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Por serem “sonhadoras demais”, as ideias
marxistas nunca deixam de soar como ameaça para as classes dominantes
Karl Marx (1818–1883) e Friedrich Engels
(1820–1895) são conhecidos como os fundadores do “socialismo científico”. Se,
antes deles, era comum a elaboração de utopias abstratas, que projetavam o
futuro sem considerar as condições do presente, os dois intelectuais alemães
inauguraram uma perspectiva socialista fundamentada nas contradições do próprio
capitalismo.
Mas isso não significa que, para eles, a vitória do socialismo, assim como o caminho para se chegar até lá, pudesse ser estabelecida de antemão. A teoria é importante porque serve como bússola para a prática. Não cabe a ela, entretanto, definir os contornos exatos de lutas sociais e políticas cujo desfecho é imprevisível.
Esse vaivém entre teoria e prática se revela
com nitidez nas poucas entrevistas que Marx e Engels concederam ao longo da
vida, agora compiladas e publicadas pela Boitempo Editorial, em edição que
conta também com relatos de militantes políticos que os conheceram.
Como destaca Murillo van der Laan na
apresentação do livro, entrevistas são particularmente interessantes porque
retiram os entrevistados da zona de conforto, obrigando-os a desenvolver
reflexões que talvez não tivessem lugar em textos escritos.
Já os depoimentos sobre encontros pessoais
com Marx ou com Engels, em especial o de figuras do marxismo ou do populismo
russos, nos mostram como os dois eram vistos nos círculos militantes da época.
Em conjunto, entrevistas e relatos trazem à tona duas personalidades
intelectuais distintas, mas complementares.
Enquanto Marx mostra toda a sua desenvoltura
reflexiva mesmo diante das perguntas mais hostis, Engels, descrito como
“inimigo declarado de todo tipo de entrevistas” pelo jornal francês L’Éclair,
em 1892, é mais direto e seco, exceto quando o assunto é militar – ele que era
chamado de “o general”.
Além disso, se Marx não esconde certo
“pessimismo da razão”, como diria o italiano Antonio Gramsci (1891–1937),
Engels, cujas entrevistas são posteriores à morte do amigo, em 1883, mostra-se
mais otimista, baseando-se no crescimento eleitoral progressivo do Partido
Social-Democrata Alemão.
Essas visões relativamente diferentes se
manifestam nas percepções de ambos sobre a possibilidade da guerra na Europa.
Engels não hesitava em sua posição crítica à Rússia e, embora não acreditasse
no advento de uma guerra generalizada no Velho Continente, parecia colocar a
Alemanha na posição de vítima, caso o conflito viesse mesmo a ocorrer.
Nesse cenário, até mesmo a social-democracia alemã se somaria à defesa “até as últimas consequências da existência nacional” do país – o que, na Primeira Guerra Mundial, de fato aconteceu, com honrosas dissidências, como a de Rosa Luxemburgo.
Mais cético em relação à manutenção da paz,
Marx destacava o vínculo entre progresso da ciência e “melhoramento na arte da
destruição”. Por isso mesmo, o socialismo deveria ser, para ele, uma
alternativa dos trabalhadores à ameaça da guerra que pairava sobre a Europa.
A independência do movimento dos
trabalhadores é, aliás, enfatizada por Marx mais de uma vez, em particular nas
entrevistas a jornais conservadores, que o acusavam de ser a cabeça de uma
grande conspiração organizada a partir de Londres, onde vivia exilado. A
eclosão da Comuna de Paris, em 1871, seria a prova desse controle centralizado.
Como ele sublinha nas entrevistas, a
emancipação dos trabalhadores será uma autoemancipação ou não será. Assim, cada
seção da Associação Internacional dos Trabalhadores, a I Internacional, é que define
a melhor política a ser adotada, nas condições de cada país. O que as une – e é
para isso que existe a Internacional – é o fim a ser alcançado: “a emancipação
do trabalho”.
Em carta à rainha herdeira Vitória, em que
relata seu encontro com Marx, Sir Mountstuart Elphinstone Grant Duff afirmou
que as ideias do filósofo alemão eram “sonhadoras demais para serem perigosas”.
Ora, como mostra este livro, é exatamente
porque são “sonhadoras demais”, quer dizer, porque perseguem a construção do
futuro nas lutas do presente, que as ideias de Marx e Engels nunca deixaram de
ser “perigosas” para as classes dominantes.
De lá para cá, muita coisa mudou. Não tudo. A
crítica de Marx e Engels ao capitalismo continua sendo um ponto de partida –
não de chegada – inescapável. Mas, para isso, é preciso que ela seja
permanentemente atualizada, evitando que se torne uma doutrina fossilizada,
imune à realidade a ser compreendida e transformada.
E não era contra essa possibilidade que o
próprio Marx disse certa vez que “não era marxista”?
*Fabio Mascaro Querido é professor de
Sociologia da Unicamp.
Entrevistas. Karl Marx e Friedrich Engels. Tradução: Nélio Schneider. Boitempo Editorial (160 págs., 53 reais).
Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital,
em 21 de janeiro de 2026.

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