O Globo
PT alega que o desfile da Acadêmicos de
Niterói foi uma iniciativa independente da escola
O PT alega que o desfile da Acadêmicos de
Niterói foi uma iniciativa independente da escola e que o governo não deveria
ser responsabilizado por ela. Pode ser que o argumento funcione juridicamente,
mas, com certeza, não funciona politicamente. Politicamente, o desfile foi um
equívoco tão grande que põe em dúvida o profissionalismo da campanha do
presidente Lula à reeleição.
Montar um enredo contando a trajetória de Lula não é errado em si. A biografia do presidente é épica e propícia para um enredo de escola de samba. O problema é que o desfile se deu em ano eleitoral, e a Acadêmicos de Niterói recebeu recursos públicos.
Quando a escola decidiu usar a trajetória de
Lula como enredo, é difícil imaginar que o presidente não tenha sido
consultado. Ao concordar com o desfile, Lula se tornou corresponsável por ele,
politicamente falando. O PT disse em nota que “a concepção, desenvolvimento e execução
do desfile ocorreram de forma autônoma pela agremiação carnavalesca, sem
participação, financiamento, coordenação ou qualquer ingerência do Partido dos
Trabalhadores ou do presidente Lula” —, mas esqueceu que isso não tem valor
político.
A atitude profissional teria sido a
coordenação da campanha supervisionar a construção do desfile e atuar sobre os
temas sensíveis. Se isso não fosse possível, por respeito à autonomia artística
da escola, a saída então teria sido convencê-la a mudar de tema.
A Acadêmicos de Niterói soltou nota dizendo
que houve tentativa de interferência, com pedidos de mudança de enredo e
questionamentos sobre a letra do samba por parte de “gestores do carnaval
carioca”. Se a interferência por parte da Liga Independente das Escolas de Samba
foi indevida, uma interferência da campanha de Lula teria sido devida — e
necessária. Não se trata de cercear a liberdade artística, mas de reconhecer
que campanhas eleitorais precisam avaliar riscos políticos antes de autorizar
uma associação tão direta.
Além disso, a escola deveria ter sido
informada de que não poderia receber recursos públicos, principalmente
federais. Mas recebeu R$ 1 milhão da Embratur, R$ 2,5 milhões do governo do
Rio, R$ 2,15 milhões da Prefeitura do Rio e R$ 4 milhões da Prefeitura de
Niterói. Nenhum desses recursos foi exclusivo para a Acadêmicos de Niterói, mas
nem por isso deixam de ser recursos públicos empregados num enredo que elogia
um presidente candidato a reeleição. Não é muito ético — e talvez viole a lei
eleitoral.
Como se os erros cometidos não bastassem, o
desfile continha ainda uma ala chamada “Neoconservadores em conserva”, que
pretendia criticar os grupos conservadores, mas parecia criticar a família.
Como diz o programa da escola, a “fantasia traz uma lata de conserva, com uma
defesa da dita família tradicional, formada exclusivamente por um homem, uma
mulher e os filhos”. Há anos o PT tenta argumentar que não se opõe à família
enquanto instituição e que a crítica de alguns setores progressistas é na
verdade uma defesa de famílias mais inclusivas. Não foi isso que a foto de uma
família com pai, mãe e filhos numa lata pareceu dizer. Foi descuidado por parte
da escola e por parte da campanha de Lula.
Além disso, essa mesma ala ainda incluía
alusões a grupos que, segundo a escola, “levantavam a bandeira do
neoconservadorismo”: o agronegócio, a classe alta, os defensores da ditadura
militar e os evangélicos. Elencar agronegócio e evangélicos como opositores de
Lula foi um dos maiores equívocos que poderiam ser cometidos numa pré-campanha
eleitoral. Os evangélicos são 27% da população brasileira e sete em cada dez
brasileiros têm visão positiva do agronegócio.
No final, o desfile acumulou erros éticos,
jurídicos e políticos. A defesa do governo de que foi responsabilidade exclusiva
da escola pode até prosperar juridicamente, mas não o salvará politicamente.
Não víamos um erro político dessa magnitude desde quando Eduardo Bolsonaro
resolveu apoiar as tarifas de Donald Trump aos produtos brasileiros.

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