CartaCapital
As semelhanças entre os projetos de Trump e
do nazismo estão cada vez mais evidentes
O imperial-totalitarismo de Donald Trump exprime um
fenômeno social, apresentado por muitos na mídia como perversidade individual.
Não faltam opiniões e análises que privilegiam a personalidade do presidente
dos EUA e desconsideram as condições sociopolíticas e econômicas que levaram à
emergência do Narciso-Fascismo.
Sigmund Freud, em Mal-Estar da Civilização (1930), desvendou as relações sujeito-objeto em todas as sociedades civilizadas: “Nosso sentimento atual do eu é apenas um resto comprimido de um sentimento de maior abrangência – sim, um sentimento abrangente a que corresponde uma ligação mais íntima do eu com o mundo à sua volta”.
Peter Gay, um dos biógrafos de Freud, incita
os pensadores da sociedade a considerar as relações entre biografia individual
e cultura na sociedade de massa: “Os estudiosos da sociedade, sem excluir os
escritores imaginativos, têm certamente sabido há bastante tempo que, em
grupos, os indivíduos podem retornar a estados primitivos da mente, sujeitar a
sua vontade a líderes, desconsiderar restrições e o ceticismo sensível que a
educação cultivou neles tão dolorosamente”.
Na Dialética do Esclarecimento (1947), Max
Horkheimer e Theodor W. Adorno espantam-se diante da disposição enigmática das
massas tecnologicamente educadas a deixar-se dominar pelo fascínio de um
despotismo qualquer.
O Narciso-Fascismo esgueirou-se pelos labirintos
da história do século XX. Nos anos 30, Adolf Hitler foi um protótipo do
autoritarismo narcisista. Assim como Trump, Hitler exerceu o poder político sob
a égide de um personalismo doentio e entregou o controle do Estado às grandes
empresas.
Aqui cabe a reprodução de um excerto do
artigo já publicado em CartaCapital sobre o recrutamento dos grandes
industriais alemães pela liderança nazista: “Reunidos por Hermann Goering no
Reichstag, os grandes empresários ouviram o chanceler Adolf Hitler. Disse o führer:
há que acabar com um regime fraco de Weimar, afastar a ameaça comunista,
eliminar sindicatos e permitir que cada empresário fosse o führer de sua
própria empresa. O discurso durou meia hora. Quando Hitler terminou, Gustav
Krupp levantou-se, deu um passo à frente e, em nome de todos os presentes,
agradeceu-lhe por ter finalmente esclarecido a situação política. O chanceler
deu uma volta rápida em torno da mesa quando saiu. Eles o parabenizaram
cortesmente”.
“A opinião convencional e conservadora insiste
em afirmar a ‘estatização’ da economia alemã na era nazista. Alguém mais
atilado poderia argumentar que, na verdade, ocorreu uma brutal privatização da
política econômica alemã. Malgrado as diferenças históricas, são inequívocas as
semelhanças de inspiração entre o programa de Trump e as políticas econômicas
dos regimes nazifascistas dos anos 30 do século XX.”
As semelhanças abrangem a proclamação
agressiva da primazia do interesse nacional (Make America Great Again). Na
busca obsessiva pelo poderio imperial, Trump, à semelhança de Hitler, promoveu
a privatização do Estado, ocupado diretamente por um comitê de grupos
empresariais. Na era nazista, a gestão da economia foi exercida despoticamente
pelo estatal-privatismo. A onipresença dos poderosos das big techs e das
finanças no gabinete de Trump mimetiza o poder da Siemens e da Krupp na
política econômica do III Reich.
O sociólogo francês Emmanuel Todd publicou
recentemente no The Guardian considerações sobre os percalços dos anos 1930,
com o propósito de estabelecer semelhanças entre Hitler e Trump. “A degeneração da democracia
norte-americana parece nos levar de volta à República de Weimar alemã. Trump,
por meio de seu prazer com a violência e as mentiras, por meio do exercício do
mal, nos leva irresistivelmente de volta a Hitler. Na Europa, o surgimento de
movimentos categorizados como extrema-direita nos obriga a olhar para trás,
para nossa história.”
Também nos anos 30 do século passado, em sua
Mensagem ao Congresso, em 29 de abril de 1938, Franklin Delano Roosevelt lançou
duras críticas à privatização do Estado norte-americano. Afirmou que “a
liberdade de uma democracia não é segura se o povo tolerar o crescimento do
poder privado a ponto de ele se tornar mais forte do que o próprio Estado
democrático. Isso, em sua essência, é fascismo – posse do governo por um
indivíduo, por um grupo ou por qualquer outro poder privado controlador”.
Mais tarde, Roosevelt expressou um medo mais
urgente: “Arrisco a afirmação desafiadora de que, se a democracia americana
deixar de avançar como uma força viva, buscando, dia e noite, por meios
pacíficos, melhorar a situação de nossos cidadãos, o fascismo crescerá em força
em nossa terra”. •
Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital,
em 21 de janeiro de 2026.

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