O Globo
Lula deveria ter recusado a homenagem da
Acadêmicos de Niterói, mas, ao contrário, procurando se aproveitar dela
Nunca houve uma escola de samba que elogiasse um governo em ano eleitoral. Já houve homenagens a políticos mortos, como Getúlio Vargas ou JK, e até vivos, como Lula no primeiro ano de seu primeiro mandato, mas nunca houve exploração eleitoral meses antes de uma eleição presidencial. Sabe aquela velha história de alguém que procura problemas e atravessa a rua para escorregar numa casca de banana? O próprio Lula deveria ter recusado a homenagem, mas, ao contrário, procurando se aproveitar dela. É, evidentemente, uma burla da lei, já exposta como campanha antecipada, fora da hora prevista pela legislação. Já houve muita gente sendo punida por causa disso.
O ex-presidente Bolsonaro tornou-se
inelegível devido ao abuso de poder político identificado na reunião com
embaixadores estrangeiros em que atacou as urnas eletrônicas. Como o Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) dificilmente cassa a vitória de um candidato, ainda
mais a presidente da República, a questão será resolvida antes da eleição de
outubro, podendo se transformar em obstáculo à candidatura de Lula à reeleição.
O TSE será presidido na eleição pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
Nunes Marques, que votou contra a punição a Bolsonaro considerando que a
reunião não teve capacidade de influir no resultado da eleição.
A pena para campanha fora de época pode
variar de uma simples multa até a inelegibilidade e, certamente, dependerá do
momento político. Não é bom para Lula a imagem de arrogância, além de haver o
risco adicional de manifestação antipetista em pleno Sambódromo. Ele não está
preocupado com isso porque, como já disse a ex-presidente Dilma certa ocasião,
“a gente faz o diabo para se eleger”. Alguma autoridade deveria intervir — ou a
própria Liesa deveria proibir esse tipo de comportamento de uma escola de
samba, mas já está muito em cima da hora, seria traumático. Antes, o famoso
ministro do “Vai Dar Merda”, criado por Chico Buarque, deveria ter entrado na
pista para impedir esse desfile.
O TSE poderia intervir, mas a alegação é que,
sem saber exatamente como será o desfile, haveria censura prévia. Poderia pedir
para a escola que homenageará Lula, a Acadêmicos de Niterói, mandar o roteiro
completo para análise. Pelo que já se sabe, o refrão do samba-enredo é o jingle
mais conhecido de “Olê, Olê, Olá, Lula, Lula”. Haverá referências explícitas ao
ex-presidente Bolsonaro, retratado como vampiro com Marcelo Adnet no papel, e
aos programas sociais dos governos petistas. O próprio Lula será representado
por um artista famoso ainda não revelado.
Não há nenhuma relação direta de
favorecimento entre carnaval e vitória eleitoral, embora, ao aparecer para
milhões de pessoas na transmissão do evento, o homenageado Lula será exibido
por cerca 90 minutos para o país todo. Antes mesmo de ser candidato oficial,
mas já famoso pela “caça aos marajás”, o ex-presidente Collor aproveitou o
Sambódromo para testar sua popularidade. Andou pela pista de ponta a ponta e
foi delirantemente aplaudido. Escola de samba e futebol são coisas nossas, brasileiras,
que não interferem no ânimo do eleitor de maneira direta. Presidentes foram
eleitos a despeito do sucesso ou do fracasso da seleção brasileira de futebol.
Claro que, em 1994, ao receber a seleção
tetracampeã do mundo com o presidente Itamar Franco, o candidato governista,
Fernando Henrique Cardoso, teve vantagem momentânea ao carregar a taça. Quatro
anos depois, venceu a reeleição presidencial no primeiro turno, apesar da
derrota da seleção nacional, demonstrando que foi o Plano Real, e não o futebol,
que o colocou lá. Em 2002, o pentacampeonato mundial não impediu que Lula
vencesse a eleição presidencial contra José Serra, o candidato do governo. A
Copa do Mundo no Brasil, em 2014, ao contrário, foi um momento de exposição
negativa para o governo Dilma, vaiada na inauguração da Arena Corinthians e na
final no Maracanã.

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