Folha de S. Paulo
Depois de relatório da PF sobre Toffoli,
acordão se torna mais organizado e explícito
PF já pescou mais políticos e rastreia
transações, dizem senadores que querem fogo no circo
Um acordão eficiente depende da segurança dos
elos da cadeia que constitui o arranjo. Se alguém cai, o acerto de garantias
implícitas de proteção corre risco. Pode haver tiros dentro da sala de
coordenação do pacto ou um salve-se quem puder (Lava Jato).
Trata-se aqui, claro, do arranjo para proteger suspeitos ou envolvidos no Master. O relatório da Polícia Federal que especificou pelo menos uma das relações de Dias Toffoli com a turma do Master incentivou um movimento de organização maior do acordo, em especial entre parte do Senado e parte do Supremo.
Se a PF acertou em Toffoli, quem
mais já pegou? Se vasculhou telefones e computadores de Daniel Vorcaro,
o que mais achou? Senadores que querem levar a história adiante dizem que há
citações de políticos amigos do Master e que já começou o rastreamento de
transações entre essas figuras e a turma do ex-banqueiro.
A atuação da PF pode levar a crise para o
governo. Parte do STF e a cúpula
do Congresso acreditam que o governo
Lula usa a polícia, que estaria mancomunada com a Receita, com fins
políticos. Não há evidências de tal ação nem isso parece fazer muito sentido,
pois gente do governo e amiga era próxima de Vorcaro (o que não quer dizer,
necessariamente, rolo). Outro telhado de vidro é a CPI
do INSS.
Para o acordão funcionar, nenhuma figura
importante do acerto pode ser abatida por revelação grave ou, menos ainda, por
prisão. No limite, o risco é de delação. Mesmo que não se chegue a esse
extremo, ora improvável, a figura abatida pode retaliar ex-aliados.
O
acordão, muita vez tácito ou secreto, torna-se explícito. Um líder da
bancada do Master, o senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas,
ex-ministro de Jair Bolsonaro, e Antônio Rueda, presidente do União Brasil, ex-chefe
do PSL bolsonarista, publicaram nota em defesa de Dias Toffoli. Parte da
direita se articula com parte do Supremo. O bolsonarismo ainda quer cabeças do
STF, impeachment, dominar o Senado em 2027 e preparar outra degradação da
democracia.
Parte do Supremo quer dar um tranco na PF,
como ficou mais claro pelos vazamentos
da reunião em que Dias Toffoli foi saído. A cúpula do Senado e pelo
menos metade dos senadores vão se aliando a parte do STF. Davi
Alcolumbre (UB-AP) não apenas corre risco de ser lanhado no caso do
fundo de previdência dos servidores do Amapá, que botou dinheiro no Master e
era comandado por gente do senador. Quer evitar que o desarranjo do Master
afete alianças eleitorais, cargos e repartição de emendas, "business as
usual". Não é interesse apenas de Alcolumbre.
Parte minoritária do Senado, liderada por
Renan Calheiros (MDB-AL), quer botar fogo
no circo do acordão, até porque assim também (mas não só) pretende atingir
inimigos regionais, como Arthur Lira (PP-AL), que não tem citações públicas no
caso Master, até agora.
Incógnita grande, até para os envolvidos,
é André
Mendonça, ministro do STF, ao menos um dia bolsonarista,
"terrivelmente evangélico", relator do rolo do INSS e agora também do
caso Master. Pode querer se firmar como juiz isento, "técnico",
"sereno". Pode querer assentar seu poder político. Vai passar parte
do caso para instâncias inferiores? Continua o climão entre Mendonça e a cúpula
do Senado, que dificultou a nomeação dele para o STF? De repente, pode se
tornar ameaça ou cola para os elos do acordão.
No mais, o país assiste ao show do acordão,
bestificado e refém.
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