Folha de S. Paulo
Essa reorganização não se assemelha ao que
ocorre em outras democracias
Há importante tentativa de diferenciação da
extrema direita bolsonarista
Deslocados pelo crescimento de forças de
extrema direita, partidos de centro e da direita moderada perdem filiados e
densidade eleitoral nas democracias ocidentais.
Onde o sistema é multipartidário, os radicais criaram suas próprias legendas. Exemplos: a Frente Nacional, na França; a Alternativa para a Alemanha; o Chega, em Portugal; o Vox, na Espanha; o Partido da Liberdade, na Áustria; o Finns, na Finlândia; o Partido Popular suíço e seu homônimo dinamarquês; os Irmãos da Itália, da primeira-ministra Giorgia Meloni; enquanto quatro organizações disputam a herança do Aurora Dourada, banido da vida política na Grécia em 2020.
Ali onde o sistema eleitoral majoritário
garante o bipartidarismo, as coisas são mais difíceis, mas não impossíveis.
Enquanto o Reformar o Reino Unido, do britânico Nigel Farage, está nos
calcanhares do Partido Conservador, nos Estados Unidos, Trump e
seus seguidores, tendo se apossado do Partido Republicano, logo trataram de
desfigurá-lo.
Na Argentina, maré semelhante permitiu
a Javier Milei nadar
de braçada no espaço eleitoral do antiperonismo, enquanto no Chile, José Antonio
Kast, com seu Partido Republicano, deslocou os representantes da
direita tradicional.
Aqui no Brasil, onde o ultrafragmentado
sistema de partidos tem composição mais instável, podemos estar caminhando em
direção um pouco diferente. Depois da vitória de Bolsonaro em 2018, a extrema
direita se afirmou com força e fisionomia próprias. Porém, ao que hoje se
assiste não é a hemorragia dos partidos de direita alimentando o crescimento da
extrema direita, na sua versão bolsonarista. Ela é inegavelmente forte —nas
ruas e nas urnas—, mas sempre minoritária.
Eis que, à direita, ocorre importante
tentativa de diferenciação frente à minoria extremada. Esse é o sentido dos
recentes esforços de Gilberto
Kassab, líder do PSD, para
oferecer ao eleitorado uma alternativa conservadora pragmática.
É bom lembrar que o partido teve excelente
desempenho no último pleito municipal, superando a marca de 650 prefeituras:
conquistou ou manteve administrações em capitais e cidades médias estratégicas,
além de ampliar sua capilaridade em municípios de pequeno e médio porte,
especialmente nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste. O resultado reforçou a
posição do PSD como poderosa máquina eleitoral enraizada na base do sistema
político, fazendo prever o aumento de sua representação na Câmara em 2026.
Hoje, é relevante nas duas Casas do Congresso.
O partido de Kassab cresce principalmente à
custa do MDB e
do PSDB,
legendas que ocupavam o centro da arena política. Do primeiro tem absorvido
sobretudo quadros municipais; no segundo tem recrutado lideranças estaduais e
parlamentares federais. As manobras se beneficiam da legislação de 2017, que
estimula a redução do número de partidos.
A comemorada incorporação de três
governadores pré-candidatos à Presidência sugere a ambição de participar na
disputa nacional como alternativa ao bolsonarismo. Pode ser que isso não
ocorra; ou que, ocorrendo, não tenha êxito. De toda forma, a reorganização da
direita parece estar em curso e não se assemelha ao que ocorre em outras
democracias.

Nenhum comentário:
Postar um comentário