domingo, 15 de fevereiro de 2026

Corpo como arte, por Dorrit Harazim

O Globo

Patinadores olímpicos podem ser vistos como híbridos de atleta e esteta; sua carne, testemunho da beleza da disciplina

Merece quase comiseração o trio de juízes de patinação artística no gelo que, de ofício, precisam se concentrar exclusivamente, com absoluta atenção, no desempenho técnico de cada competidor. Mesmo os outros nove árbitros que pontuam os elementos artísticos de uma apresentação, portanto também atrelados a um código de regras, não têm a liberdade de se deixar enlevar. Em contrapartida, o espectador pode se deixar transportar sem culpa e vivenciar júbilo sensorial raro.

Esta coluna foi escrita antes das finais individuais da modalidade nestes Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina. Portanto, não pretende prever medalhistas nem tentar compreender os impossíveis sete Axel quádruplos do duende americano Ilia Malinin. Pretende-se, apenas, fazer uma pausa para a liberdade — a rara liberdade de apreciar o belo.

Na patinação artística, o mais antigo dos esportes dos Jogos de Inverno, o corpo humano se transforma em escultura — escultura em movimento sobre um tapete branco deslizante. Suas cinco disciplinas (individuais masculina e feminina, pares, dança no gelo, por equipes) seduzem. São impulsionadas em giros e saltos que evocam o sublime e desafiam a tirania da gravidade em busca do voo, anseio primordial humano gravado em mitos e na literatura.

No cerne da patinação artística, o físico do(a) atleta se transforma em obra cinética. O corpo, aqui, não é mero recipiente, mas meio. Na modalidade do esporte em que os elementos obrigatórios cedem à expressão livre, os patinadores empregam a linguagem do balé clássico adaptada a lâminas que gravam caligrafia no gelo. A forma esguia de uma patinadora arqueada em um giro Biellmann evoca as figuras alongadas de Modigliani. Patinadores masculinos incorporam proezas hipermasculinas fundidas à vulnerabilidade e tenerezza. O francês de origem chinesa e mauritana Adam Siao Him Fa (segundo colocado na prova individual curta) foi tonitruante a bordo de seu costado quase renascentista, os músculos ondulando em rebelião controlada. No fundo, patinadores olímpicos podem ser vistos como híbridos de atleta e esteta; sua carne, testemunho da beleza da disciplina.

Que o diga Malinin, primeiro e único do mundo a conseguir executar em competição o salto mais difícil da modalidade — o Axel quádruplo. A manobra exige fazer 4,5 rotações no ar em menos de um segundo (0,7s), em contraste com os outros quádruplos, que demandam “apenas” 4 rotações. Elas chegam a atingir 1.400 por minuto e o atleta parece estar sendo flechado aos céus. Diferente dos demais saltos que começam de costas, o Axel tem decolagem frontal e aterrissagem de costas, elevando o risco de perda de eixo. Biomecanicamente, esse salto empurra os limites humanos. É necessário alcançar uma velocidade de lançamento acima de 32 km/h, comprimir o corpo no ar para conservar o momento angular e manter o equilíbrio espacial sob força centrífuga extrema. O pouso absorve até oito vezes do peso corporal do atleta.

Pois bem, no programa curto de quinta-feira, Malinin fez não um, mas sete desses Axels ao som selvagem de “Náttúra”, da islandesa Björk. E ainda deu uma cambalhota de costas como se estivesse descalço na areia, e não de patins com lâminas assassinas em superfície deslizante. Executou tudo isso em harmonia com os acordes irrequietos da composição que, apropriadamente no caso, começa com o som de um trovão. Na sexta, para surpresa de todos, dois tombos e uma série de erros fizeram com que terminasse a competição em oitavo lugar.

Nenhum elemento une a arte da patinação mais intimamente que sua simbiose com a música, em que corpo e partitura se entrelaçam. O atleta não apenas executa sua apresentação ao som por ele escolhido —incorpora-a. A música eleva o corpo além do atletismo, à poesia.

Mesmo quando a fluidez do patinador é interrompida por uma queda brusca — sim, elas também ocorrem entre campeoníssimos —, o deslize no gelo aparenta ser menos brutal que o tombo com pés no chão da ginástica artística. Nos dois casos, a perda na pontuação tem dimensão fatal. Mas, para o espectador da patinação no gelo, a fissura na magia inicial dói menos — até porque, nesse nível do esporte, o atleta se reergue como uma fênix. Em última análise, a patinação revela o corpo não como prisão, mas como portal de liberdade e arte. E oportunidade para esquecer o noticiário de um mundo cada vez mais feio. Para isso, pode até fazer dobradinha com o carnaval.

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