Guerra duradoura trará maior pressão sobre a inflação
Por O Globo
Ao fechar Estreito de Ormuz, Irã impede
transporte de um quinto dos barris de petróleo exportados
Quatro em dez barris de petróleo exportados no mundo saem do Oriente Médio. Desses, pelo menos dois atravessam o Estreito de Ormuz, que separa o Golfo Pérsico do Oceano Índico. É daí que vem a ameaça de contágio da economia global pela guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Fechar Ormuz, como fizeram ontem os iranianos, é uma estratégia eficaz para infligir perdas aos inimigos. No plano de sobrevivência do regime dos aiatolás, a prioridade é mirar em refinarias e navios enquanto houver forças.
Por medo de ataques iranianos, algumas rotas
marítimas já haviam sido fechadas. Os bombardeios levaram refinarias em países
como Arábia Saudita ou Catar a interromper a produção. Não demorou para o preço
do petróleo subir. Quando ele se mantém alto por muito tempo, a pressão
inflacionária é inevitável. Mais de 90% das máquinas que se movimentam sobre
rodas, no ar ou na água em todas as partes do planeta dependem de derivados de
petróleo.
Dos 15 milhões de barris que passam por Ormuz
todo dia, 5 milhões vão para a China, 2 milhões para a Índia e 1,7 milhão para
o Japão, mesma quantidade recebida pela Coreia do Sul. Embora os Estados Unidos
sejam quase autossuficientes em energia, também são afetados, porque o preço do
petróleo é internacional. E alta da inflação é tudo o que Donald Trump não
quer daqui até as eleições de meio de mandato em novembro, ou o risco é ele
perder o controle da Câmara e do Senado.
A dúvida é quanto estrago os iranianos
causarão aos suprimentos — e até quando. Os mercados de energia cogitam dois
cenários. No mais severo, o tráfego de navios por Ormuz será fechado por um
tempo prolongado. No último mês, já com a previsão de guerra, o preço do barril
subiu 12%, para a casa de US$ 70. Nessa projeção mais negativa, o valor
ultrapassaria US$ 100. Num cenário menos catastrófico, persistirá alguma
movimentação de navios no estreito, e apenas as exportações iranianas serão
totalmente cortadas, deixando o preço do barril acima de US$ 80.
Na tentativa de reduzir o choque, o cartel
conhecido por Opep+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados)
prometeu elevar em 206 mil barris por dia a produção a partir de abril. Dos
oito países do grupo, cinco estão no Oriente Médio. Será necessário esperar
para ver se eles terão mesmo condições de produzir e escoar o excedente.
Caso importadores decidam ampliar compras de
exportadores fora da região do conflito, o Brasil pode se beneficiar. Por isso
as ações da Petrobras registraram uma das maiores altas nesta segunda-feira.
Ainda que esse cenário se confirme, será difícil a economia brasileira obter
saldo positivo da guerra. Embora a Petrobras possa controlar o preço doméstico
da gasolina e do diesel, uma alta duradoura do petróleo no mercado
internacional cedo ou tarde chegará aqui também.
Outro canal de contágio é o eventual aumento
da cotação do dólar, que exerce pressão sobre a inflação. Como resultado, o
ciclo de queda de juros que se desenha no horizonte poderá ser interrompido,
com consequência negativa sobre o crédito e a atividade econômica. Mais um
motivo para o governo encarar com seriedade o ajuste das contas públicas, de
modo a reduzir a carga que provavelmente pesará sobre o Banco Central.
Nova legislação trabalhista argentina é passo
rumo a ciclo econômico virtuoso
Por O Globo
Reforma instaura maior flexibilidade nas
contratações e nas relações entre as empresas e seus funcionários
É uma notícia auspiciosa a aprovação pelo
Congresso argentino da reforma trabalhista proposta pelo presidente Javier Milei.
Parecia feito impossível, tamanha a tradição dos sindicatos e a força do
populismo peronista entre os parlamentares argentinos. Mesmo assim, o Senado
acatou as concessões necessárias para aprovar o texto na Câmara —em especial a
derrubada de um artigo que reduzia a remuneração em caso de licença médica —, e
ele seguiu para sanção presidencial.
O objetivo da reforma, de espírito análogo à
promovida pelo governo Michel Temer no
Brasil em 2017, é reduzir o custo do emprego para as empresas, de modo a gerar
novos postos formais de trabalho. Em contraste com propostas brasileiras que
pretendem reduzir o tempo de trabalho, ela autoriza a extensão da jornada
diária de oito para 12 horas, cria banco de horas para compensação e permite
acordos com empregados por empresas ou região, reduzindo o peso das convenções
sindicais de âmbito nacional.
Como na reforma brasileira de 2017, o
“negociado” com os sindicatos passa a ter valor maior que o “legislado”,
garantindo maior flexibilidade às relações trabalhistas. A nova legislação cria
também um fundo com contribuições recolhidas sobre a folha de salários para
financiar indenizações por demissão, semelhante ao FGTS brasileiro.
Milei tem obtido maior apoio político para
mudanças antes consideradas impensáveis graças ao êxito do choque que deu na
economia. Ele enxugou a máquina pública, demitindo servidores sem proteção
legal de estabilidade, congelou novas contratações e determinou auditorias em
contratos. Logo ao assumir, editou um decreto que lhe permitiu adotar medidas
de urgência, alterou incontáveis normas e leis para destravar mercados, em
especial no comércio e no setor imobiliário. Promoveu um choque de
desregulação, agora reforçado pela nova lei trabalhista.
Os resultados têm sido auspiciosos. Antes da eleição de Milei, em 2023, a inflação anual argentina passava de 210%, e o país caminhava para mais um ciclo de hiperinflação. Em 2024, ela caiu a 31,5% e continua em trajetória declinante. Passado o primeiro efeito do choque de desregulação, a economia voltou a crescer, a pobreza diminuiu, e as contas públicas se ajustaram. No ano passado houve superávit primário de 1,4% do PIB, pondo fim aos déficits da gestão peronista. O partido de Milei, A Liberdade Avança, obteve grande bancada nas eleições legislativas de outubro de 2025. Foi o que permitiu a aprovação da reforma trabalhista. Apesar de todo o histrionismo de Milei, o país tem dado passos certos na direção de um ciclo virtuoso na economia.
Decisão de Gilmar em socorro de Toffoli é um
escárnio
Por Folha de S. Paulo
Decano do STF suspendeu quebra de sigilos da
Maridt, empresa que tem seu colega entre os sócios
Medida havia sido determinada pela CPI do
Crime Organizado; tudo se passou como se houvesse um jogo combinado para Gilmar
socorrer Toffoli
O ministro Gilmar Mendes,
do Supremo Tribunal Federal, acrescentou mais uma linha esdrúxula na trama
do banco Master,
a esta altura já repleta de relações anômalas entre Daniel
Vorcaro, controlador da instituição, e as mais diversas autoridades
públicas brasileiras.
Na sexta-feira (27), em uma manobra que
achincalha os ritos processuais, o decano da corte suspendeu
a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático da empresa Maridt,
que tem entre seus sócios o ministro Dias Toffoli.
A providência investigativa havia sido determinada dias antes pela CPI do Crime
Organizado.
Como se estivesse coberto de razão, Gilmar
vociferou em sua decisão. Classificou a quebra de sigilo como "destituída
de idoneidade por completa e absoluta ausência de fundamentação válida" e
afirmou que ela "apresenta narrativa e justificação falhas, imprecisas e
equivocadas".
Sob essa camada de retórica tempestuosa,
contudo, encontra-se pouca substância. Pode-se e deve-se, é verdade, discutir
os limites de atuação da CPI. Criada com o propósito de esquadrinhar o alcance
do crime organizado, a comissão ampliou seu escopo de modo a incluir o banco
Master.
Embora sejam convincentes os argumentos
parlamentares —é preciso esclarecer se a cúpula do Judiciário se envolveu com o
mundo do crime—, as apurações precisam respeitar as normas do Estado de
Direito. E cabe ao STF, no fim das
contas, frear eventuais ataques às garantias individuais.
Ocorre que o Supremo também deve observar
certos procedimentos, mas os ministros amiúde agem como se desconhecessem essa
regra rudimentar. Foi precisamente o que fez Gilmar.
Sua canetada favorável à empresa da família
Toffoli jamais poderia constar de um manual jurídico. Ela se deu em
um mandado de segurança de 2021, impetrado pela produtora Brasil
Paralelo no contexto da CPI da Covid. Ou seja, sem nenhuma relação com o
Master, Toffoli e a atual CPI. E pior: o processo estava arquivado.
Com a manobra, o pedido da Maridt caiu no
colo de Gilmar, dado que ele relatou o caso da Brasil Paralelo. Ou seja, tudo
se passou como se houvesse uma jogada combinada nos bastidores para o decano
socorrer Toffoli.
E não foi o único gesto recente a evidenciar
o espírito de corpo que contamina o Supremo. Na quinta-feira (26), o ministro
André Mendonça havia decidido que os irmãos de Toffoli, convocados pela CPI do
Crime Organizado, estavam dispensados de cumprir essa obrigação.
É um escárnio. Passou da hora de os membros
do STF entenderem que não estão acima das leis e que a sociedade exige
respostas satisfatórias sobre os laços pouco republicanos entre Toffoli e
Vorcaro. Não é demais lembrar que o ministro é citado em conversas no celular
do ex-banqueiro.
As iniciativas em favor de Toffoli são tantas
e tão heterodoxas que se torna inevitável perguntar o que ele está escondendo
que demanda tamanho esforço.
O anacronismo digital de Flávio Dino
Por Folha de S. Paulo
Decisão contra privatização de estatal do
Paraná ignora que há lei geral para proteger dados dos cidadãos
O argumento de Dino colide com a prática de
órgãos federais que confiam o tratamento de sua infraestrutura digital a
companhias privadas
A decisão liminar do ministro Flávio Dino,
do Supremo Tribunal Federal (STF), de suspender a
privatização da estatal paranaense de informática Celepar sob o
argumento de risco à proteção de dados, ignora a maturidade do setor público e
a dinâmica do mercado tecnológico global.
Ao travar um processo aprovado pela
Assembleia Legislativa do Paraná, a decisão gera insegurança jurídica e atende
a ação impetrada no Supremo pelo PT e o PSOL —legendas
historicamente resistentes ao enxugamento do Estado brasileiro.
O cerne da questão é que a Lei Geral de
Proteção de Dados (LGPD), de 2018, já é uma norma federal de
caráter geral. Ela obriga, com o mesmo rigor, entes públicos e privados a
seguirem padrões elevados de tratamento de informações pessoais.
O receio de que o fim do controle estatal
ameace a privacidade dos paranaenses desconsidera que a própria legislação
brasileira já prevê a custódia de dados públicos por entes privados, desde que
sob fiscalização estrita.
A Celepar —seja sob controle público ou
privado— estará vinculada aos marcos federais. Além disso, o governo do Paraná
diz ter agido preventivamente ao segregar bancos de dados sensíveis da
segurança pública em uma reserva própria, blindando informações críticas. O
PSOL, no entanto, contesta essa informação.
Há, porém, uma contradição latente: o
argumento de Dino colide com a prática da própria administração pública federal
e do Poder Judiciário, que confiam parte de sua infraestrutura de nuvem e
processamento a gigantes privadas. Isolar o Paraná dessa realidade operacional
soa como um anacronismo digital sem amparo técnico sólido.
O governador Ratinho Júnior (PSD) fundamenta
a desestatização na urgência de modernização e na preservação da saúde
financeira do estado. O temor de que a Celepar siga o
caminho de obsolescência de outras estatais é legítimo; em um
mercado de inovação, estruturas amarradas a burocracias ineficientes perdem
competitividade e tornam-se um fardo ao contribuinte.
Decisões de uma corte constitucional não
devem carregar matiz ideológica, especialmente quando proferidas por
magistrados egressos da militância partidária ativa, como é o caso de Dino, que
já esteve nos quadros do PCdoB e foi indicado ao STF pelo presidente Lula (PT), historicamente
contrário às privatizações.
O plenário do Supremo, ao analisar a decisão liminar nos próximos dias, terá a oportunidade de corrigir esse excesso.
O clamor pela moderação
Por O Estado de S. Paulo
Resistência de parte do agronegócio à
candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro expõe fadiga com a polarização e
acalenta a busca por alternativa viável entre lulopetismo e bolsonarismo
Uma parte do agronegócio está resistindo a
aderir à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da
República, informou reportagem do Estadão/Broadcast,
com base em conversas com parlamentares e representantes do setor. Apesar do
impulso recente do filho “zero um” de Jair Bolsonaro nas pesquisas, a
expectativa de alguns integrantes do agro ainda repousa sobre um nome mais
moderado da centro-direita. Originalmente visto como pilar do bolsonarismo, o
segmento parece que ainda não fechou inteiramente com o candidato bolsonarista.
Acostumado a avaliar riscos, o agro sabe que eleição não é ato de fé.
É evidente que, para esse setor, como para
qualquer um de bom senso, o importante é impedir que Luiz Inácio Lula da Silva
fique mais quatro anos no poder. Num horizonte mais amplo, porém, somente a
derrota de Lula não basta para entregar a almejada prosperidade do País,
sobretudo se o vencedor da eleição for alguém movido a revanchismo, mais
interessado em livrar o pai da cadeia e anistiar golpistas do que em conduzir o
País no caminho das reformas e da reconciliação.
O que vale para o agronegócio vale também
para todo segmento que se mostra cansado tanto dos longos anos de Lula no poder
quanto da polarização raivosa entre o bolsonarismo e o lulopetismo. Esses dois
polos turvaram o debate público, converteram adversários em inimigos e inibiram
alternativas. Hoje, segundo a Quaest, cerca de 30% dos brasileiros se dizem
independentes, não querem nem Lula nem os Bolsonaros. Há, ainda, 14%
enquadrados como esquerda não-lulista e 21% como direita não-bolsonarista. É um
contingente expressivo demais para ser ignorado. Há vida possível fora da
trincheira.
O sobrenome Bolsonaro carrega feitos, mas
também conflitos, crises institucionais e processos judiciais. Carrega,
sobretudo, um projeto que terminou em tentativa de golpe. É ilusório imaginar
que bastaria suavizar o discurso ou revestir a candidatura de racionalidade
administrativa, ainda apresentada de forma vaga, para neutralizar esse peso.
De Lula, o Brasil já sabe: ele vai para mais
uma eleição movido pela preservação do poder em si mesmo. Um eventual quarto
mandato tenderá a repetir o governo medíocre de sempre, adornado por populismo,
medidas de curto prazo, baixa ambição e descuido fiscal. No essencial, será o
exercício da vaidade de quem se crê insubstituível.
A Flávio cabe uma pergunta elementar: a que
se presta sua candidatura? Para que o inexpressivo senador quer ser presidente
da República? Ele não apresentou concepção de país que vá além da defesa do
legado reacionário do pai. Não esboçou uma agenda reformista consistente nem
visão capaz de reorganizar o debate público. Ao contrário, já acenou até com a
hipótese de ter como ministro das Relações Exteriores seu irmão Eduardo, deputado
cassado que ajudou a sabotar o Brasil a partir de seus vínculos com Donald
Trump. Mesmo que permaneça no plano do devaneio, a mera ideia agride o País e o
bom senso. Soma-se a isso a incapacidade de ordenar o próprio campo. As últimas
semanas foram marcadas por atritos públicos entre a madrasta Michelle e os
irmãos Eduardo e Carlos Bolsonaro, sem que Flávio tenha demonstrado liderança
para pacificar a casa.
O cauteloso agronegócio e outros segmentos,
liberais, democráticos, conservadores ou progressistas independentes, sabem que
governabilidade exige previsibilidade. Sabem que aventuras personalistas custam
caro. E que um governo orientado por perdão a golpistas, revanches e conflitos
familiares tem potencial para produzir turbulência institucional e econômica.
Também reconhecem que o lulopetismo não oferece respostas estruturais aos
desafios que se avizinham.
Entre um projeto esgotado e outro que nasce
sob suspeita, o País não pode permanecer aprisionado a movimentos que tantos
danos já causaram. Tampouco deve aceitar a falsa dicotomia segundo a qual
qualquer competitividade nas pesquisas autoriza rendição antecipada a um
sobrenome. Sondagens registram o momento, não decretam o futuro. A campanha mal
começou a ser pensada. Há alternativas e tempo – curto, mas real – para
viabilizá-las.
Vai sobrar para a União
Por O Estado de S. Paulo
Demora em definir solução para reequilibrar o
BRB, instituição financeira do Distrito Federal enredado na crise do Banco
Master, eleva chance de que o socorro seja pago por toda a sociedade
Quando alguma autoridade descarta
veementemente a possibilidade de socorro a uma empresa pública, a sociedade
pode ter certeza de que já há conversas avançadas nesse sentido. É até
compreensível a tentativa do secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron,
também presidente do Conselho de Administração da Caixa Econômica Federal, de
fugir do vespeiro do BRB, instituição financeira controlada pelo Distrito
Federal enredada numa crise profunda desde a malfadada tentativa de compra do
Banco Master. Mas o fato é que, ao contrário do que Ceron diz, não está “cedo”
para debater o assunto e não será surpresa se alguma medida for divulgada nas
próximas semanas, seja pelo governo federal, seja pela Caixa.
O Banco Central está no encalço do BRB, que
tem até o fim de março para resolver um problema de liquidez ocasionado pela
compra de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes do Master meses
antes do anúncio, em março de 2025, da fracassada aquisição, que acabou vetada
pelo Banco Central (BC) em setembro. Parte desses ativos podres foi substituída
por outros papéis do Master, mas ainda não se sabe qual o valor real desses
investimentos, sobretudo após a liquidação extrajudicial da instituição
financeira pelo BC, em novembro.
O que se sabe, até o momento, é que o BRB
convocou uma assembleia geral extraordinária, a ser realizada no dia 18 de
março, na qual a administração pedirá a seus acionistas um aporte de no mínimo
R$ 529 milhões e de no máximo R$ 8,86 bilhões. Não se trata de algo trivial,
haja vista que o capital social do banco, atualmente, é de R$ 2,34 bilhões.
Principal acionista do banco, o governo do Distrito Federal enviou à Câmara
Legislativa um projeto de lei pedindo autorização para fazer o aporte, tomar um
empréstimo de até R$ 6,6 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e
utilizar nove imóveis públicos como garantia.
Mas uma reportagem publicada pelo Estadão mostrou os vários
problemas da proposta do governador Ibaneis Rocha (MDB), como valor
insuficiente e imóveis enrolados. Há também resistência entre os deputados
distritais em apoiá-la. Nem parece que, há apenas seis meses, esses mesmos
deputados levaram só cinco dias para aprovar a compra do Master pelo banco
estatal por 14 votos a 7.
O tempo, agora, joga contra Ibaneis, e a
necessidade de aporte não poderia ter surgido em pior hora. O governo do DF vai
mal das pernas e fechou o ano com um buraco no caixa de R$ 1 bilhão, situação
que dificulta a chance de obter um empréstimo barato sem garantia da União. Sabendo
disso, o governo federal já começou a explorar politicamente a situação.
Em suas redes sociais, a ministra da
Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, disse que cabe a
Ibaneis se explicar e apresentar uma solução para o rombo do BRB, uma vez que a
União “não tem nada a ver com as barbaridades” que envolvem o caso. “Não venham
espetar essa conta no bolso do povo brasileiro”, afirmou.
Bom seria se fosse verdade. A Constituição
estabelece a solidariedade entre os entes federativos, o que garantiria
cobertura federal caso o Distrito Federal tenha dificuldades para honrar
obrigações em áreas como saúde e educação em razão de um aporte ao BRB.
Goste-se ou não, é com base nesse princípio que vários Estados encontram
guarida no Supremo Tribunal Federal para dar calote em cima de calote na União.
O BRB tem até 31 de março para apresentar seu
balanço e depende do reequilíbrio de seu patrimônio e da recomposição de sua
liquidez para evitar a adoção de “medidas prudenciais sancionadoras” pelo Banco
Central, com restrições que vão desde o impedimento de abertura de novas
agências à imposição de limites operacionais.
Deixar a instituição quebrar implodiria a
carreira política de Ibaneis, mas isso é problema dele. Para o País, contudo,
trata-se de um risco que o setor financeiro pode não ser capaz de enfrentar.
Toda essa demora em solucionar a crise aumenta a chance de o banco acabar por
ser federalizado, ou seja, absorvido pela Caixa, o que, em última instância, é
contar com a ajuda da União, ainda que de maneira indireta. A ver quais serão
os próximos passos. Convém apertar os cintos.
Com as barbas de molho
Por O Estado de S. Paulo
Guerra no Irã afeta petróleo e pode acelerar
inflação. Será preciso cautela sobre juros no Brasil
Não se sabe quanto tempo vai durar a guerra
deflagrada por EUA e Israel contra o Irã nem quais serão as consequências
regionais e mundiais, mas os efeitos imediatos sobre a economia já se fazem
sentir. A disparada instantânea da cotação do petróleo foi a consequência
lógica do conflito na principal região petrolífera do mundo. O petróleo tipo
Brent (referência adotada pela Petrobras) encerrou a semana passada em US$ 73 o
barril, maior preço em sete meses, já por causa da tensão no Oriente Médio. No
primeiro dia útil após o ataque, subiu para US$ 78, e as projeções estão entre
US$ 80 e US$ 100 para breve, a depender do prolongamento da ofensiva militar.
Tudo isso certamente terá impacto no Brasil, justamente no momento em que o
País já se preparava para dar início ao ciclo de redução dos juros, em razão do
bom comportamento da inflação. O cenário mudou – e requer pôr barbas de molho.
Ainda que pareça cedo para estimativas, a
experiência recente mostra como é direto o impacto. Em fevereiro de 2022,
quando o autocrata russo Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia, a Rússia,
que produz cerca de 10% do petróleo mundial, sofreu sanções comerciais e o
preço do Brent ultrapassou a marca de US$ 130 por barril já em março. Somente em
julho daquele ano, sob a ameaça de recessão global, a desaceleração da demanda
e a alta dos juros nos EUA puxaram o preço para menos de US$ 100, mas o ano
ainda terminou com o barril entre US$ 80 e US$ 85. Analistas situam o período
que se seguiu à invasão da Ucrânia como o de maior escassez de oferta desde o
choque do petróleo da década de 1970, que mudou a geopolítica mundial.
Uma eventual disparada do petróleo tende a
acelerar a inflação global, e essa nova conjuntura internacional impõe desafios
ao Banco Central brasileiro. Previa-se que o ciclo da queda dos juros fosse
começar na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) deste mês. O
secretário do Tesouro, Rogério Ceron, disse que, se o conflito fizer o preço do
barril variar entre US$ 75 e US$ 85, não haveria motivos para mudanças nos
planos de redução dos juros, mas isso parece mais um desejo do governo do que
uma avaliação técnica. Ceron admitiu que uma cotação acima de US$ 100 pressiona
a inflação e pode ter outras repercussões.
Pelo Estreito de Ormuz, cujo lado norte é
controlado pelo Irã, passa mais de 20% do comércio de petróleo do mundo. O Irã
anunciou o bloqueio do canal, ainda que dados de satélite não identifiquem o
fechamento total. Mas há notícias de que navios foram atingidos, e a insegurança
afeta o tráfego dos petroleiros.
De acordo com a Agência Internacional de
Energia (IEA, na sigla em inglês), o mercado global está bem abastecido, mas
considerando que, de cada cinco barris de petróleo transportados no mundo, ao
menos um passa pelo Estreito de Ormuz, não é difícil imaginar as consequências
do fechamento do canal.
Quando se reunirem, em duas semanas, os integrantes do Copom terão mais elementos para avaliar a situação, e é imprescindível manter o critério de política monetária adotado até aqui. Ou seja, uma avaliação estritamente técnica, apartada de quaisquer pressões políticas e eleitorais, irá traçar o caminho mais adequado para o País.
Mercados têm reação moderada diante da
ofensiva contra o Irã
Por Valor Econômico
A maior preocupação com a guerra é com seus
efeitos financeiros, como a valorização do dólar
Os mercados financeiros reagiram com
inquietação moderada à mais importante ofensiva militar do governo de Donald
Trump, para pôr fim ao regime dos aiatolás no Irã. Enquanto o conflito se
alastrava por 12 países do Oriente Médio, os ativos financeiros apresentaram
alta moderada ontem, indicando que, por enquanto e com os dados disponíveis, os
investidores não preveem uma guerra prolongada e altamente destrutiva. Após
subir 13% logo na abertura dos pregões, o petróleo tipo Brent aumentou 6,26%, a
US$ 77,43 o barril. O dólar, uma moeda que serve de refúgio em turbulências,
avançou 0,9% diante de uma cesta de moedas de países com os quais mais
comercia. As bolsas americanas oscilaram para baixo, mas sem perdas
significativas. Os títulos do Tesouro americano quase não se moveram, sugerindo
de novo que já não são um porto seguro predileto em época de incertezas, papel
que parece ter sido em parte transferido ao ouro, que subiu 1,5%.
As avaliações dos ativos guardam relação com
o último evento armado de junho, quando EUA e Israel atacaram os locais de
enriquecimento de urânio do Irã. O Irã respondeu com moderação, lançando
mísseis contra o território israelense, em reação comedida e de curta duração.
Com isso, o petróleo subiu logo para US$ 80 o barril, para retroceder
rapidamente em uma dezena de dias. Não é possível saber se esse roteiro se
repetirá agora.
O regime iraniano abriu fogo contra a
infraestrutura de energia dos países vizinhos, mostrando que apesar da
intensidade e rapidez dos ataques conjuntos de Israel e EUA ainda mantém alguma
capacidade de reação. Ontem a principal planta de produção de gás natural
liquefeito (GNL) do Catar foi paralisada após ataques ao complexo de Ras
Laffan. O Catar é o maior produtor mundial da commodity e abastece 20% da
demanda mundial. China e Índia são grandes consumidores, mas vários países
europeus deslocaram suas compras para o Oriente Médio após a Rússia ter cortado
seu fornecimento em represália às sanções que lhe foram impostas por invadir a
Ucrânia. O preço do GNL no mercado europeu aumentou 48%. Não é possível prever
quando a produção será restabelecida, incógnita relevante diante da queda dos
estoques europeus ao fim do inverno.
O Irã atacou com drones a maior refinaria da
Arábia Saudita, de Ras Tanure, capaz de produzir 550 mil barris por dia. As
instalações não sofreram danos significativos, mas a estatal petrolífera do
país, Saudi Aramco, resolveu preventivamente suspender as operações. Líder do
cartel dos produtores, a Opep, a Arábia Saudita é o país que tem maior
capacidade disponível para aumentar a produção.
Os preços dos fretes para cargas no Estreito
de Ormuz avançaram mais de 50%. As maiores companhias suspenderam a oferta de
seguros para navegação na área. Tanto na interrupção do fluxo de petróleo
quanto na paralisação da produção de GNL no Catar é a China, grande compradora
das duas commodities. Mas os chineses há seis meses fazem compras para elevar
estoques do petróleo, de forma que podem conviver com esta situação por um bom
período.
Analistas estimam que entre os males, o
fechamento provisório do Estreito de Ormuz é o menor, em relação à destruição
ampliada da capacidade produtiva de óleo e gás da região. No primeiro caso, a
retomada do escoamento pode ser feita imediatamente. No segundo caso, não. As
perdas do conflito estão, nesse momento, majoritariamente concentradas no
Oriente Médio. Exportações de GNL compõem 60% do PIB do Catar. A paralisação
por tempo indefinido dos maiores hubs aéreos da região (Doha e Dubai, um dos
mais movimentados do mundo) indica que o turismo pode sofrer um duro golpe caso
o conflito se prolongue, e o setor representa em média 10% do PIB dos países da
região.
Tanto pelo aumento do combustível como pela
interrupção de sua rota em Ormuz, as bolsas europeias puniram ontem as ações
das companhias aéreas e de viagens. As ações nos pregões do continente caíram
2,42% na Alemanha (Dax), e 2,17% (Paris). Como a Europa é mais dependente de
petróleo e gás natural liquefeito que os EUA, que é autossuficiente em ambos, os
papéis europeus refletiram temor mais intenso de alta da inflação, embora o
índice ao consumidor na zona do euro encontre-se hoje em 1,75% abaixo da meta
do Banco Central Europeu.
Com o petróleo até US$ 80, as consequências
para a economia mundial serão limitadas, estima a Oxford Economics. A inflação
americana subiria 0,3-0,4 ponto percentual e se manteria mais distante da meta
do que já está (foi de 2,8% em fevereiro), limitando ainda mais a capacidade do
Fed de cortar mais os juros.
No caso do Brasil, em que o repasse da alta do petróleo aos preços não é imediata, o JP Morgan calculou que um aumento de 10% no óleo elevaria em 0,2 ponto percentual a inflação e traria ligeiro aumento do PIB (0,1%) porque o Brasil é grande exportador da commodity. A maior preocupação com a guerra é com seus efeitos financeiros, como a valorização do dólar, que tem sido um fator decisivo para o recuo da inflação.
Impactos da guerra vão além da economia
Por Correio Braziliense
Há, agora, mais interesses no front, e a
preocupação primeira de um impacto global mais restrito a aspectos econômicos,
ainda que sejam volumosos, se torna simplista
Os ataques coordenados dos Estados Unidos e
de Israel contra o Irã ganharam novos contornos nesta segunda-feira, se
expandindo pelo Oriente Médio e trazendo mais atores ao centro do conflito.
Configurado o cenário de guerra regional, qualquer tipo de apaziguamento tende
a ficar mais complexo e demorado. Há, agora, mais interesses no front, e a
preocupação primeira de um impacto global mais restrito a aspectos econômicos,
ainda que sejam volumosos, se torna simplista.
A entrada do Hezbollah é um dos pontos
críticos do agravamento da crise. A organização paramilitar que tem relação
umbilical com o Irã e base principal no Líbano lançou foguetes e drones no
norte israelense em retaliação à morte do líder supremo Ali Khamenei, ocorrida
no sábado. Israel respondeu com amplo bombardeio em todo o território libanês,
incluindo o entorno da capital, Beirute, e a promessa de que a intensidade dos
ataques vai aumentar no país. De imediato, 52 pessoas morreram e ao menos 28
mil foram forçadas a deixar suas casas, segundo a Unidade de Gestão de
Desastres do governo local.
É mais gasolina sobre um território em tensão
desde 7 de outubro de 2023, quando o Hamas invadiu o sul do Estado judeu por
terra, céu e mar, dando início a uma das guerras mais sangrentas na região em
décadas. O Hezbollah entrou no confronto no dia seguinte, e , segundo a
ONU, a resposta israelense mergulhou os libaneses em um dos momentos "mais
mortais da história recente do país", com cerca de 2 milhões de
pessoas impactadas pelo conflito desde então. Ainda que o grupo xiita esteja
enfraquecido por esse confronto estendido com Israel, não é exagero
esperar que a nova escalada agrave a crise humanitária libanesa, podendo
impulsionar, inclusive, nova onda migratória.
Entre os iranianos, a imprevisibilidade
quanto ao futuro do país e a divisão interna sobre a legitimidade da ofensiva
que matou os principais líderes também ganham corpo. Trata-se de
combinação perigosa, propícia a mais desrespeitos a preceitos humanitários. Ao
Correio, a ativista iraniano-americana Masih Alinejad descreveu que seus
compatriotas experimentam, ao mesmo tempo, dor e esperança após a morte de
Khamenei, e disse esperar represálias, como intimidações, bloqueio da internet
e violências mais explícitas.
No começo do ano, manifestações motivadas
pela situação econômica do Irã foram reprimidas com a mão pesada do regime. O
governo admitiu 3.117 mortes, mas organizações de direitos humanos calculam o
dobro de óbitos e mais de 11 mil pessoas gravemente feridas, além de 42 mil
prisões. "A liberdade não é automática. Ela é paga com sangue. É isso que
os iranianos estão fazendo: sacrificando sua vida para se livrar dessa ditadura
religiosa", avalia a ativista. A expectativa de Masih é de que a ação coordenada
dos Estados Unidos e de Israel "rache o sistema de medo" que impera
no Irã, tendo como alvo, sobretudo, as mulheres. "A questão não é se as
mulheres estão preparadas (para as represálias). Elas estão. A questão é se o
regime consegue ainda impor medo. Eu acho que não."
O certo é que a ampliação do confronto é acompanhada pelo bombardeio de infraestruturas civis, como prédios, aeroportos, escolas e hotéis. A ONU conclama pela "cessação imediata das hostilidades e por um diálogo e negociações genuínas". Ainda que sob grave crise de representatividade, a organização faz seu papel. Quem diz seguir princípios civilizatórios precisa fazer o mesmo: o direito internacional humanitário não pode estar sob a mira de drones e mísseis.
Quando o verde vira obstáculo, o futuro é
insustentável
Por O Povo (CE)
Aval para corte de 5 árvores/dia em Fortaleza
revela gestões que priorizam o concreto, ignoram a Ciência e agravam o calor.
Urge adotar políticas reais de preservação
Os números revelados com exclusividade pela
Central de Dados do O POVO escancaram uma realidade que o fortalezense já sente
na pele a cada caminhada: a Cidade está perdendo sua sombra e destruindo suas
áreas verdes. A autorização do poder público para a derrubada de, em média, cinco árvores por dia desde 2022 é
o retrato de modelos de gestão que ignoram a emergência climática em prol da
expansão do concreto.
Um dado perturbador desse cenário é a sua
institucionalização. Observa-se uma inegável estabilidade dessa prática ao
longo das últimas três gestões municipais — de Roberto Cláudio a José Sarto,
chegando agora ao governo de Evandro Leitão. A motosserra se tornou uma
política de Estado, operando em um modo que supera ideologias partidárias.
Trata-se de uma visão anacrônica de progresso, na qual o setor imobiliário — protagonista das solicitações de desmate —
tem passe livre, enquanto o patrimônio ambiental é tratado como um obstáculo
descartável.
Bairros como Lagoa Redonda, Parque Dois
Irmãos e Mondubim tornaram-se o epicentro dessa "tratorada" urbana.
Juntos, concentram mais de 30% das 6.683 árvores derrubadas nos últimos anos.
Enquanto as construtoras erguem condomínios e
conjuntos habitacionais, a temperatura local sobe e a umidade desaparece.
Fortaleza é uma metrópole equatorial onde a árvore não é um luxo paisagístico,
mas infraestrutura vital de saúde pública. Ao permitir a remoção da
cobertura vegetal, a Prefeitura potencializa as "ilhas de calor" e
condena a população ao estresse térmico permanente.
Não basta à Secretaria Municipal de Urbanismo
e Meio Ambiente (Seuma) alegar o cumprimento de "plantios
compensatórios". A matemática ecológica não é linear. Como alertam
especialistas da UFC, a doação de mudas frágeis ou o plantio em locais
distantes do dano original não recuperam os serviços ambientais perdidos.
Uma muda de 1,8 metro levará décadas para
oferecer o sequestro de carbono e o conforto térmico de uma árvore adulta. Além
disso, a fragmentação de processos — com empresas obtendo múltiplas licenças
sucessivas para o mesmo terreno — levanta suspeitas sobre a fiscalização e a
real percepção do impacto acumulado.
É urgente que os gestores de Fortaleza parem
de ignorar a Ciência. O urbanismo do século XXI exige que a natureza seja
integrada ao desenho da cidade, priorizando o transplantio e a manutenção do
que já existe.
A sociedade civil deve exigir que a pauta
ambiental ultrapasse o verniz do marketing institucional e se torne uma
prioridade prática. Não há futuro viável para uma capital que assina,
diariamente, cinco sentenças de morte para o seu verde. Quem corta o amanhã sem
distinções ou políticas que priorizem a arborização entrega a Fortaleza um
futuro com qualidade de vida decrescente.

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