quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Um escritor diferente, por Ivan Alves Filho

De origem operária, criado por uma antiga escrava (na verdade sua mãe adotiva), ele cresceu em uma fazendinha na Califórnia e aos dez anos de idade vendia jornais pelas ruas de uma cidade norte-americana. Seis anos depois, adquire um barco, chegando a conhecer o Japão como marinheiro. E se tornou pescador de ostras. Nessa condição, chegou a assaltar uma embarcação, pilotada por pescadores chineses, apontando um revólver para eles, pois precisava de uma vela nova para o seu barco. Em seguida, ele também foi roubado e acabou tendo que vender seu barco - ou o que sobrou dele. 

E foi fazer de tudo um pouco para sobreviver: trabalhou como operário em uma fábrica de conservas, labutou em lavanderias, foi cortador de grama, lavador de tapetes e de vidraças. Segundo ele, aquilo “fazia parte do jogo” e era preciso ganhar a vida. Mas revoltou-se ao ver crianças de seis anos de idade trabalhando 12 horas por dia nas usinas. O capitalismo não estava para brincadeiras. Tornou-se eletricista, indo trabalhar em uma fábrica, porém sentiu-se demasiadamente explorado e largou o serviço. Optou por ser vagabundo, perambulando e deslocando-se por várias cidades dos Estados Unidos. “Suei sangue e água nos cortiços e nas prisões”, escreveu mais tarde. A tortura então era moeda corrente nas cadeias. 

Percebeu, desde muito cedo, que o trabalho, fosse ele muscular ou cerebral. E preferiu mergulhar nos livros, passando a entender, cientificamente, segundo ele, o que já havia aprendido na prática como trabalhador braçal. Foi aí que se fez socialista, integrando grupos de operários e intelectuais, interessados em mudar a ordem social. Teve até oportunidade de frequentar os salões elegantes, mas não se deixou iludir. Como ele mesmo dizia, seu lugar era junto à classe operária. 

Valendo-se de sua experiência como marinheiro, escreveu Tufão nas costas do Japão, recebendo um prêmio literário. Aos 21 anos de idade, integrou a chamada Corrida do Ouro de Klondike. Na volta para a Califórnia, com a saúde debilitada, decidiu se dedicar à Literatura e seu primeiro grande sucesso foi Caninos Brancos. Logo depois, publicou O chamado selvagem. Outros livros se seguiram, fazendo dele um dos autores emblemáticos do século XX.

Publicou reportagens formidáveis sobre a guerra russo-japonesa e a revolução mexicana. É bem verdade que por vezes se deixou levar pelas ideias darwinistas aplicadas (ou mal aplicadas) à realidade social, relativas à “luta pela vida” ou à sobrevivência do mais forte. Daí ter flertado, durante um determinado momento, com as ideias colonialistas, mudando sua perspectiva após suas viagens pelo Pacífico. 

Casou-se duas vezes e era muito ligado aos filhos. Morava então em uma propriedade rural, onde encontrou a paz para escrever, dedicando-se a experimentos que hoje denominamos de ecológicos. 

Jack London morreu aos 40 anos de idade, mas deixou seu nome na história da Literatura.

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