Ação nos EUA abre caminho para redes sociais mais seguras
Por O Globo
Ao impor limites a Meta e YouTube, Justiça
inspirará parâmetros para uso por menores no mundo todo
Diante do Tribunal Superior de Los Angeles, Mark Zuckerberg — CEO da Meta, dona das maiores redes sociais do mundo — viu-se obrigado a defender as plataformas digitais num processo em que não faltam evidências de como elas manipulam algoritmos para manter adolescentes presos às telas de computador e celular. Está em julgamento a responsabilidade por distúrbios de comportamento em jovens dependentes. A autora da ação, hoje com 20 anos, acusa Meta e YouTube por ter desenvolvido ansiedade, depressão e uma visão distorcida da própria aparência, o Transtorno Dismórfico Corporal. Deverão sair do processo subsídios para os parâmetros de uso por menores de idade — e não apenas nos Estados Unidos.
Não está em discussão se as plataformas
digitais oferecem perigo a crianças e adolescentes. Essa fase foi superada. No
livro “A geração ansiosa”, de 2024, o psicólogo social americano Jonathan Haidt
traz evidências da associação entre a popularização dos smartphones e das redes
sociais e a crise na saúde mental de jovens. De acordo com suas pesquisas, os
meninos costumam ser afetados por se isolar imersos em jogos eletrônicos,
enquanto as meninas são atingidas ao buscar nas redes uma imagem física e
social ideal. O resultado é depressão, ansiedade, insônia e problemas de
autoestima. As denúncias contra as plataformas digitais, não só da Meta e não
apenas nos Estados Unidos, têm amplo lastro científico.
Também não é a primeira vez que Zuckerberg é
chamado a se explicar sobre danos a jovens e crianças. Em 2024, convocado a
audiência no Congresso, foi forçado a pedir desculpas a famílias que atribuem
às redes sociais a morte de seus filhos. A Meta é processada em pelo menos 41
dos 50 estados americanos por manipular algoritmos para viciar adolescentes. No
Novo México, a Procuradoria-Geral chega a acusá-la de permitir que predadores
sexuais procurem crianças por meio de suas redes. Em depoimento prestado antes
de Zuckerberg, um diretor do Instagram não convenceu ao tentar explicar por que
deixara de proibir filtros de beleza, simulando cirurgias plásticas.
Ao depor, Zuckerberg lamentou que a Meta
tivesse levado tanto tempo para identificar — e banir — menores de 13 anos do
Instagram. “Gostaria que tivéssemos feito isso antes”, afirmou. Nas palavras
dele, “é muito difícil” cumprir o requisito, pois muitos mentem sobre a idade e
há “sensibilidade” à questão por razões de privacidade. Por fim, mencionou
“ferramentas proativas” criadas pela Meta para identificar e fechar contas que
descumprem regras. Ora, é inverossímil que Zuckerberg não saiba o que se passa
nas suas redes. As evidências expostas no julgamento sugerem que seu objetivo
sempre foi o oposto do que declarou. Documentos internos da Meta de 2015,
revelados por uma ex-funcionária, alertavam sobre a queda no uso por
adolescentes e mostravam executivos determinando estratégias para atraí-los. Um
memorando de Zuckerberg traçava a meta de “aumentar o tempo gasto em 12%”. Como
fazer isso sem criar dependência?
Processos como o de Los Angeles são uma
reação natural da sociedade em defesa da saúde mental da população. A principal
questão, já há algum tempo, é punir os responsáveis e aperfeiçoar a regulação.
Estabelecido que a Meta pretendeu viciar adolescentes nas redes, é preciso
haver punição e a garantia de que isso não se repetirá. Autoridades brasileiras
devem ficar atentas.
Quebra de patentes de canetas emagrecedoras é
oportunismo eleitoral
Por O Globo
Movimento crescente na Câmara não tem
justificativa plausível, desestimula inovação e afugenta investimentos
Está contaminado por oportunismo eleitoral o
movimento que ganha força na Câmara para quebrar a patente dos
medicamentos Mounjaro e
Zepbound, usados no tratamento de diabetes e obesidade.
Além de não haver justificativa plausível para a iniciativa, ela tem tudo para
criar atritos com a indústria farmacêutica, inibir investimentos em pesquisa,
levar insegurança jurídica ao setor e expor o país a retaliações. Não há dúvida
de que o Brasil teria mais a perder que a ganhar.
No início do mês, o plenário da Câmara
aprovou urgência para analisar o Projeto de Lei do deputado Mário Heringer
(PDT-MG) para quebrar a patente. Com isso, ele pode ser votado a qualquer
momento sem passar por comissões. Heringer argumenta que a obesidade é um
problema grave de saúde pública e que os preços altos impedem o acesso (uma
caixa de Mounjaro com quatro canetas custa de R$ 1,4 mil a R$ 3 mil). “É um
medicamento elitizado, e queremos transformá-lo numa ferramenta de saúde
pública”, disse.
Pela legislação brasileira, novos
medicamentos são protegidos por até 20 anos a partir do pedido de registro no
Instituto Nacional de Propriedade Industrial — a patente do Mounjaro vai até
2036. É justo que a farmacêutica responsável pelo custo de descoberta e
desenvolvimento possa ter exclusividade na venda por um período determinado. A
americana Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, afirma que “o enfraquecimento das
proteções de propriedade intelectual tornará o Brasil menos atraente para
futuros investimentos em inovação”.
A quebra de patente pode ser justificável,
mas é fato extremamente raro. Em três décadas desde a criação da lei
brasileira, ocorreu uma única vez, em 2007, com o medicamento Efavirenz, usado
por pacientes com HIV. Tratava-se de situação específica. Ele era oferecido na
rede pública, e a permissão para fabricação na Fiocruz proporcionou economia.
Em 2021, em plena pandemia, aprovou-se quebra da patente de vacinas e remédios,
mas os próprios laboratórios incentivaram um acordo.
É verdade que a obesidade é um problema grave
de saúde pública. Entre 2006 e 2024, cresceu 118% e hoje atinge um em cada
quatro adultos no Brasil. Mas não se trata de situação de emergência ou
calamidade que justifique quebrar a patente de um medicamento. Até porque não
há desabastecimento no mercado, e há produtos similares. As canetas
emagrecedoras ainda são caras e, ao menos por enquanto, não há perspectiva de
que sejam oferecidas pelo SUS. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, diz que,
em relação ao Mounjaro, seguirá a Organização Mundial da Saúde. “Neste momento,
não existe esse debate lá”, afirmou.
Se está realmente preocupado com o avanço da obesidade no país, o Congresso faria melhor em apoiar políticas públicas que, desde cedo, melhorassem a alimentação dos brasileiros, incentivando produtos saudáveis em detrimento dos ultraprocessados. Apostar em batalhas de fundo eleitoreiro certamente não resolverá o problema e criará outros, afugentando indústrias e investimentos do país.
Transparência é remédio urgente na crise do
caso Master
Por Folha de S. Paulo
Sigilo de relatório do TCU sobre inspeção no
Banco Central gera desconfiança por sua anormalidade
Episódio é mais um na longa lista de
comportamentos inusuais, inclusive no STF, em prol da instituição controlada
por Daniel Vorcaro
Uma boa regra de bolso para autoridades que
lidam com escândalos bilionários consiste em seguir à risca as normas
existentes e dar máxima transparência aos atos executados. A lógica é simples:
pontos fora da curva merecerão questionamentos legítimos e demandarão
justificativas fundamentadas.
O ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de
Contas da União (TCU),
parece desconhecer por completo esse preceito da prática administrativa —ou,
então, tem motivos de sobra para aceitar o espesso véu da desconfiança que
agora lhe cobre a silhueta.
É que Jhonatan, por moto próprio, insiste em
destacar seu nome na lista de pessoas que, de forma direta ou oblíqua, adotaram
comportamentos pouco corriqueiros em prol do Banco Master.
Trata-se de uma façanha digna de nota, pois é longa e densa a trilha de
episódios suspeitos favoráveis à instituição financeira.
Da injeção de recursos do BRB (controlado
pelo Distrito Federal) até recentes revelações envolvendo Daniel
Vorcaro, um resort de luxo no Paraná e o ministro Dias Toffoli,
do Supremo Tribunal Federal, tudo foge ao figurino.
E, ainda assim, Jhonatan consegue chamar a
atenção. No começo de
janeiro, ele determinou uma inspeção no Banco Central (BC)
para apurar possíveis falhas de supervisão no caso Master. A medida, além de
minar os poderes da autoridade monetária, insinuava a possibilidade de reverter
a liquidação da instituição.
Agora, em fevereiro, ele colocou
sob sigilo o relatório elaborado pela área técnica do TCU após
inspeção no BC. Sua ordem foi tal que nem a autoridade monetária nem membros do
tribunal de contas podem acessar os autos.
Consta que o relatório ora secreto não faz
ressalvas ao processo de liquidação do Master, mas, diante do movimento
inusitado de Jhonatan, integrantes do Banco Central manifestaram preocupação.
Eles argumentam, e é difícil negar-lhes razão, que a falta de transparência
pode abrir espaço para manobras do ministro.
Em nota, Jhonatan sustentou que impôs
classificação de confidencialidade com o objetivo de evitar vazamentos,
inclusive de informações registradas como sigilosas pelo próprio BC.
Ele também afirmou que o procedimento não é
inédito e acrescentou: "O TCU esclarece que o Banco Central terá acesso a
todas as peças processuais sempre que necessário, não havendo qualquer prejuízo
ao órgão".
Antes fosse um cenário simplório como essa
nota procura fazer crer. Mas não; segundo apurações jornalísticas, a medida
tomada por Jhonatan é extrema e inusual —mais uma, portanto, a atingir a imagem
de um importante órgão de controle brasileiro.
É difícil que o STF e o
TCU saiam da crise do mesmo tamanho que entraram. Agentes de boa-fé, contudo,
ainda podem usar a transparência como remédio para danos provocados. O ministro
Jhonatan de Jesus que mostre de que lado está: o do interesse público ou o dos
interesses escusos.
Mais debate sobre igualdade racial na Câmara
Por Folha de S. Paulo
Pesquisa mostra divisão entre deputados sobre
o tema, que tem engajamento só levemente positivo na Casa
Numa escala que vai de -10 (engajamento que
prejudica a igualdade racial) a +10 (favorável à pauta), a média na Câmara foi
de +0,58
Pesquisa do
Instituto Peregum, em parceria com a Fundação Tide Setubal, o
Observatório do Legislativo Brasileiro e pesquisadores da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro (Uerj), traçou um panorama sobre como a pauta da
igualdade racial é tratada na Câmara.
Como esperado, deputados se dividem na
abordagem, mas o tema ao menos aparece razoavelmente resguardado na Casa.
O escopo do estudo é amplo. Foram analisadas
mais de 37 mil ações dos parlamentares relacionadas à pauta que surgiram ou
tiveram repercussão na atual legislatura, que teve início em 2023 e será
concluída em 2027.
As quatro categorias de ações analisadas
foram organizadas de modo hierárquico em relação ao peso que teriam na
atribuição da nota final de cada deputado: parecer, emenda, voto e discurso em
plenário. Políticas de igualdade racial foram divididas em subtemas, como ações afirmativas,
combate ao racismo,
segurança pública, renda,
entre outros.
Assim, a pesquisa desenvolveu um algoritmo
que classificou os parlamentares numa escala que vai de -10 (engajamento que
prejudica a igualdade racial) a +10 (engajamento favorável ao tema), como apoio
a ações afirmativas.
Aqui, é possível fazer uma ressalva quanto ao
aspecto qualitativo do estudo. Afinal, nem sempre a visão contrária a uma ação
afirmativa prejudica a igualdade racial; pode apenas
indicar o juízo de que não seria uma política pública adequada ou
eficaz para lidar com o problema.
Há pesquisadores brasileiros que combatem o
racismo mas são críticos a cotas raciais em universidades e bancas de
heteroidentificação, por exemplo.
Na média, os 571 parlamentares que estão ou
passaram pela Câmara na atual legislatura alcançaram a
posição +0,58 na escala do indicador, caracterizando uma abordagem
levemente positiva sobre tema —o que pode ser considerado até surpreendente
num Congresso
Nacional de maioria conservadora. A divisão claramente é
ideológica.
Partidos de esquerda (PT, PCdoB, PSOL e PSB) atuam mais
para promover equidade racial; enquanto os de direita, sobretudo PL e Novo, concentram
os parlamentares com menor índice de engajamento na pauta.
Novos parlamentares, em especial mulheres e negros, ainda segundo o estudo, estão mais relacionados a projetos de combate à desigualdade racial. O que sugere que a diversidade é benéfica para o debate de políticas públicas no Legislativo, em especial aquelas que tentam sanar o flagelo histórico do racismo no país.
Reduzir jornada requer prudência
Por O Estado de S. Paulo
Ante o impacto da redução da jornada de
trabalho na economia, só mesmo conveniências político-eleitorais explicam a
pressa do governo Lula e do Congresso em aprová-la ainda neste ano
O impasse entre o governo Lula e o Congresso
Nacional em relação à redução da jornada de trabalho evidencia a necessidade de
debater o tema com mais comedimento. A meses da disputa eleitoral, não há a
menor condição de discutir uma proposta dessa natureza com a profundidade que
ela merece, sopesando os profundos impactos de uma mudança como essa na
economia brasileira e em setores como a indústria e o agronegócio.
De um lado está o presidente da Câmara, Hugo
Motta (Republicanos-PB), que apensou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC)
da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) a outra PEC, de autoria de Reginaldo Lopes
(PT-MG), apresentada em 2019. Ambas tratam da redução da jornada de trabalho
das atuais 44 horas para 36 horas semanais, mas a primeira entraria em vigor
360 dias após a promulgação, enquanto a segunda estabelece um prazo de dez anos
para que isso ocorra. A proposta, segundo Motta, pode ser votada já em maio
deste ano.
O governo, por sua vez, prefere enviar um
Projeto de Lei Complementar (PLP) com urgência constitucional para tratar do
assunto, regime que acelera a tramitação do texto e tranca a pauta de votações
na Câmara caso ele não seja apreciado em 45 dias. O projeto diminui a jornada
para 40 horas semanais, conta com o apoio das centrais sindicais e é mais fácil
de ser aprovado, pois precisa de maioria simples, enquanto uma PEC exige
maioria qualificada e dois turnos de votação.
As divergências expressam mais uma disputa
pela paternidade da benesse do que uma preocupação com as consequências da
medida. É óbvio que todo trabalhador gostaria de trabalhar menos sem ter perda
salarial. A questão é saber se o setor privado tem condições de arcar com isso.
E uma reportagem publicada pelo Estadão deixa
claro que essa conta não fecha assim tão facilmente.
Um estudo da Confederação Nacional da
Indústria (CNI) estima que o custo do emprego formal aumentaria 25,1%, ou R$
178,8 bilhões, caso a jornada de trabalho fosse reduzida para 36 horas
semanais. A medida resultaria em redução na produção, perda de produtividade,
retração econômica, dificuldade de adaptação para micro e pequenas empresas,
elevação da inflação e, por óbvio, aumento da informalidade.
Mesmo o agronegócio, que, diferentemente da
indústria de transformação, teve aumento da produtividade nos últimos 30 anos,
projeta um aumento no custo da mão de obra de até 25% e um risco de perda de
vagas de 1% a 2%. Não se trata de catastrofismo, mas de realidade. Basta
observar experiências internacionais para saber que a redução da jornada de trabalho
não leva à criação de mais empregos formais.
É até esperado que o ministro do Trabalho e
Emprego, Luiz Marinho, menospreze os riscos à economia, tendo em vista seu
histórico como sindicalista, mas é inaceitável que o ministro da Fazenda,
Fernando Haddad, corrobore essa visão ingênua. Talvez somente a vontade de
deixar a pasta o quanto antes e assumir a coordenação da campanha à reeleição
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva explique o fato de Haddad ter dito que
a redução da jornada não teria impacto fiscal, como se a queda do emprego
formal e a redução da atividade produtiva não diminuísse a arrecadação de
impostos nem aumentasse os gastos com o seguro-desemprego.
Procurada pela reportagem, a Fazenda
recomendou a leitura de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea) segundo o qual a redução da jornada aumentaria o custo do valor horário
do trabalho em 7,14% a 15,32%, índice que poderia ser absorvido pelas empresas
sem grande impacto na economia. Mas o mesmo estudo reconhece que 79,7% dos
trabalhadores formais cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais. Os
próprios autores, no entanto, têm a humildade de reconhecer que suas conclusões
não esgotam o debate e que avanços futuros dependem “de aprofundamento
analítico e de novas investigações”.
Com a economia em desaceleração, desemprego
em níveis historicamente baixos e inflação ainda acima da meta, tudo o que o
governo e o Congresso deveriam ter era prudência, e não pressa em fazer essa
discussão. Só mesmo conveniências políticas explicam tanta urgência.
Rombo estatal fora do Orçamento
Por O Estado de S. Paulo
Com exclusão de déficit dos Correios, o
governo Lula amplia o leque de excepcionalidades orçamentárias em 2026 e atinge
um novo patamar na arte de maquiar as contas públicas
Depois de normalizar a retirada dos mais
variados gastos federais do balanço orçamentário para vender a ilusão de ter
acomodado o resultado fiscal aos limites do arcabouço, o governo de Luiz Inácio
Lula da Silva chega a outro patamar em matéria de manobra e projeta que neste
ano o déficit das estatais seja de apenas R$ 1,07 bilhão. Para quem pergunta
como isso será possível diante da previsão do próprio decreto da Lei de
Diretrizes Orçamentárias (LDO) de déficit primário de R$ 9,1 bilhões apenas com
os Correios, a resposta é simples: basta excluir o rombo do cálculo.
Um dia depois de apresentar a LDO, o governo
retificou dados e deixou claro que, sem a exclusão de grande parte dos
déficits, a estimativa de rombo das estatais para 2026 seria de R$ 15,3 bilhões.
E, assim, a gestão lulopetista inaugura uma nova fase de sua habitual farsa
fiscal: além de deixar de fora boa parte dos gastos federais, agora esconde o
saldo negativo de estatais ineficientes.
A manobra foi desenhada em dezembro de 2025,
com uma medida incluída no projeto da LDO deste ano, aprovada pelo Congresso,
que abriu caminho para retirar até R$ 10 bilhões em despesas do Programa de
Dispêndios Globais destinadas a estatais com plano de reequilíbrio
econômico-financeiro. Parece – e foi – feita sob medida para os Correios, que,
atolados na pior crise de sua história, apresentaram um mês antes um plano de
reestruturação para se habilitar a um empréstimo bancário de R$ 12 bilhões,
garantido pelo Tesouro Nacional.
A empresa já recebeu R$ 10 bilhões, cifra
semelhante ao que o Congresso permitiu que fosse retirado das despesas
destinadas às estatais. Mesmo assim, a direção dos Correios reforça que irá
precisar de, ao menos, mais R$ 8 bilhões para tocar uma reestruturação cercada
de incertezas diante do gigantesco rombo acumulado pela estatal.
Na LDO o governo projetou déficit de R$ 8,2
bilhões para 2026, mas recalibrou depois de um documento da própria estatal
revelar a expectativa de chegar a dezembro com saldo negativo de R$ 9,1
bilhões. A lista de revisões governamentais, aliás, merece destaque pela enorme
diferença nos valores dos resultados das estatais. Alguns exemplos: o déficit
da Emgepron cai de R$ 17,79 bilhões para R$ 3,1 bilhões; Hemobrás, de R$ 8,59
bilhões para R$ 967 milhões; Infraero, de R$ 4,36 bilhões para R$ 655 milhões;
e Serpro, de déficit de R$ 3,56 bilhões para superávit de R$ 285 milhões.
O próprio déficit primário total das estatais
foi revisto de R$ 11,07 bilhões para R$ 15,3 bilhões, resultado que exigiria do
Executivo uma compensação no orçamento fiscal, com redução do espaço para
gastos públicos. Isso, claro, sem os expurgos que fizeram o rombo cair para
pouco mais de R$ 1 bilhão. A “mágica” resolveu o que se tornaria um grande
problema para Lula, um notório gastador de dinheiro público. E, como sempre, a
opção pelo corte de gastos foi substituída por um “puxadinho” nas contas
públicas.
De exceção em exceção, o governo cria um rol
de excepcionalidades com potencial para mascarar em mais de uma centena de
bilhões de reais o rombo deixado pelo terceiro mandato de Lula. Embora diga
estar cumprindo a meta fiscal, o petista, em nome de seu projeto expansionista,
tem abusado de artifícios para gastar sem registrar.
Assim tem feito em programas de distribuição
de renda, investimento do PAC, ajuda emergencial a Estados e municípios,
precatórios, gastos em saúde e educação com uso do Fundo Social, despesas com
Defesa e com ressarcimento às vítimas de fraudes no INSS, entre outras.
A prática tem produzido fantasias como a de
2025, ano em que, com o resultado formal de déficit de 0,1% do Produto Interno
Bruto (PIB), o governo diz ter cumprido oficialmente a meta do arcabouço, que
previa margem de 0,25% do PIB para déficit. Ocorre que, sem os providenciais
expurgos da engenharia contábil do governo, o saldo real foi déficit de 0,48%
do PIB, quase o dobro do fixado pelas regras fiscais. Uma pérola do ilusionismo
fiscal que o governo se esmera em lapidar em 2026, ano de eleições
presidenciais.
Inflação em queda é vitória do BC
Por O Estado de S. Paulo
Lula pode tentar surfar na onda, mas controle
dos preços se deve à política monetária
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor
Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação, tende a chegar, em meados deste
ano, a seu nível mais próximo do centro da meta inflacionária de 3% para o
acumulado em 12 meses, informou recente reportagem do Estadão com base em
estimativas do mercado financeiro. Especialistas ouvidos consideram a tendência
consistente e concordam que pode servir à exploração eleitoral, embora as
opiniões se dividam sobre o peso que a economia terá na campanha.
De fato, o monitoramento do Banco Central
(BC), que traça o paralelo entre a meta de inflação ao longo do tempo e o IPCA
efetivamente registrado, lista também as tendências futuras no horizonte de um
ano, captadas pelo boletim Focus,
e mostra a inflação ao redor de 3,3% de março a julho deste ano. O mais próximo
que o IPCA chegou da meta de 3%, em vigor desde janeiro de 2024, foi em abril
daquele ano, com 3,69% – e por pouco tempo, já que no mês seguinte voltou a se
aproximar dos 4%, numa escalada que levou a taxa aos 5,53% em abril de 2025.
Durante todo esse período, o Banco Central
resistiu à pressão incessante do Planalto e do PT para afrouxar a política
monetária, enfrentamento que foi ainda mais intenso nos dois primeiros anos do
mandato de Lula da Silva, quando o banco ainda era presidido pelo indicado da
gestão anterior, como manda a lei da autonomia. Foi a austeridade do BC que
criou as condições para a atual expectativa de queda consistente da inflação,
apesar da política de gastos crescentes do governo.
Mas, por óbvio, não será a imagem que o
lulopetismo irá explorar na campanha eleitoral. Por certo, deve tentar surfar
uma onda que não escalou, mas que não restem dúvidas: a busca pelo controle da
inflação está sendo um esforço solitário do Banco Central.
Diante do alívio do cenário, o Comitê de
Política Monetária (Copom) adiantou que pretende iniciar na reunião de março o
ciclo de queda da taxa básica de juros, hoje em exorbitantes 15% ao ano. Mas
fez questão de reafirmar “o firme compromisso” de trazer a inflação à meta. Há
quem considere a meta de inflação irreal, mas, como o próprio presidente do BC,
Gabriel Galípolo, declarou, o debate mais importante é sobre por que o País tem
dificuldade de fazer a inflação convergir para a meta mesmo com juros tão
altos.
Este jornal, mais uma vez, defende que a
política fiscal tem de acompanhar o esforço da política monetária. Por mais restritivos
que sejam os juros, a linha econômica do lulopetismo é incompatível com o
controle inflacionário. Ao irrigar a economia com recursos públicos, com
incentivo ao crédito, subvenções em série e simultâneos programas de
distribuição de renda, Lula ao mesmo tempo fragiliza as contas do governo, que
gasta muito mais do que arrecada, e gira o motor do consumo além do que a
produção nacional é capaz de sustentar.
O quadro mais tranquilo da inflação neste início de 2026 ainda embute riscos e, como destaca o economista André Braz, da FGV, é preciso entender o que está por trás dos preços, como eles se formam e quais forças estão em jogo a cada momento.
Trump prepara ataque ao Irã se não houver
acordo nuclear
Por Valor Econômico
É difícil vislumbrar um acerto entre Irã e
EUA que seja satisfatório para ambos
EUA e Irã vêm avançando penosamente num tenso
processo de negociação sobre os programas militares iranianos, enquanto
Washington deslocou ao Oriente Médio seu maior poderio bélico desde a invasão
do Iraque, em 2003. O presidente Donald Trump disse que “coisas ruins vão
acontecer” se o regime do aiatolá Ali Khamenei não fizer um acordo sobre seu
programa nuclear e que “não haverá paz na região se o Irã tiver armas nucleares”.
Também disse que os próximos 10 ou 15 dias decidirão se os EUA farão ataque ou
acordo. O governo americano estimulou manifestações contra a ditadura dos
aiatolás, que foram brutalmente reprimidas, deixando milhares de mortos.
O interesse principal de Trump não está na
mudança do regime nem na instalação de um governo democrático em Teerã.
Washington tem prioridades nas negociações em andamento: que os iranianos
desistam dos seus programas nuclear e de mísseis e que parem de armar grupos e
milícias pelo Oriente Médio. Os programas de armas são considerados uma ameaça
existencial por Israel e preocupam a Arábia Saudita, os dois principais aliados
dos EUA na região. E, ao armar grupos em vários países, como Líbano e Síria, o
Irã acaba ampliando a instabilidade política numa parte do mundo já complexa e
conturbada.
O premiê israelense, Benyamin Netanyahu,
esteve na semana passada em Washington justamente para tentar convencer Trump a
jogar ainda mais duro com Teerã. Caso as negociações não avancem, Netanyahu
defende um novo ataque ao Irã, possivelmente conjunto, para completar o serviço
iniciado em junho passado, quando os dois países atacaram instalações nucleares
e militares iranianas.
Trump buscou ativamente fomentar os maiores
protestos contra o regime iraniano desde a Revolução Islâmica, em 1979. O
secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que Washington deliberadamente
causou escassez de divisas no país, o que fez o dólar disparar. Esse
estrangulamento cambial foi conseguido por meio de sanções, que dificultaram a
venda do petróleo iraniano, e do bloqueio mais rígido contra o país no sistema
financeiro mundial. O resultado foi desabastecimento, forte alta da inflação e
o empobrecimento da população. Isso culminou nas manifestações que começaram no
fim de dezembro.
É difícil vislumbrar um acordo entre Irã e
EUA que seja satisfatório para ambos. Trump, em princípio, quer o fim do
enriquecimento de urânio por Teerã, ao qual tinha direito por um acerto feito
em 2015 com o governo de Barack Obama, em conjunto com os da Alemanha, Rússia,
França, Reino Unido e China. Trump alegou que o Irã não estava fazendo sua
parte e desfez o acordo em 2018. Além disso, o presidente americano quer conter
o arsenal de mísseis balísticos do país e que ele pare de financiar grupos
terroristas como o Hamas e o Hezbollah.
Teerã não aceita essas condições e diz que
sua relação com grupos armados na região ou seu programa militar não estão na
mesa de negociações, apenas a questão nuclear. Complexo e difícil, um
entendimento sobre ela poderia dar a Trump motivos para alegar vitória e ao
regime dos aiatolás, uma saída que não a rendição. Uma reedição do acordo de
2015, com limites para a quantidade de urânio enriquecido e para o nível de
pureza, a um grau distante do necessário para confecção de artefatos nucleares,
mais inspeções internacionais periódicas, seria em tese aceitável para o Irã,
mas Trump quer mais.
A ameaça do uso da força para pressionar o
Irã poderá se transformar em realidade, caso a diplomacia fracasse. Quando um
regime está disposto a chacinar a própria população para se manter no poder,
como no caso do Irã, é improvável que ocorra uma troca de governo sem algum
tipo de intervenção externa. Como Trump não tem interesse em gastar dinheiro e
mandar tropas para aventuras no exterior, a troca de regime provavelmente é uma
opção secundária.
O objetivo primário é forçar o governo atual
a cooperar com os interesses americanos. É o que os EUA estão tentando fazer na
Venezuela. Só que o Irã não é a Venezuela. Rússia e China não se moveram para
defender o incômodo aliado Nicolás Maduro. A ditadura chavista era conveniente,
mas não estratégica para Moscou e Pequim. Já manter um governo favorável num
país-chave no Oriente Médio e importante produtor de petróleo é relevante tanto
para Vladimir Putin - a Rússia fez na terça-feira manobras navais conjuntas com
o Irã -, como para Xi Jinping.
O governo iraniano parece acreditar firmemente que a segurança do regime depende de o país estar fortemente armado, incluindo ogivas nucleares, e buscará arrastar ao máximo as negociações. É um jogo perigoso. Trump poderá recorrer aos bombardeios seletivos de instalações nucleares e militares, como fez em julho. Não resolveria o impasse e abriria caminho para reações imprevisíveis do Irã que extrapolariam suas fronteiras. O preço do petróleo subiu 6% em dois dias, com a cotação do Brent perto de US$ 72 o barril. O Irã é o segundo maior produtor do cartel da Opep, atrás da Arábia Saudita. Em dois dias, o barril do tipo Brent subiu 6%, para perto de US$ 72 o barril, e a chance de um conflito aberto incendiaria no curto prazo as cotações.
O futuro do trabalho no mundo pós-IA
Por Correio Braziliense
Uma sociedade estruturada em torno de uma
maioria ociosa por falta de oportunidades é o terreno perfeito para a
desestabilização democrática e para a ruptura institucional
Durante os sucessivos ciclos de revolução
industrial, a promessa do avanço tecnológico sempre veio acompanhada de uma
premissa: as máquinas assumiriam o peso do trabalho braçal e repetitivo,
liberando a humanidade para o exercício de suas capacidades mais nobres: o pensamento,
a filosofia, a arte e a inovação.
Por isso, não deixa de ser irônico que o
avanço da inteligência artificial (IA) sobre o trabalho se dê justamente nas
áreas mais envolvidas com as artes, a criatividade e a cognição. Setores que
até ontem se julgavam blindados pela barreira da "subjetividade
humana" — como o cinema, a produção audiovisual, o design e a programação
de softwares — estão sendo engolidos em uma velocidade atordoante. E não são os
únicos.
O drama do mundo pós-IA não reside, porém,
apenas na perda imediata de postos de trabalho, mas na impossibilidade
matemática de realocação dessa mão de obra. Nas revoluções anteriores, o
trabalhador que perdia o emprego no campo migrava para a fábrica, e o operário
substituído pelo robô encontrava abrigo no setor de serviços. Agora, a engrenagem
é diferente.
Pela primeira vez na história moderna, a
inovação tecnológica corre o risco de destruir muito mais empregos do que é
capaz de criar. Para onde migrarão os milhões de profissionais que serão
substituídos pela IA se a própria demanda por trabalho intelectual está
encolhendo? A dura matemática indica que não haverá transição de carreiras
simplesmente porque existirão, em termos absolutos, muito menos empregos
disponíveis.
O que se projeta no horizonte de curto prazo
é a concretização do cenário alertado pelo historiador Yuval Harari, autor do
livro Sapiens: o surgimento de uma imensa "classe inútil", um
contingente de bilhões de pessoas que, diferentemente do proletariado explorado
do século 19, sequer será necessário para girar a roda da economia. Na
definição de Harari, são pessoas que não serão apenas desempregadas, não serão
empregáveis. Trata-se de uma massa de cidadãos que, a despeito de sua formação
acadêmica ou experiência, não conseguirá se realocar no mercado
tradicional.
Esse vácuo produtivo não é apenas uma
tragédia individual, mas uma bomba-relógio para o próprio sistema capitalista,
que depende do emprego para gerar renda, e da renda para sustentar o consumo.
Mais do que isso: o trabalho, nas sociedades modernas, é o alicerce da dignidade
e da identidade social. Uma sociedade estruturada em torno de uma maioria
ociosa por falta de oportunidades é o terreno perfeito para a desestabilização
democrática e para a ruptura institucional.
Para países em desenvolvimento, como o
Brasil, o cenário é ainda mais dramático. Na condição de coadjuvante dessa
revolução, corremos o risco de absorver todo o choque do desemprego estrutural
sem termos a capacidade jurisdicional de tributar ou controlar as big techs
estrangeiras que concentrarão essa nova e monumental riqueza.
É imperativo, portanto, que os formuladores
de políticas públicas, o empresariado e a sociedade civil abandonem o estado de
deslumbramento tecnológico e encarem a gestão dessa crise com a gravidade que
ela exige. Os debates sobre taxação de algoritmos, redução drástica de jornadas
(para distribuir melhor o trabalho restante) e a implementação de uma renda
básica universal precisam sair dos simpósios acadêmicos e entrar nas pautas
legislativas.
O mundo pós-IA já não é uma ficção especulativa. É a realidade batendo à porta dos estúdios, das agências e dos polos de tecnologia. Priorizar a construção de uma rede de proteção social para os que serão inevitavelmente deixados para trás por essa revolução não é apenas uma questão de empatia ou justiça social; é o único caminho para evitar que o maior feito tecnológico da humanidade se transforme em seu maior desastre humanitário.
Ceará tem redução de crimes no Carnaval
Por O Povo (CE)
O essencial agora é identificar as razões que
levaram a essa queda na violência, de modo que não torne apenas uma estatística
pontual
O balanço de questões relativas à segurança
pública, durante o período carnavalesco, trouxe uma notícia importante para os
cearenses. Segundo dados divulgados pelo governo do Estado, o Carnaval de 2026
foi o menos violento em 17 anos.
A série começou em 2009 para levantar o
número de crimes cometidos no Ceará durante o período da maior manifestação
popular no País. Entre 18 horas de sexta-feira e 6 horas desta quarta-feira,
houve redução em todos os crimes, em comparação com o ano passado, marca
relevante, apesar de os números ainda serem muito altos.
Durante o período, foram registradas 24
mortes violentas, redução de 33% em relação ao período anterior, com 36
homicídios. Também foi registrada redução nos roubos (58,57%), nos furtos
(39,65%), em crimes sexuais (59%).
Houve ainda menos roubos e furtos de
aparelhos celulares, com queda de 62,18% e 32,1%, respectivamente. Além disso,
este ano foram registrados seis acidentes fatais nas rodovias estaduais, ante
17 mortes no período antecedente, redução de 65%.
É fato que esse declínio no número de crimes
ainda não atende às expectativas de uma sociedade que precisa de políticas de
segurança pública mais eficazes. No entanto, é preciso reconhecer que a queda
nos crimes mostra que o caminho a ser seguido é o da prevenção e da
inteligência.
Segundo o titular da Secretaria da Segurança
Pública e Defesa Social (SSPDS), Roberto Sá, a área de inteligência dispunha de
135 cargos em 2025, passando para 791 este ano. Ele disse que as informações
foram fundamentais para o planejamento das ações, permitindo “antever”
episódios que poderiam se tornar violentos para determinar medidas preventivas.
Sá atribui a redução dos crimes ao uso das
informações da inteligência, ao planejamento e aos mais de nove mil agentes de
segurança distribuídos em cerca de 100 dos 184 municípios cearenses. Ele
rejeita o questionamento de que a redução de crimes tenha acontecido por uma
suposta “pacificação” promovida por uma organização criminosa.
O essencial agora é identificar as razões que
levaram a essa queda de crimes, de modo que não represente apenas uma
estatística pontual. E a partir disso, tornar a política de inteligência e
prevenção uma prática permanente de segurança pública.
Seria razoável também que a oposição
compreendesse que a questão da segurança pública é complexa e precisa da
unidade de todas as forças políticas para que o combate à violência seja
efetivo. Por óbvio não se pede que a oposição abandone o seu papel de
questionar o governo, mas o debate sobre a segurança deveria evitar questões
eleitoreiras.
A mesma advertência vale para o governo, que deve estar disposto a ouvir os diversos setores da sociedade, sem nenhum tipo de exclusão na abordagem do assunto, respeitando as propostas de cada segmento Enquanto não houver um consenso mínimo em torno do assunto, será difícil combater o crime com efetividade.

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