O Globo
Se ainda havia qualquer dúvida sobre o risco
que Daniel
Vorcaro e seu celular-bomba representam para o establishment
político brasileiro, foi sepultada ontem, com as revelações contidas na decisão
do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André
Mendonça que ordenou nova prisão do banqueiro e de três
cúmplices, entre eles um ex-policial federal e um estelionatário com larga
experiência em crimes de todo tipo.
Os parcos diálogos que já vieram à tona revelam que Vorcaro pensava e operava na lógica da Máfia. Quem não seguisse sua cartilha, fosse uma funcionária, um jornalista ou um concorrente, estava fadado a sofrer represálias.
Como todo mafioso, Vorcaro tinha um capanga,
apropriadamente apelidado “Sicário” — assassino de aluguel, na definição do
Houaiss —, remunerado com R$ 1 milhão mensais para atender a todos os desejos
do chefe. E, assim como sua conta bancária, também não tinha limites. As
mensagens que trocava com Sicário deixam claro que, se considerasse necessário,
ele não se acanharia em “moer” uma “empregada” que o ameaçava e, por tabela,
dar um “sacode” no chefe de cozinha que o servia.
Em junho de 2025, quando o jornalista Lauro
Jardim publicou uma nota contando que o Banco Central (BC)
havia descoberto irregularidades na venda de ativos do Master ao BRB, ele se
descontrolou: “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os
dentes. Num assalto”.
Seguindo o manual das máfias, o dono do Banco Master comprou
quem pôde no aparato repressivo e regulatório, dos escrivães da PF — como seu
“assessor” Marilson Roseno, preso ontem — aos chefes de supervisão do Banco
Central Paulo Sérgio Souza e Belline Santana. De acordo com a investigação, os
dois o avisavam dos movimentos internos do BC, revisavam seus documentos e
orientavam sobre o que dizer nas reuniões com a autarquia.
Mafiosamente, o dono do Master ainda mandou
invadir os sistemas internos da Polícia
Federal (PF) e do Ministério
Público Federal, por onde se informava quase em tempo real sobre o
avanço das investigações sigilosas a seu respeito. E, para “esquentar” as
informações traficadas ou promover campanhas difamatórias contra os
adversários, tinha no bolso seus próprios jornalistas, a quem também pagava
regularmente para divulgar notícias de seu interesse.
Todos esses detalhes descritos na decisão de
Mendonça e na representação ainda sigilosa da PF jogam luz sobre uma parte da
engrenagem de Vorcaro. Contudo, por mais brutal que seja o quadro já conhecido,
ainda há uma ampla zona de sombra por iluminar.
Nessa penumbra estão os reais objetivos do
contrato de R$ 130 milhões que ele firmou com a mulher do ministro Alexandre de
Moraes; ou o que os R$ 35 milhões pagos por uma fatia do resort do
ministro Dias Toffoli de
fato remuneravam; a verdadeira natureza dos serviços prestados pelos
ex-ministros de Lula Guido
Mantega e Ricardo
Lewandowski; os mecanismos pelos quais seu banco obteve acesso a
quase R$ 2 bilhões dos fundos de pensão estaduais e municipais, atropelando as
regras mais básicas da gestão de risco.
Falta saber, ainda, quantas e quais
autoridades viajaram pelo Brasil e pelo mundo
em seus aviões, beberam de seus uísques caros, desfrutaram os préstimos de
garotas de programa internacionais e receberam dinheiro disfarçado de
consultoria jurídica ou patrocínio para eventos. E, não menos importante, por
que tanta gente se fez de cega, surda e muda no mercado financeiro, dos
burocratas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM)
aos operadores da Faria Lima que empurraram os títulos do Master a clientes
incautos como se fossem ótimos negócios.
Tantas pontas soltas só comprovam que aquilo
que veio à tona até agora é apenas um aperitivo do que ainda há a desvendar. A
boa notícia — ou má, a depender do interesse do freguês — é que os mafiosos só
se mantêm calados enquanto estiverem protegidos. Quando vestiu o uniforme de
interno do sistema penitenciário paulista, ontem, Vorcaro certamente
compreendeu que os escudos usados no passado haviam se tornado definitivamente
inúteis.
Desta vez, não há juízes, senadores,
deputados ou ministros a quem ele possa recorrer. Se quiser voltar para casa ou
ao menos aliviar sua situação, ele terá de negociar o único ativo que lhe
resta: seus segredos. Sua única alternativa é romper a própria lei do silêncio
e jogar a omertà no lixo. As lições da História mostram, porém, que precisará
agir rápido, antes que outros corram na frente e entreguem seu esquema aos
pedaços. É assim que as máfias acabam, e com Vorcaro não será diferente.

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