeiro pra cá. Felipe Nunes, diretor da Quaest, arrisca
uma explicação: o governo inflou as expectativas sobre o impacto da isenção do
Imposto de Renda que acabaram diluídas na percepção da população sobre a
melhoria de sua vida.
Em outubro, quando seus pesquisadores
perguntaram se a isenção do IR os beneficiaria, 61% disseram que sim. Voltaram
a fazer a mesma pergunta agora e apenas 30% deram a mesma resposta (o NE colheu
o menor percentual do país, 23%). Entre aqueles que dizem ter sido
beneficiados, apenas 15% acham que a renda aumentou de maneira expressiva com a
medida. Propagandeada como um 14º salário por Lula, a isenção, diluída em
parcelas mensais, não fez a diferença que se imaginava. “Não dá pra trocar o
celular”, resume Nunes.
Se a isenção do IR não mudou a vida das
pessoas, ou pelo menos não gerou esta percepção, o medo e a insegurança são
norteadores de expectativas, principalmente entre lulistas, fatia do eleitorado
mais preocupada com o tema. Enquanto caiu no país como um todo, a preocupação
com a violência, no Nordeste, é o dobro daquela provocada por “questões
sociais”, como a pobreza. Felipe Nunes diz que a Bahia e o Ceará puxam a
preocupação. Ambos os Estados são governados pelo PT.
Renato Sérgio de Lima, diretor do Fórum
Brasileiro de Segurança Pública, não registra indicadores de violência
drasticamente piores na região mas vê o crescimento da presença do crime
organizado nos dois Estados como causa da disseminação da insegurança e do
medo. Os dois ex-governadores desses Estados, Rui Costa (BA) e Camilo Santana
(CE), ministros da Casa Civil e da Educação, batem ponto em toda reunião feita
no Palácio do Planalto sobre o tema mas esta assiduidade não parece ter ajudado
a endereçar melhor as soluções.
A Força Nacional de Segurança está no Sul da
Bahia, onde os balneários de Trancoso e Caraíva seguem indiferentes ao aumento
da violência provocado pela presença crescente do Comando Vermelho numa região
de conflito fundiário em terras indígenas. Morada Nova, a 167 quilômetros de
Fortaleza, virou uma cidade fantasma com o êxodo de moradores afugentados pela
disputa de facções.
A aproximação de Flávio Bolsonaro de Lula no
2º turno - eram 16 pontos em agosto e agora são apenas cinco - não pode ser
dissociada da preocupação com a violência. Mas não apenas. O primogênito do
ex-presidente Jair Bolsonaro consolidou-se como o eixo da oposição em cenários
que trazem a “terceira via” com chances reduzidas. Sua consolidação ainda é
favorecida por uma rota em que não é questionado sobre sua capacidade de gestão
pública, ainda não testada, nem privada, pouco esmiuçada além da franquia da
Kopenhagen.
No evento desta quarta, no BTG, o candidato
do PL mostrou não ter incorporado o figurino de “Bolsonaro moderado” nem mesmo
para falar do que seria sua gestão na economia: chamou Lula de “Opala velho que
bebe muito”, disse esperar que o presidente não vá falar com Donald Trump
embriagado, elogiou a liberação das tilápias, no lago de Itaipu, pelo Paraguai,
criticou a “roubalheira” do PT e, depois de dizer que tinha um “plantel” de
pessoas dispostas a ajudá-lo, brincou com um convite ao CEO do banco, André
Esteves, para a Fazenda.
A rejeição do senador permanece estagnada se
olhada em relação àquela vigente no início de 2025 depois de ter um pico, em
dezembro, provocada pela prisão do pai que colocou em primeiro plano a
condenação pela trama golpista. Já a de Lula, passou de 49%, em janeiro de
2025, para 54% hoje.
O entorno do presidente comemorou o
pré-lançamento do 01 como sinal do favoritismo da reeleição. Não é bem assim.
Lula não subestima apenas Flávio, mas também a resistência do eleitor a si. A
quase inexistência de indecisos no eleitorado de esquerda mostra que Lula bateu
no teto no seu quintal. Sua chance está nos 7% de “independentes” indecisos. A
inexistência de uma estratégia para conquistá-los se reflete nos planos de Lula
e da primeira-dama para o Carnaval.
Muitos governantes foram homenageados na
Sapucaí, inclusive em ano eleitoral. A pergunta não é por que uns podem e Lula,
não. No limite, não é nem sobre a razão pela qual o PT questiona a proposta do
TSE que libera o impulsionamento de propaganda negativa contra governos na
pré-campanha, e não vê problemas com a homenagem da Acadêmicos de Niterói a
Lula. De idiossincrasias e saúvas vive o país.
A pergunta é no que a presença do presidente
da República na plateia e de Janja da Silva na avenida reduzem a crescente
rejeição de Lula num eleitorado que pouco está se lixando para a isenção do IR.

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