quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Alcolumbre, o fenômeno, por Malu Gaspar

O Globo

Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) é um prodígio. Na política desde os 23 anos, assumiu a presidência do Senado Federal pela primeira vez aos 41, em 2019, e foi eleito para um segundo mandato no comando do Congresso em 2025 por maioria acachapante. No cargo, administra a distribuição de quase R$ 6 bilhões destinados a emendas de senadores. Indicou para o governo Lula 3.0 um ministro só dele: Waldez Góes, da Integração e do Desenvolvimento Regional, que, embora do PDT, está na cota de seu partido, o União — coisas do Brasil. Mas o maior talento de Alcolumbre é abafar os escândalos que envolvem seu nome.

Não têm sido poucos. Praticamente um por ano desde outubro de 2021, quando a revista Veja mostrou que seu gabinete operava um esquema de rachadinha que arrecadou R$ 2 milhões em cinco anos, coordenado por um assessor parlamentar. Diante da revelação, Alcolumbre negou tudo e acusou a imprensa e os adversários políticos de tentar intimidá-lo.

Meses depois, em 2022, o assessor, Paulo Boudens, fechou um acordo com o Ministério Público e se comprometeu a devolver o dinheiro. Alcolumbre foi excluído do processo, mesmo assim o acordo passou pela chefia da Procuradoria-Geral da República (PGR), que por lei deveria atuar apenas em casos de autoridades com foro privilegiado.

O procurador-geral da época era Augusto Aras, grato a Alcolumbre pela força na recondução do cargo, num momento em que ele estava debaixo de chumbo grosso pela leniência com Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19.

O presidente do Senado entrou na mira de novo em 2024, quando a PF desbaratou um esquema de desvio de emendas na operação Overclean.

Mensagens trocadas entre os investigados sugeriam que sua chefe de gabinete, Ana Paula Magalhães, os ajudara a destravar R$ 14 milhões no ministério de Waldez Góes no último dia de 2023. Alcolumbre, porém, matou no peito: “Confio plenamente nela e reajo com indignação à tentativa de relacionarem seu nome a qualquer ilegalidade”.

O inquérito continua, mas até agora não produziu nenhuma acusação formal contra os dois.

Em 2025, outra investigação, desta vez sobre o esquema bilionário de descontos ilegais das aposentadorias, encontrou repasses de R$ 3 milhões de uma empresa do Careca do INSS para a conta do mesmo assessor acusado de rachadinha. Alcolumbre costurou uma aliança com os lulistas para derrubar, num só pacote, a quebra de sigilo do assessor e a convocação de Frei Chico, irmão de Lula e vice-presidente de um dos sindicatos que mais desviaram recursos.

E não parou aí. Meses depois, o UOL descobriu mensagens mostrando que Beto Louco, alvo da operação sobre os elos da Faria Lima com o PCC, forneceu ao presidente do Senado canetas de Mounjaro, quando o emagrecedor só entrava no Brasil por contrabando. Alcolumbre ficou quieto e fingiu que não era com ele, mas decretou sigilo de cem anos nos registros das portarias que poderiam revelar se Beto Louco ou o Careca do INSS estiveram no Senado (e com quem).

A prioridade de Alcolumbre agora é impedir a todo custo o avanço do caso Master sobre o mundo político. Já deixou claro que, se depender dele, não haverá CPI. Na segunda-feira, tentou impedir a reunião de um grupo de trabalho que apura as fraudes, recorrendo a uma regra da época da pandemia determinando que reuniões semipresenciais dependiam de sua autorização.

Renan Calheiros (MDB-AL), que coordena o grupo, deu de ombros e fez as reuniões, mas sabe que sua capacidade de produzir novidades nessa história é limitada, porque o grupo não tem poder para quebrar sigilo.

O trator de Alcolumbre só não conseguiu ainda soterrar a investigação sobre os R$ 400 milhões que o fundo de pensão do Amapá enterrou em papéis do Banco Master. O presidente do fundo, Jocildo Lemos, foi tesoureiro de campanha do senador e não esconde ter sido indicado por ele ao posto. Gravações e documentos mostram que atropelou os alertas técnicos e ressalvas de outros conselheiros para atender ao Master. Logo depois do primeiro aporte de R$ 200 milhões, afirmou ter “tirado um peso das costas”.

Alvo de uma operação da PF na sexta-feira passada, Lemos pediu exoneração do cargo, enquanto seu celular, escritório e computadores eram examinados pelos policiais. Se o nome de Alcolumbre aparecer no material, o processo terá de ser enviado ao Supremo. Nesse caso, vai para Dias Toffoli — que, no final de 2025, entregou a ele, Alcolumbre, a guarda do sigilo do celular de Vorcaro que deveria ter sido enviado à CPI do INSS. Se der ruim no Amapá, Alcolumbre tem um aliado em Brasília. O homem é mesmo um fenômeno.

 

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