terça-feira, 3 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Guerra duradoura trará maior pressão sobre a inflação

Por O Globo

Ao fechar Estreito de Ormuz, Irã impede transporte de um quinto dos barris de petróleo exportados

Quatro em dez barris de petróleo exportados no mundo saem do Oriente Médio. Desses, pelo menos dois atravessam o Estreito de Ormuz, que separa o Golfo Pérsico do Oceano Índico. É daí que vem a ameaça de contágio da economia global pela guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Fechar Ormuz, como fizeram ontem os iranianos, é uma estratégia eficaz para infligir perdas aos inimigos. No plano de sobrevivência do regime dos aiatolás, a prioridade é mirar em refinarias e navios enquanto houver forças.

Marcelo Cerqueira, advogado de presos políticos e deputado, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O ex-parlamentar foi um dos principais advogados de perseguidos da ditadura militar do Rio de Janeiro e protagonizou no Congresso a campanha da anistia, ao lado do senador Teotônio Vilela

A história da redemocratização brasileira não pode ser contada sem referência a Marcelo Cerqueira, um dos mais combativos advogados e parlamentares do período autoritário. Militante da causa democrática, notabilizou-se por sua atuação jurídica em defesa de perseguidos políticos e pela presença destacada na campanha da anistia, ao lado do senador Teotônio Vilela, o “Menestrel das Alagoas”, que percorreu o país conclamando a sociedade à reconciliação nacional.

Conheci Cerqueira na campanha eleitoral de 1978, quando foi candidato a deputado federal pelo MDB, a convite do falecido dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) Antônio Ribeiro Granja, com apoio no Rio de Janeiro, em Niterói e na Baixada Fluminense. Fez dobradinha com o deputado estadual Alves de Brito (MDB), que concorria à reeleição. Lembro-me de seu principal panfleto de campanha, intitulado “Dá-lhe, povo”, inspirado no lendário jóquei Luiz Rigoni.

Formado em direito, Cerqueira construiu sua trajetória na interseção entre a advocacia e a política. Não era apenas de um advogado militante, mas um jurista atento às garantias constitucionais e aos limites do poder punitivo. Ex-vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), ingressou no antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) pelas mãos do falecido cineasta Leon Hirszman (Cinco Vezes Favela, Eles Não Usam Black-Tie, entre outros).

A única meta do STF é parar de piorar, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Lula resiste à pressão da Corte sobre a PF e ministros se inquietam com a mudança interna no pêndulo do poder

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca rompeu com Emílio Odebrecht. Os desdobramentos do envolvimento de seu filho Fábio Luís Lula da Silva com Antonio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, sugerem que, além daquelas da Lava-Jato, Lula também colheu lições da relação entre Emílio e seu filho, Marcelo Odebrecht.

Corria o segundo semestre de 2016 quando a Odebrecht começou a negociar o acordo de delação premiada. Marcelo queria ser o primeiro dos 77 delatores pela simples razão de que a primazia, num acordo cujo ativo mais valioso é a informação, lhe daria vantagem. Emílio não permitiu. O filho ameaçou implodir tudo, Emílio pagou pra ver, manteve-o no fim da fila e a delação seguiu seu curso.

Contra os ataques americanos, Irã ameaça as bombas de gasolina nos EUA, por Humberto Saccomandi

Valor Econômico

Reação de Teerã sinaliza que o país já começou a usar o petróleo como arma, ameaçando Trump onde mais poderá lhe doer: nas urnas

Donald Trump se vangloriou dos preços baixos dos combustíveis nos EUA, no seu recente discurso sobre o Estado da União. Isso mostra como a gasolina barata é um ativo precioso para o presidente, especialmente num período de campanha eleitoral. A reação do Irã ao ataque americano sinaliza que o país já começou a usar o petróleo como arma, ameaçando Trump onde mais lhe poderá doer, nas urnas. A guerra pode logo se tornar uma disputa entre o que causa mais dano: as bombas americanas que estão caindo no Irã ou o preço subindo nas bombas de gasolina dos EUA.

Quando a guerra ignora limites: a urgência de reafirmar o direito internacional, por Nasser Zakr*

Correio Braziliense

A estabilidade duradoura depende da observância coerente de normas compartilhadas que preservem a dignidade humana mesmo em contextos de violência intensa

O direito internacional humanitário (DIH) representa o esforço mais consistente da comunidade internacional para preservar a dignidade humana em meio à guerra. Não impede conflitos, mas estabelece limites jurídicos claros e universais à condução das hostilidades. Seu propósito é essencial: proteger civis, restringir métodos e meios de combate e assegurar que, mesmo em cenários extremos, a humanidade permaneça como parâmetro mínimo de conduta entre Estados e demais atores armados.

Relações perigosas, por Merval Pereira

O Globo

A posição diplomática do Brasil é ideológica, com viés esquerdista de antiamericanismo, mas não tem sentido na vida real para o país

A política externa brasileira, no afã de mostrar-se independente dos Estados Unidos num anti-imperialismo infantiloide, se une a países como o Irã, que financia o terrorismo internacional, e se coloca em situações embaraçosas. Exemplo de como ser um vice-presidente leal é tarefa delicada, Geraldo Alckmin já ouviu em posição de sentido a Internacional Socialista no aniversário do PSB e apareceu numa foto ao lado de líderes de milícias que integram o autoproclamado “eixo da resistência”, aliança informal liderada pelo Irã. Na cerimônia de posse do presidente iraniano em 2024, em que representou o governo brasileiro, Alckmin ficou ao lado de representantes dos grupos terroristas Houthi, Jihad Islâmica, Hezbollah e Hamas, todos financiados pelo Irã.

Aposta de Trump na guerra do Irã, Por Míriam Leitão

O Globo

O presidente norte-americano posa de vencedor no conflito com o Irã e aposta que a população deixará questões internas em segundo plano na eleição

Não há no mundo falta de petróleo. O que é previsível, com o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, é uma crise logística no escoamento do Oriente Médio, que pode fazer com que os países não tenham acesso ao petróleo e gás. O fechamento do Estreito de Ormuz estrangula o fluxo, o que afeta muito mais a Ásia. A Índia, por exemplo, depende drasticamente do gás natural liquefeito do Catar, que ontem suspendeu o fornecimento. O Catar é a Arábia Saudita do GNL, e seu gás é escoado por navios.

Quem explica é o especialista David Zylbersztajn, professor do Departamento de Energia da PUC. Ele avalia que, neste momento, ninguém se atreveria a optar por esse caminho.

Irã entre a ditadura e a paz americana, por Fernando Gabeira

O Globo

A tática dos EUA é intimidar e favorecer um governo mais flexível aos interesses imperiais

Quem tem memória lembra bem a guerra do Iraque. Colin Powell foi à ONU com umas fotos estranhas, para demonstrar que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça. Agora, Donald Trump, de boné com a inscrição “USA”, afirma que o Irã é uma ameaça nuclear à segurança do povo americano.

Saddam não tinha armas de destruição maciça. E a capacidade nuclear do Irã, segundo a própria inteligência americana, foi retardada em décadas pelos bombardeios de 2025. Tanto a guerra no Iraque como a no Irã são guerras de escolha. Na avaliação de Trump, o governo dos aiatolás, que massacrou recentemente centenas de manifestantes, está mais fraco.

A IA vai à guerra, por Pedro Doria

O Globo

É provável que os Estados Unidos tenham usado inteligência artificial para ter certeza da localização do aiatolá

Quão legítimo é o uso de inteligência artificial numa guerra? Da semana passada para cá, essa discussão veio para o centro do debate político americano. E, pela primeira vez, o Vale do Silício rachou. Mais que isso. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, disse “não” ao governo Donald Trump. Nunca um líder havia dito “não” para esta Casa Branca, bem pelo contrário. No último ano e pouco, houve um festival de homenagens, elogios e até troféus dados ao presidente por CEOs da alta tecnologia. Ainda assim, mesmo tendo havido ruptura formal, a tecnologia da Anthropic fez parte do arsenal americano neste ataque ao Irã. Em quê? Ainda não sabemos.

A guerra em quatro pensamentos, por Thomas Friedman

O Estado de S. Paulo

A queda do regime iraniano contribuiria para colocar o Oriente Médio em uma trajetória mais decente e inclusiva, mas não será fácil derrubá-lo

Devemos lembrar das ameaças à democracia e ao estado de direito de Trump e Netanyahu em seus países

Queda do regime melhoraria o Oriente Médio, mas não será fácil derrubá-lo.

Para pensar com clareza sobre guerras no Oriente Médio, é preciso raciocinar com vários cenários em mente. Falamos de uma região complexa e caleidoscópica, onde religião, petróleo, políticas tribais e políticas de grandes potências se entrelaçam. Se você busca uma narrativa maniqueísta, talvez seja melhor consultar outras fontes. Eis meus quatro pensamentos sobre Irã – ao menos até hoje.

Lula, um olho lá, outro cá, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O que é mais explosivo para Lula, as bombas contra o Irã ou contra o Lulinha?

A guerra dos EUA e de Israel contra o Irã se espalha pelo Oriente Médio, impacta as bolsas ao redor do mundo, chacoalha o preço do petróleo e, por óbvio, é um problemaço para o Brasil e para o presidente Lula. A principal preocupação de Lula no ano eleitoral, porém, não é essa. E qual seria?

O interditor, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Esqueça o debate jurídico sobre a forma como Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilos da empresa de Dias Toffoli pela CPI do Crime Organizado. Discuti-la sob os valores e as leis da República significaria legitimar o que só pode ser compreendido como movimento autoritário – reação abusiva de poder – contra a imposição-exposição da verdade. A verdade é que o decano interveio – foi chamado e resolveu – porque a cousa avançava descontroladamente sobre os trânsitos e outros tráfegos dos ministros-empresários do STF pela rede-laranjal do Master.

Entrevista: Lula e a família tradicional: é possível conquistar o voto conservador?

Por Amado Mundo/Matinal (GO)

Socióloga e vereadora de Goiânia pelo PSB, Aava Santiago, que é cristã pentecostal, critica relação da esquerda com religiosos e diz que eleitor evangélico está cansado do histrionismo de Malafaia e da ostentação de André Valadão

O Palácio do Planalto traçou uma linha clara para as próximas eleições: não é possível governar o Brasil de 2026 ignorando que o “valor família” é o amálgama que une brasileiros independentemente da vertente ideológica. Desde as eleições de 2022, o governo de Lula tem operado uma diplomacia silenciosa para reduzir os índices de rejeição de evangélicos e conservadores ao seu nome, utilizando reuniões estratégicas, diálogo direto com lideranças e a interlocução com nomes que transitam bem no meio religioso.

No entanto, a comunicação governamental segue enfrentando o desafio das “guerras culturais”. O recente desfile da Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente no carnaval do Sambódromo do Rio, tornou-se combustível para a oposição com a ala “Família em Conserva”, uma crítica aos conservadores, mais alinhados à direita.

No Irã, celebrar é uma coisa, esperar por milagres é outra, por João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

Esperança é terreno movediço demais para começar uma guerra

Caos, endurecimento do regime e guerra civil também estão no cardápio

Penso nos meus alunos iranianos, passados e presentes, quando olho para essa guerra. Que jovens admiráveis!

Deixaram o país que amavam porque a repressão era imensa. As moças, então, comeram o pão que o Diabo amassou. Se você acha que o patriarcado é um problema sério no Ocidente, experimente uma temporada no Irã, onde nem os cabelos estão a salvo.

Mas não são apenas os iranianos que sofrem nas mãos do regime. Desde 1979, Teerã se converteu em um dos principais financiadores do terrorismo internacional —Hamas, Hezbollah, houthis, milícias xiitas no Iraque; a lista é longa. E as suas vítimas se estendem pelos quatro cantos do mundo —do Líbano à Argentina, de Tel Aviv ao Mar Vermelho.

Se o regime cair sob as bombas americanas e israelenses, serei o último a derramar uma lágrima pela teocracia dos aiatolás. A pergunta, porém, é outra: será que vai cair?

A última conversa, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Trump tenta reproduzir no Irã fórmula usada na Venezuela

País persa coloca cenário muito mais incerto e desafiador

A psicologia infantil é uma ferramenta útil para entender Donald Trump. Uma de suas características marcantes, conhecidas já desde o primeiro mandato, é que ele com frequência se deixa convencer pela última pessoa com a qual conversou. Nos tempos em que ainda havia assessores republicanos adultos tentando contê-lo, a ordem era nunca deixar que integrantes do Team Crazy (turma dos malucos) fossem os últimos a sair do salão oval.

Presidenciáveis do PSD enfrentam risco de perder comando de seus estados para o bolsonarismo, por Raphael Di Cunto

Folha de S. Paulo

Governadores Ratinho Jr. e Eduardo Leite têm dificuldades para emplacar sucessores

Caiado ainda negocia aliança com o PL, mas tem o cenário mais confortável dos três

Os governadores Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, e Ratinho Júnior, do Paraná, enfrentam dificuldades com o bolsonarismo em seus estados e correm o risco de perder o comando local para a direita após ensaiarem candidaturas presidenciais. O impasse tem sido levado em conta nos planos nacionais de ambos, segundo aliados.

Dos três presidenciáveis do PSD, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, é o que tem a situação mais confortável na eleição regional. Seu vice, Daniel Vilela (MDB), já figura em pesquisas como primeiro em intenção de votos e tem como principal adversário o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), que perdeu força após ser citado na Operação Lava Jato.

Lula tropeça e abre espaço para o adversário, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A conferir se as pesquisas registram uma tendência ou só captaram um momento ruim para o governo

Seja como for, presidente perdeu a aura de imbatível e deve a isso à ação do ego inflado, seu pior inimigo

Aguardemos as próximas pesquisas para conferir se as primeiras depois do desastroso Carnaval apontaram uma tendência ou se apenas captaram um mau momento para o governo.

Seja como for, um dado é inquestionável: Luiz Inácio da Silva (PT) perdeu a aura de imbatível e pode perder o lugar de favorito habitualmente reservado aos ocupantes do poder. Escrita quebrada na derrota de Jair Bolsonaro, em 2022, e sinal de que o instituto da reeleição não tem taxa de sucesso garantido.

O elo da política com o crime organizado no Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Segundo a PF, Rodrigo Bacellar capturou o governo para proteger Comando Vermelho

Ex-presidente da Alerj fez nomeações em batalhões da Polícia Militar e delegacias

O que fez e ainda faz Cláudio Castro no Palácio Guanabara? A julgar pelo relatório da Polícia Federal sobre a conduta e influência criminosas de Rodrigo Bacellar, o ex-presidente da Assembleia Legislativa que transformou o Rio de Janeiro num posto avançado do Comando Vermelho, Castro exercia uma função subalterna no esquema político-miliciano de captura das instituições. Governador de fancaria, era o serviçal da família Bolsonaro e a marionete nas mãos de Bacellar.

A força dos mitos, por Ivan Alves Filho

Os mitos são resistentes. Durante a ditadura militar, alguns setores se valiam da expressão capitalismo selvagem com o objetivo de denunciar a política econômica em curso então no país. A fórmula tinha um efeito propagandístico - e só. Pois ela carecia de base mais sólida: afinal, ela deixava supor que poderia existir algo como um capitalismo civilizado. As diferenças existentes entre diversas práticas no interior da ordem capitalista passavam para a linha de frente das análises, o adjetivo selvagem escamoteando o substantivo capitalista.

Poesia | Morte na madrugada, de Vinicius de Moraes

 

Música | Vanessa Ortiz Quarteto - Castigo (Dolores Duran)