sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Encrenca gratuita, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Sem nada a ganhar, Lula se colocou sob risco ao participar de bajulação carnavalesca

Parte dos riscos se materializou e petista não entra muito bem nesta Quaresma

Achei boa a piada das famílias em conserva que constou do desfile da Acadêmicos de Niterói, que homenageou Lula neste Carnaval. Recorrendo a uma espécie de trocadilho (conservador/conserva), os idealizadores da alegoria conseguiram traduzir um conceito complexo (famílias conservadoras) em uma imagem (lata de conserva), o que é um pequeno feito semiótico. Mas não creio que o governo esteja agora vendo muita graça no desfile.

Escrevi aqui há poucos dias que Lula corria riscos ao se associar, ainda que de modo contido, à bajulação. Parte do que tinha para dar errado já deu. É pouco provável que o episódio tenha rendido um único voto para o petista e não há dúvida de que o enredo, a piada em particular, irritou grupos demográficos que ele gostaria de atrair. Penso aqui nos evangélicos, mas não só. Numa camada extra de ironia, a Acadêmicos de Niterói ainda foi rebaixada.

Não vamos, porém, hiperdimensionar o episódio. Ainda faltam oito meses para a eleição. Em outubro, poucos se lembrarão da Acadêmicos ou das famílias em conserva. Lula pode até ter reforçado sua rejeição em determinados grupos, mas são estratos que dificilmente adeririam à sua candidatura.

Há ainda a frente da Justiça Eleitoral. O PT talvez até venha a ser condenado por propaganda eleitoral antecipada, mas isso só renderia uma multa que seria paga com dinheiro público. Existe, é verdade, a possibilidade de condenação por abuso de poder, que pode gerar inelegibilidade, mas ela me parece remota. Mesmo assim, é ruim para o presidente colocar-se de graça nas mãos dos ministros do TSE. Vai que no dia do julgamento todos acordam de mau humor.

Acho que o caso serve como um "cautionary tale" para Lula e seu entorno. O pleito deste ano tende a ser difícil, com um leve favoritismo para o presidente. Mas, se o petista estiver disposto a perder a eleição, é só repetir o enredo deste Carnaval. Por vaidade pessoal e sem perspectiva de ganhos reais, ele se pôs em situação de risco e viu parte desses riscos se materializar.

 

 

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