O Globo
Não dá para falar de esporte sem falar em
desempenho físico, e é por isso que o sexo biológico importa na discussão
Em 2021, na Olimpíada de Tóquio, a halterofilista neozelandesa Laurel Hubbard acabou sem medalhas, mas recebeu honras de estrela por ser a primeira mulher trans a participar do torneio. Na entrevista coletiva com as levantadoras de peso que subiram ao pódio — a chinesa Li Wenwen, medalha de ouro; a britânica Emily Campbell, prata; e a americana Sarah Robles, bronze —, um repórter americano pediu-lhes para dizer como se sentiam naquela “noite histórica” em que uma atleta trans estreava numa Olimpíada, e na modalidade delas. Nenhuma das três abriu a boca. Nove segundos de silêncio depois, Sarah tomou um gole de água, pegou o microfone e disse “Não, obrigada”. A frase viralizou nas redes sociais como um meme aplicável a situações em que se dá uma resposta polida para evitar o preço de proferir uma sincera.
Estudos recentes mostraram que atletas
nascidas com sexo masculino mantêm vantagens físicas permanentes sobre mulheres
biológicas mesmo depois da transição de gênero. Em outras palavras:
bloqueadores hormonais não apagam totalmente os rastros da natureza, sobretudo
se ministrados depois da puberdade, caso de Hubbard. Com base nesses estudos, o
Comitê Olímpico Internacional prometeu anunciar nos próximos meses novas regras
para a participação de atletas trans no torneio. Kirsty Coventry, ex-nadadora olímpica
que assumiu a liderança do COI em 2025, tem defendido que as novas normas
priorizem a “proteção da categoria feminina” — a seu ver, prejudicada nas
competições com adversárias trans. É uma constatação que chega com atraso
olímpico, dado que a vantagem competitiva de atletas nascidas homens sobre
mulheres biológicas é, em muitos casos, observável a olho nu.
O exemplo mais gritante, fora das Olimpíadas,
é a nadadora americana trans Lia Thomas, que, de 554ª colocada quando competia
numa liga masculina de nado livre, virou sensação do esporte ao passar a
competir no circuito feminino universitário pela Universidade da Pensilvânia. A
Pensilvânia não tem leis estaduais proibindo a entrada de mulheres trans em
times femininos, ao contrário de outros 25 estados americanos — quadro que pode
mudar dependendo da decisão da Suprema Corte, que voltou ao tema na última
terça-feira. Celebrada como primeira mulher trans a conquistar um título no
principal circuito do esporte universitário dos Estados Unidos, Thomas começou
sua transição aos 20 anos — a maior parte do seu desenvolvimento físico se deu
como homem.
Da mesma forma, no Brasil, a jogadora de
vôlei Tifanny Abreu iniciou sua transição aos 28 anos — até essa fase, jogava
em quadras masculinas. Tiffany — desde o ano passado, primeira mulher trans
campeã da Superliga, com o Osasco — é, para simpatizantes e ativistas da causa
trans, um ícone de superação, exemplo de resiliência e da “luta contra a
transfobia no esporte”. O fato de só ter batido recordes e conquistado
relevância depois que começou a jogar em quadras femininas não vem ao caso — e
mencioná-lo é interpretado como mais pura expressão de transfobia.
Mas não dá para falar de esporte sem falar em
desempenho físico — e é por isso que o sexo biológico importa na discussão. Nem
terraplanistas de gênero negam as razões por que existem as categorias
esportivas masculina e feminina. Pela mesma lógica, separar mulheres trans de
atletas do sexo feminino não é “projeto de apagamento social”, mas uma questão
a debater no terreno da fisiologia do desempenho — as diferenças corporais que
pesam no resultado. Transformar o assunto em disputa ideológica é a melhor
forma de empurrar o problema para longe da solução: evitar que atletas do sexo
feminino sejam obrigadas não só a competir com rivais detentoras de vantagens
intransponíveis, como ainda achar isso bonito.

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