terça-feira, 3 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Guerra duradoura trará maior pressão sobre a inflação

Por O Globo

Ao fechar Estreito de Ormuz, Irã impede transporte de um quinto dos barris de petróleo exportados

Quatro em dez barris de petróleo exportados no mundo saem do Oriente Médio. Desses, pelo menos dois atravessam o Estreito de Ormuz, que separa o Golfo Pérsico do Oceano Índico. É daí que vem a ameaça de contágio da economia global pela guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Fechar Ormuz, como fizeram ontem os iranianos, é uma estratégia eficaz para infligir perdas aos inimigos. No plano de sobrevivência do regime dos aiatolás, a prioridade é mirar em refinarias e navios enquanto houver forças.

Por medo de ataques iranianos, algumas rotas marítimas já haviam sido fechadas. Os bombardeios levaram refinarias em países como Arábia Saudita ou Catar a interromper a produção. Não demorou para o preço do petróleo subir. Quando ele se mantém alto por muito tempo, a pressão inflacionária é inevitável. Mais de 90% das máquinas que se movimentam sobre rodas, no ar ou na água em todas as partes do planeta dependem de derivados de petróleo.

Dos 15 milhões de barris que passam por Ormuz todo dia, 5 milhões vão para a China, 2 milhões para a Índia e 1,7 milhão para o Japão, mesma quantidade recebida pela Coreia do Sul. Embora os Estados Unidos sejam quase autossuficientes em energia, também são afetados, porque o preço do petróleo é internacional. E alta da inflação é tudo o que Donald Trump não quer daqui até as eleições de meio de mandato em novembro, ou o risco é ele perder o controle da Câmara e do Senado.

A dúvida é quanto estrago os iranianos causarão aos suprimentos — e até quando. Os mercados de energia cogitam dois cenários. No mais severo, o tráfego de navios por Ormuz será fechado por um tempo prolongado. No último mês, já com a previsão de guerra, o preço do barril subiu 12%, para a casa de US$ 70. Nessa projeção mais negativa, o valor ultrapassaria US$ 100. Num cenário menos catastrófico, persistirá alguma movimentação de navios no estreito, e apenas as exportações iranianas serão totalmente cortadas, deixando o preço do barril acima de US$ 80.

Na tentativa de reduzir o choque, o cartel conhecido por Opep+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados) prometeu elevar em 206 mil barris por dia a produção a partir de abril. Dos oito países do grupo, cinco estão no Oriente Médio. Será necessário esperar para ver se eles terão mesmo condições de produzir e escoar o excedente.

Caso importadores decidam ampliar compras de exportadores fora da região do conflito, o Brasil pode se beneficiar. Por isso as ações da Petrobras registraram uma das maiores altas nesta segunda-feira. Ainda que esse cenário se confirme, será difícil a economia brasileira obter saldo positivo da guerra. Embora a Petrobras possa controlar o preço doméstico da gasolina e do diesel, uma alta duradoura do petróleo no mercado internacional cedo ou tarde chegará aqui também.

Outro canal de contágio é o eventual aumento da cotação do dólar, que exerce pressão sobre a inflação. Como resultado, o ciclo de queda de juros que se desenha no horizonte poderá ser interrompido, com consequência negativa sobre o crédito e a atividade econômica. Mais um motivo para o governo encarar com seriedade o ajuste das contas públicas, de modo a reduzir a carga que provavelmente pesará sobre o Banco Central.

Nova legislação trabalhista argentina é passo rumo a ciclo econômico virtuoso

Por O Globo

Reforma instaura maior flexibilidade nas contratações e nas relações entre as empresas e seus funcionários

É uma notícia auspiciosa a aprovação pelo Congresso argentino da reforma trabalhista proposta pelo presidente Javier Milei. Parecia feito impossível, tamanha a tradição dos sindicatos e a força do populismo peronista entre os parlamentares argentinos. Mesmo assim, o Senado acatou as concessões necessárias para aprovar o texto na Câmara —em especial a derrubada de um artigo que reduzia a remuneração em caso de licença médica —, e ele seguiu para sanção presidencial.

O objetivo da reforma, de espírito análogo à promovida pelo governo Michel Temer no Brasil em 2017, é reduzir o custo do emprego para as empresas, de modo a gerar novos postos formais de trabalho. Em contraste com propostas brasileiras que pretendem reduzir o tempo de trabalho, ela autoriza a extensão da jornada diária de oito para 12 horas, cria banco de horas para compensação e permite acordos com empregados por empresas ou região, reduzindo o peso das convenções sindicais de âmbito nacional.

Como na reforma brasileira de 2017, o “negociado” com os sindicatos passa a ter valor maior que o “legislado”, garantindo maior flexibilidade às relações trabalhistas. A nova legislação cria também um fundo com contribuições recolhidas sobre a folha de salários para financiar indenizações por demissão, semelhante ao FGTS brasileiro.

Milei tem obtido maior apoio político para mudanças antes consideradas impensáveis graças ao êxito do choque que deu na economia. Ele enxugou a máquina pública, demitindo servidores sem proteção legal de estabilidade, congelou novas contratações e determinou auditorias em contratos. Logo ao assumir, editou um decreto que lhe permitiu adotar medidas de urgência, alterou incontáveis normas e leis para destravar mercados, em especial no comércio e no setor imobiliário. Promoveu um choque de desregulação, agora reforçado pela nova lei trabalhista.

Os resultados têm sido auspiciosos. Antes da eleição de Milei, em 2023, a inflação anual argentina passava de 210%, e o país caminhava para mais um ciclo de hiperinflação. Em 2024, ela caiu a 31,5% e continua em trajetória declinante. Passado o primeiro efeito do choque de desregulação, a economia voltou a crescer, a pobreza diminuiu, e as contas públicas se ajustaram. No ano passado houve superávit primário de 1,4% do PIB, pondo fim aos déficits da gestão peronista. O partido de Milei, A Liberdade Avança, obteve grande bancada nas eleições legislativas de outubro de 2025. Foi o que permitiu a aprovação da reforma trabalhista. Apesar de todo o histrionismo de Milei, o país tem dado passos certos na direção de um ciclo virtuoso na economia.

Decisão de Gilmar em socorro de Toffoli é um escárnio

Por Folha de S. Paulo

Decano do STF suspendeu quebra de sigilos da Maridt, empresa que tem seu colega entre os sócios

Medida havia sido determinada pela CPI do Crime Organizado; tudo se passou como se houvesse um jogo combinado para Gilmar socorrer Toffoli

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, acrescentou mais uma linha esdrúxula na trama do banco Master, a esta altura já repleta de relações anômalas entre Daniel Vorcaro, controlador da instituição, e as mais diversas autoridades públicas brasileiras.

Na sexta-feira (27), em uma manobra que achincalha os ritos processuais, o decano da corte suspendeu a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático da empresa Maridt, que tem entre seus sócios o ministro Dias Toffoli. A providência investigativa havia sido determinada dias antes pela CPI do Crime Organizado.

Como se estivesse coberto de razão, Gilmar vociferou em sua decisão. Classificou a quebra de sigilo como "destituída de idoneidade por completa e absoluta ausência de fundamentação válida" e afirmou que ela "apresenta narrativa e justificação falhas, imprecisas e equivocadas".

Sob essa camada de retórica tempestuosa, contudo, encontra-se pouca substância. Pode-se e deve-se, é verdade, discutir os limites de atuação da CPI. Criada com o propósito de esquadrinhar o alcance do crime organizado, a comissão ampliou seu escopo de modo a incluir o banco Master.

Embora sejam convincentes os argumentos parlamentares —é preciso esclarecer se a cúpula do Judiciário se envolveu com o mundo do crime—, as apurações precisam respeitar as normas do Estado de Direito. E cabe ao STF, no fim das contas, frear eventuais ataques às garantias individuais.

Ocorre que o Supremo também deve observar certos procedimentos, mas os ministros amiúde agem como se desconhecessem essa regra rudimentar. Foi precisamente o que fez Gilmar.

Sua canetada favorável à empresa da família Toffoli jamais poderia constar de um manual jurídico. Ela se deu em um mandado de segurança de 2021, impetrado pela produtora Brasil Paralelo no contexto da CPI da Covid. Ou seja, sem nenhuma relação com o Master, Toffoli e a atual CPI. E pior: o processo estava arquivado.

Com a manobra, o pedido da Maridt caiu no colo de Gilmar, dado que ele relatou o caso da Brasil Paralelo. Ou seja, tudo se passou como se houvesse uma jogada combinada nos bastidores para o decano socorrer Toffoli.

E não foi o único gesto recente a evidenciar o espírito de corpo que contamina o Supremo. Na quinta-feira (26), o ministro André Mendonça havia decidido que os irmãos de Toffoli, convocados pela CPI do Crime Organizado, estavam dispensados de cumprir essa obrigação.

É um escárnio. Passou da hora de os membros do STF entenderem que não estão acima das leis e que a sociedade exige respostas satisfatórias sobre os laços pouco republicanos entre Toffoli e Vorcaro. Não é demais lembrar que o ministro é citado em conversas no celular do ex-banqueiro.

As iniciativas em favor de Toffoli são tantas e tão heterodoxas que se torna inevitável perguntar o que ele está escondendo que demanda tamanho esforço.

O anacronismo digital de Flávio Dino

Por Folha de S. Paulo

Decisão contra privatização de estatal do Paraná ignora que há lei geral para proteger dados dos cidadãos

O argumento de Dino colide com a prática de órgãos federais que confiam o tratamento de sua infraestrutura digital a companhias privadas

A decisão liminar do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de suspender a privatização da estatal paranaense de informática Celepar sob o argumento de risco à proteção de dados, ignora a maturidade do setor público e a dinâmica do mercado tecnológico global.

Ao travar um processo aprovado pela Assembleia Legislativa do Paraná, a decisão gera insegurança jurídica e atende a ação impetrada no Supremo pelo PT e o PSOL —legendas historicamente resistentes ao enxugamento do Estado brasileiro.

O cerne da questão é que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), de 2018, já é uma norma federal de caráter geral. Ela obriga, com o mesmo rigor, entes públicos e privados a seguirem padrões elevados de tratamento de informações pessoais.

O receio de que o fim do controle estatal ameace a privacidade dos paranaenses desconsidera que a própria legislação brasileira já prevê a custódia de dados públicos por entes privados, desde que sob fiscalização estrita.

A Celepar —seja sob controle público ou privado— estará vinculada aos marcos federais. Além disso, o governo do Paraná diz ter agido preventivamente ao segregar bancos de dados sensíveis da segurança pública em uma reserva própria, blindando informações críticas. O PSOL, no entanto, contesta essa informação.

Há, porém, uma contradição latente: o argumento de Dino colide com a prática da própria administração pública federal e do Poder Judiciário, que confiam parte de sua infraestrutura de nuvem e processamento a gigantes privadas. Isolar o Paraná dessa realidade operacional soa como um anacronismo digital sem amparo técnico sólido.

O governador Ratinho Júnior (PSD) fundamenta a desestatização na urgência de modernização e na preservação da saúde financeira do estado. O temor de que a Celepar siga o caminho de obsolescência de outras estatais é legítimo; em um mercado de inovação, estruturas amarradas a burocracias ineficientes perdem competitividade e tornam-se um fardo ao contribuinte.

Decisões de uma corte constitucional não devem carregar matiz ideológica, especialmente quando proferidas por magistrados egressos da militância partidária ativa, como é o caso de Dino, que já esteve nos quadros do PCdoB e foi indicado ao STF pelo presidente Lula (PT), historicamente contrário às privatizações.

O plenário do Supremo, ao analisar a decisão liminar nos próximos dias, terá a oportunidade de corrigir esse excesso.

O clamor pela moderação

Por O Estado de S. Paulo

Resistência de parte do agronegócio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro expõe fadiga com a polarização e acalenta a busca por alternativa viável entre lulopetismo e bolsonarismo

Uma parte do agronegócio está resistindo a aderir à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República, informou reportagem do Estadão/Broadcast, com base em conversas com parlamentares e representantes do setor. Apesar do impulso recente do filho “zero um” de Jair Bolsonaro nas pesquisas, a expectativa de alguns integrantes do agro ainda repousa sobre um nome mais moderado da centro-direita. Originalmente visto como pilar do bolsonarismo, o segmento parece que ainda não fechou inteiramente com o candidato bolsonarista. Acostumado a avaliar riscos, o agro sabe que eleição não é ato de fé.

É evidente que, para esse setor, como para qualquer um de bom senso, o importante é impedir que Luiz Inácio Lula da Silva fique mais quatro anos no poder. Num horizonte mais amplo, porém, somente a derrota de Lula não basta para entregar a almejada prosperidade do País, sobretudo se o vencedor da eleição for alguém movido a revanchismo, mais interessado em livrar o pai da cadeia e anistiar golpistas do que em conduzir o País no caminho das reformas e da reconciliação.

O que vale para o agronegócio vale também para todo segmento que se mostra cansado tanto dos longos anos de Lula no poder quanto da polarização raivosa entre o bolsonarismo e o lulopetismo. Esses dois polos turvaram o debate público, converteram adversários em inimigos e inibiram alternativas. Hoje, segundo a Quaest, cerca de 30% dos brasileiros se dizem independentes, não querem nem Lula nem os Bolsonaros. Há, ainda, 14% enquadrados como esquerda não-lulista e 21% como direita não-bolsonarista. É um contingente expressivo demais para ser ignorado. Há vida possível fora da trincheira.

O sobrenome Bolsonaro carrega feitos, mas também conflitos, crises institucionais e processos judiciais. Carrega, sobretudo, um projeto que terminou em tentativa de golpe. É ilusório imaginar que bastaria suavizar o discurso ou revestir a candidatura de racionalidade administrativa, ainda apresentada de forma vaga, para neutralizar esse peso.

De Lula, o Brasil já sabe: ele vai para mais uma eleição movido pela preservação do poder em si mesmo. Um eventual quarto mandato tenderá a repetir o governo medíocre de sempre, adornado por populismo, medidas de curto prazo, baixa ambição e descuido fiscal. No essencial, será o exercício da vaidade de quem se crê insubstituível.

A Flávio cabe uma pergunta elementar: a que se presta sua candidatura? Para que o inexpressivo senador quer ser presidente da República? Ele não apresentou concepção de país que vá além da defesa do legado reacionário do pai. Não esboçou uma agenda reformista consistente nem visão capaz de reorganizar o debate público. Ao contrário, já acenou até com a hipótese de ter como ministro das Relações Exteriores seu irmão Eduardo, deputado cassado que ajudou a sabotar o Brasil a partir de seus vínculos com Donald Trump. Mesmo que permaneça no plano do devaneio, a mera ideia agride o País e o bom senso. Soma-se a isso a incapacidade de ordenar o próprio campo. As últimas semanas foram marcadas por atritos públicos entre a madrasta Michelle e os irmãos Eduardo e Carlos Bolsonaro, sem que Flávio tenha demonstrado liderança para pacificar a casa.

O cauteloso agronegócio e outros segmentos, liberais, democráticos, conservadores ou progressistas independentes, sabem que governabilidade exige previsibilidade. Sabem que aventuras personalistas custam caro. E que um governo orientado por perdão a golpistas, revanches e conflitos familiares tem potencial para produzir turbulência institucional e econômica. Também reconhecem que o lulopetismo não oferece respostas estruturais aos desafios que se avizinham.

Entre um projeto esgotado e outro que nasce sob suspeita, o País não pode permanecer aprisionado a movimentos que tantos danos já causaram. Tampouco deve aceitar a falsa dicotomia segundo a qual qualquer competitividade nas pesquisas autoriza rendição antecipada a um sobrenome. Sondagens registram o momento, não decretam o futuro. A campanha mal começou a ser pensada. Há alternativas e tempo – curto, mas real – para viabilizá-las.

Vai sobrar para a União

Por O Estado de S. Paulo

Demora em definir solução para reequilibrar o BRB, instituição financeira do Distrito Federal enredado na crise do Banco Master, eleva chance de que o socorro seja pago por toda a sociedade

Quando alguma autoridade descarta veementemente a possibilidade de socorro a uma empresa pública, a sociedade pode ter certeza de que já há conversas avançadas nesse sentido. É até compreensível a tentativa do secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, também presidente do Conselho de Administração da Caixa Econômica Federal, de fugir do vespeiro do BRB, instituição financeira controlada pelo Distrito Federal enredada numa crise profunda desde a malfadada tentativa de compra do Banco Master. Mas o fato é que, ao contrário do que Ceron diz, não está “cedo” para debater o assunto e não será surpresa se alguma medida for divulgada nas próximas semanas, seja pelo governo federal, seja pela Caixa.

O Banco Central está no encalço do BRB, que tem até o fim de março para resolver um problema de liquidez ocasionado pela compra de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes do Master meses antes do anúncio, em março de 2025, da fracassada aquisição, que acabou vetada pelo Banco Central (BC) em setembro. Parte desses ativos podres foi substituída por outros papéis do Master, mas ainda não se sabe qual o valor real desses investimentos, sobretudo após a liquidação extrajudicial da instituição financeira pelo BC, em novembro.

O que se sabe, até o momento, é que o BRB convocou uma assembleia geral extraordinária, a ser realizada no dia 18 de março, na qual a administração pedirá a seus acionistas um aporte de no mínimo R$ 529 milhões e de no máximo R$ 8,86 bilhões. Não se trata de algo trivial, haja vista que o capital social do banco, atualmente, é de R$ 2,34 bilhões. Principal acionista do banco, o governo do Distrito Federal enviou à Câmara Legislativa um projeto de lei pedindo autorização para fazer o aporte, tomar um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e utilizar nove imóveis públicos como garantia.

Mas uma reportagem publicada pelo Estadão mostrou os vários problemas da proposta do governador Ibaneis Rocha (MDB), como valor insuficiente e imóveis enrolados. Há também resistência entre os deputados distritais em apoiá-la. Nem parece que, há apenas seis meses, esses mesmos deputados levaram só cinco dias para aprovar a compra do Master pelo banco estatal por 14 votos a 7.

O tempo, agora, joga contra Ibaneis, e a necessidade de aporte não poderia ter surgido em pior hora. O governo do DF vai mal das pernas e fechou o ano com um buraco no caixa de R$ 1 bilhão, situação que dificulta a chance de obter um empréstimo barato sem garantia da União. Sabendo disso, o governo federal já começou a explorar politicamente a situação.

Em suas redes sociais, a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, disse que cabe a Ibaneis se explicar e apresentar uma solução para o rombo do BRB, uma vez que a União “não tem nada a ver com as barbaridades” que envolvem o caso. “Não venham espetar essa conta no bolso do povo brasileiro”, afirmou.

Bom seria se fosse verdade. A Constituição estabelece a solidariedade entre os entes federativos, o que garantiria cobertura federal caso o Distrito Federal tenha dificuldades para honrar obrigações em áreas como saúde e educação em razão de um aporte ao BRB. Goste-se ou não, é com base nesse princípio que vários Estados encontram guarida no Supremo Tribunal Federal para dar calote em cima de calote na União.

O BRB tem até 31 de março para apresentar seu balanço e depende do reequilíbrio de seu patrimônio e da recomposição de sua liquidez para evitar a adoção de “medidas prudenciais sancionadoras” pelo Banco Central, com restrições que vão desde o impedimento de abertura de novas agências à imposição de limites operacionais.

Deixar a instituição quebrar implodiria a carreira política de Ibaneis, mas isso é problema dele. Para o País, contudo, trata-se de um risco que o setor financeiro pode não ser capaz de enfrentar. Toda essa demora em solucionar a crise aumenta a chance de o banco acabar por ser federalizado, ou seja, absorvido pela Caixa, o que, em última instância, é contar com a ajuda da União, ainda que de maneira indireta. A ver quais serão os próximos passos. Convém apertar os cintos.

Com as barbas de molho

Por O Estado de S. Paulo

Guerra no Irã afeta petróleo e pode acelerar inflação. Será preciso cautela sobre juros no Brasil

Não se sabe quanto tempo vai durar a guerra deflagrada por EUA e Israel contra o Irã nem quais serão as consequências regionais e mundiais, mas os efeitos imediatos sobre a economia já se fazem sentir. A disparada instantânea da cotação do petróleo foi a consequência lógica do conflito na principal região petrolífera do mundo. O petróleo tipo Brent (referência adotada pela Petrobras) encerrou a semana passada em US$ 73 o barril, maior preço em sete meses, já por causa da tensão no Oriente Médio. No primeiro dia útil após o ataque, subiu para US$ 78, e as projeções estão entre US$ 80 e US$ 100 para breve, a depender do prolongamento da ofensiva militar. Tudo isso certamente terá impacto no Brasil, justamente no momento em que o País já se preparava para dar início ao ciclo de redução dos juros, em razão do bom comportamento da inflação. O cenário mudou – e requer pôr barbas de molho.

Ainda que pareça cedo para estimativas, a experiência recente mostra como é direto o impacto. Em fevereiro de 2022, quando o autocrata russo Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia, a Rússia, que produz cerca de 10% do petróleo mundial, sofreu sanções comerciais e o preço do Brent ultrapassou a marca de US$ 130 por barril já em março. Somente em julho daquele ano, sob a ameaça de recessão global, a desaceleração da demanda e a alta dos juros nos EUA puxaram o preço para menos de US$ 100, mas o ano ainda terminou com o barril entre US$ 80 e US$ 85. Analistas situam o período que se seguiu à invasão da Ucrânia como o de maior escassez de oferta desde o choque do petróleo da década de 1970, que mudou a geopolítica mundial.

Uma eventual disparada do petróleo tende a acelerar a inflação global, e essa nova conjuntura internacional impõe desafios ao Banco Central brasileiro. Previa-se que o ciclo da queda dos juros fosse começar na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) deste mês. O secretário do Tesouro, Rogério Ceron, disse que, se o conflito fizer o preço do barril variar entre US$ 75 e US$ 85, não haveria motivos para mudanças nos planos de redução dos juros, mas isso parece mais um desejo do governo do que uma avaliação técnica. Ceron admitiu que uma cotação acima de US$ 100 pressiona a inflação e pode ter outras repercussões.

Pelo Estreito de Ormuz, cujo lado norte é controlado pelo Irã, passa mais de 20% do comércio de petróleo do mundo. O Irã anunciou o bloqueio do canal, ainda que dados de satélite não identifiquem o fechamento total. Mas há notícias de que navios foram atingidos, e a insegurança afeta o tráfego dos petroleiros.

De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), o mercado global está bem abastecido, mas considerando que, de cada cinco barris de petróleo transportados no mundo, ao menos um passa pelo Estreito de Ormuz, não é difícil imaginar as consequências do fechamento do canal.

Quando se reunirem, em duas semanas, os integrantes do Copom terão mais elementos para avaliar a situação, e é imprescindível manter o critério de política monetária adotado até aqui. Ou seja, uma avaliação estritamente técnica, apartada de quaisquer pressões políticas e eleitorais, irá traçar o caminho mais adequado para o País.

Mercados têm reação moderada diante da ofensiva contra o Irã

Por Valor Econômico

A maior preocupação com a guerra é com seus efeitos financeiros, como a valorização do dólar

Os mercados financeiros reagiram com inquietação moderada à mais importante ofensiva militar do governo de Donald Trump, para pôr fim ao regime dos aiatolás no Irã. Enquanto o conflito se alastrava por 12 países do Oriente Médio, os ativos financeiros apresentaram alta moderada ontem, indicando que, por enquanto e com os dados disponíveis, os investidores não preveem uma guerra prolongada e altamente destrutiva. Após subir 13% logo na abertura dos pregões, o petróleo tipo Brent aumentou 6,26%, a US$ 77,43 o barril. O dólar, uma moeda que serve de refúgio em turbulências, avançou 0,9% diante de uma cesta de moedas de países com os quais mais comercia. As bolsas americanas oscilaram para baixo, mas sem perdas significativas. Os títulos do Tesouro americano quase não se moveram, sugerindo de novo que já não são um porto seguro predileto em época de incertezas, papel que parece ter sido em parte transferido ao ouro, que subiu 1,5%.

As avaliações dos ativos guardam relação com o último evento armado de junho, quando EUA e Israel atacaram os locais de enriquecimento de urânio do Irã. O Irã respondeu com moderação, lançando mísseis contra o território israelense, em reação comedida e de curta duração. Com isso, o petróleo subiu logo para US$ 80 o barril, para retroceder rapidamente em uma dezena de dias. Não é possível saber se esse roteiro se repetirá agora.

O regime iraniano abriu fogo contra a infraestrutura de energia dos países vizinhos, mostrando que apesar da intensidade e rapidez dos ataques conjuntos de Israel e EUA ainda mantém alguma capacidade de reação. Ontem a principal planta de produção de gás natural liquefeito (GNL) do Catar foi paralisada após ataques ao complexo de Ras Laffan. O Catar é o maior produtor mundial da commodity e abastece 20% da demanda mundial. China e Índia são grandes consumidores, mas vários países europeus deslocaram suas compras para o Oriente Médio após a Rússia ter cortado seu fornecimento em represália às sanções que lhe foram impostas por invadir a Ucrânia. O preço do GNL no mercado europeu aumentou 48%. Não é possível prever quando a produção será restabelecida, incógnita relevante diante da queda dos estoques europeus ao fim do inverno.

O Irã atacou com drones a maior refinaria da Arábia Saudita, de Ras Tanure, capaz de produzir 550 mil barris por dia. As instalações não sofreram danos significativos, mas a estatal petrolífera do país, Saudi Aramco, resolveu preventivamente suspender as operações. Líder do cartel dos produtores, a Opep, a Arábia Saudita é o país que tem maior capacidade disponível para aumentar a produção.

Os preços dos fretes para cargas no Estreito de Ormuz avançaram mais de 50%. As maiores companhias suspenderam a oferta de seguros para navegação na área. Tanto na interrupção do fluxo de petróleo quanto na paralisação da produção de GNL no Catar é a China, grande compradora das duas commodities. Mas os chineses há seis meses fazem compras para elevar estoques do petróleo, de forma que podem conviver com esta situação por um bom período.

Analistas estimam que entre os males, o fechamento provisório do Estreito de Ormuz é o menor, em relação à destruição ampliada da capacidade produtiva de óleo e gás da região. No primeiro caso, a retomada do escoamento pode ser feita imediatamente. No segundo caso, não. As perdas do conflito estão, nesse momento, majoritariamente concentradas no Oriente Médio. Exportações de GNL compõem 60% do PIB do Catar. A paralisação por tempo indefinido dos maiores hubs aéreos da região (Doha e Dubai, um dos mais movimentados do mundo) indica que o turismo pode sofrer um duro golpe caso o conflito se prolongue, e o setor representa em média 10% do PIB dos países da região.

Tanto pelo aumento do combustível como pela interrupção de sua rota em Ormuz, as bolsas europeias puniram ontem as ações das companhias aéreas e de viagens. As ações nos pregões do continente caíram 2,42% na Alemanha (Dax), e 2,17% (Paris). Como a Europa é mais dependente de petróleo e gás natural liquefeito que os EUA, que é autossuficiente em ambos, os papéis europeus refletiram temor mais intenso de alta da inflação, embora o índice ao consumidor na zona do euro encontre-se hoje em 1,75% abaixo da meta do Banco Central Europeu.

Com o petróleo até US$ 80, as consequências para a economia mundial serão limitadas, estima a Oxford Economics. A inflação americana subiria 0,3-0,4 ponto percentual e se manteria mais distante da meta do que já está (foi de 2,8% em fevereiro), limitando ainda mais a capacidade do Fed de cortar mais os juros.

No caso do Brasil, em que o repasse da alta do petróleo aos preços não é imediata, o JP Morgan calculou que um aumento de 10% no óleo elevaria em 0,2 ponto percentual a inflação e traria ligeiro aumento do PIB (0,1%) porque o Brasil é grande exportador da commodity. A maior preocupação com a guerra é com seus efeitos financeiros, como a valorização do dólar, que tem sido um fator decisivo para o recuo da inflação.

Impactos da guerra vão além da economia

Por Correio Braziliense

Há, agora, mais interesses no front, e a preocupação primeira de um impacto global mais restrito a aspectos econômicos, ainda que sejam volumosos, se torna simplista

Os ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã ganharam novos contornos nesta segunda-feira, se expandindo pelo Oriente Médio e trazendo mais atores ao centro do conflito. Configurado o cenário de guerra regional, qualquer tipo de apaziguamento tende a ficar mais complexo e demorado. Há, agora, mais interesses no front, e a preocupação primeira de um impacto global mais restrito a aspectos econômicos, ainda que sejam volumosos, se torna simplista.

A entrada do Hezbollah é um dos pontos críticos do agravamento da crise. A organização paramilitar que tem relação umbilical com o Irã e base principal no Líbano lançou foguetes e drones no norte israelense em retaliação à morte do líder supremo Ali Khamenei, ocorrida no sábado. Israel respondeu com amplo bombardeio em todo o território libanês, incluindo o entorno da capital, Beirute, e a promessa de que a intensidade dos ataques vai aumentar no país. De imediato, 52 pessoas morreram e ao menos 28 mil foram forçadas a deixar suas casas, segundo a Unidade de Gestão de Desastres do governo local.

É mais gasolina sobre um território em tensão desde 7 de outubro de 2023, quando o Hamas invadiu o sul do Estado judeu por terra, céu e mar, dando início a uma das guerras mais sangrentas na região em décadas. O Hezbollah entrou no confronto no dia seguinte, e , segundo a ONU, a resposta israelense mergulhou os libaneses em um dos momentos "mais mortais da história recente do país", com cerca de 2 milhões de pessoas impactadas pelo conflito desde então. Ainda que o grupo xiita esteja enfraquecido por esse confronto estendido com Israel,  não é exagero esperar que a nova escalada agrave a crise humanitária libanesa, podendo impulsionar, inclusive, nova onda migratória.

Entre os iranianos, a imprevisibilidade quanto ao futuro do país e a divisão interna sobre a legitimidade da ofensiva que matou  os principais líderes também ganham corpo. Trata-se de combinação perigosa, propícia a mais desrespeitos a preceitos humanitários. Ao Correio, a ativista iraniano-americana Masih Alinejad descreveu que seus compatriotas experimentam, ao mesmo tempo, dor e esperança após a morte de Khamenei, e disse esperar represálias, como intimidações, bloqueio da internet e violências mais explícitas. 

No começo do ano, manifestações motivadas pela situação econômica do Irã foram reprimidas com a mão pesada do regime. O governo admitiu 3.117 mortes, mas organizações de direitos humanos calculam o dobro de óbitos e mais de 11 mil pessoas gravemente feridas, além de 42 mil prisões. "A liberdade não é automática. Ela é paga com sangue. É isso que os iranianos estão fazendo: sacrificando sua vida para se livrar dessa ditadura religiosa", avalia a ativista. A expectativa de Masih é de que a ação coordenada dos Estados Unidos e de Israel "rache o sistema de medo" que impera no Irã, tendo como alvo, sobretudo, as mulheres. "A questão não é se as mulheres estão preparadas (para as represálias). Elas estão. A questão é se o regime consegue ainda impor medo. Eu acho que não." 

O certo é que a ampliação do confronto é acompanhada pelo bombardeio de infraestruturas civis, como prédios, aeroportos, escolas e hotéis. A ONU conclama pela "cessação imediata das hostilidades e por um diálogo e negociações genuínas". Ainda que sob grave crise de representatividade, a organização faz seu papel. Quem diz seguir princípios civilizatórios precisa fazer o mesmo: o direito internacional humanitário não pode estar sob a mira de drones e mísseis.

Quando o verde vira obstáculo, o futuro é insustentável

Por O Povo (CE)

Aval para corte de 5 árvores/dia em Fortaleza revela gestões que priorizam o concreto, ignoram a Ciência e agravam o calor. Urge adotar políticas reais de preservação

Os números revelados com exclusividade pela Central de Dados do O POVO escancaram uma realidade que o fortalezense já sente na pele a cada caminhada: a Cidade está perdendo sua sombra e destruindo suas áreas verdes. A autorização do poder público para a derrubada de, em média, cinco árvores por dia desde 2022 é o retrato de modelos de gestão que ignoram a emergência climática em prol da expansão do concreto.

Um dado perturbador desse cenário é a sua institucionalização. Observa-se uma inegável estabilidade dessa prática ao longo das últimas três gestões municipais — de Roberto Cláudio a José Sarto, chegando agora ao governo de Evandro Leitão. A motosserra se tornou uma política de Estado, operando em um modo que supera ideologias partidárias. Trata-se de uma visão anacrônica de progresso, na qual o setor imobiliário — protagonista das solicitações de desmate — tem passe livre, enquanto o patrimônio ambiental é tratado como um obstáculo descartável.

Bairros como Lagoa Redonda, Parque Dois Irmãos e Mondubim tornaram-se o epicentro dessa "tratorada" urbana. Juntos, concentram mais de 30% das 6.683 árvores derrubadas nos últimos anos.

Enquanto as construtoras erguem condomínios e conjuntos habitacionais, a temperatura local sobe e a umidade desaparece. Fortaleza é uma metrópole equatorial onde a árvore não é um luxo paisagístico, mas infraestrutura vital de saúde pública. Ao permitir a remoção da cobertura vegetal, a Prefeitura potencializa as "ilhas de calor" e condena a população ao estresse térmico permanente.

Não basta à Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) alegar o cumprimento de "plantios compensatórios". A matemática ecológica não é linear. Como alertam especialistas da UFC, a doação de mudas frágeis ou o plantio em locais distantes do dano original não recuperam os serviços ambientais perdidos.

Uma muda de 1,8 metro levará décadas para oferecer o sequestro de carbono e o conforto térmico de uma árvore adulta. Além disso, a fragmentação de processos — com empresas obtendo múltiplas licenças sucessivas para o mesmo terreno — levanta suspeitas sobre a fiscalização e a real percepção do impacto acumulado.

É urgente que os gestores de Fortaleza parem de ignorar a Ciência. O urbanismo do século XXI exige que a natureza seja integrada ao desenho da cidade, priorizando o transplantio e a manutenção do que já existe.

A sociedade civil deve exigir que a pauta ambiental ultrapasse o verniz do marketing institucional e se torne uma prioridade prática. Não há futuro viável para uma capital que assina, diariamente, cinco sentenças de morte para o seu verde. Quem corta o amanhã sem distinções ou políticas que priorizem a arborização entrega a Fortaleza um futuro com qualidade de vida decrescente.

 



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