quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

À sombra do Master, Americanas volta à cena, por Nelson Niero

Valor Econômico

Apesar de rebaixado à segunda colocação no ranking de escândalos do país, o caso da varejista ainda promete algumas emoções

No meio do furacão do Banco Master, que veio redefinir a extensão e a profundidade do lodaçal que avança sobre o país, a Americanas (alguém se lembra?) ensaiou uma volta ao noticiário no mês passado, quando a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) elencou 31 réus, entre eles a rede varejista, que teriam sido responsáveis pela “maior fraude corporativa da história do mercado de capitais brasileiro”.

Não tão rápido, regulador. No fim da semana passada, a autarquia aprovou a criação de um grupo de trabalho para “análise técnica de informações relacionadas ao Grupo Master, à Reag e a outras entidades conexas”. Nem é preciso dar alerta de spoiler. Todo mundo sabe que o título já mudou de mãos.

Exatamente três anos depois que a revelação das “inconsistências contábeis” da varejista de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira atingiu em cheio o mercado, a CVM apresentou sua peça de acusação de um dos inquéritos instaurados para dar conta da peça de ficção contábil de R$ 20 bilhões encenada por anos a fio sem que ninguém conseguisse desvendar a farsa.

São duas histórias muito diferentes, com enredos que passam por temas comuns em dramas que viraram livros e chegaram ao cinema como “Enron: Os Mais Espertos da Sala” (2005) e “A Grande Aposta” (2015): cobiça, manipulação e vigias que não impediram o crime.

O script do Master está praticamente escrito, com suas reuniões secretas em mansões frequentadas por poderosos e até um resort no estilo “Ilha da Fantasia” - “O avião! O avião!”, gritava na abertura o ator Hervé Villechaize, no papel de Tatoo - que fica num bairro chamado Laranjal. Não, não é piada.

A trama da Americanas é comparativamente mais modesta. Seus atores primaram pela discrição e pela resiliência - ela foi muito mais duradoura, pelo menos desde 2013 há indícios de manipulação, segundo a investigação da CVM, que ocorreu simultaneamente à feita pelos especialistas contratados pela empresa, o chamado comitê independente, cujas conclusões foram reveladas pelo Valor em 2024.

As 264 páginas produzidas pela Superintendência de Processos Sancionadores da CVM confirmam o ambiente de um “The Office” turbinado e sem graça, no qual um esforço descomunal é feito para montar e manter de pé uma realidade paralela numa fábrica de números e de documentos falsos, cujo objetivo era enganar acionistas e investidores com um pastelão de quinta categoria.

Nada extravagante, nada de festas, modelos e influenciadores. Nenhum ministro ou político. Apenas um elenco entrosado que fazia o que fosse necessário para entregar o resultado que os analistas queriam. Uma assinatura forjada aqui, mais três zeros ali. “Tô tentando aqui aumentar o LL [lucro líquido] mas tá F”, diz uma das mensagens que constam do relatório da CVM.

“Os números a serem atingidos com a fraude tinham por base o orçamento previamente aprovado e não alcançado, ou seja, já partiam de números fraudados”, escrevem os técnicos da autarquia. “Não é complexo, portanto, entender como, no decorrer do tempo, tal situação tornou-se incremental, retroalimentando-se.” Como não imaginar o que não teria sido feito com ajuda da inteligência artificial?

Os auditores, cuja atuação voltou a ser criticada no caso Master, aparecem numa luz ligeiramente positiva nas páginas do relato da CVM. “Durante os processos de auditoria surgia a necessidade de fraudes adicionais, como a confecção de documentos falsos e a adulteração de relatórios a serem entregues aos auditores”, diz um trecho. “Conforme aumentavam as exigências das empresas de auditoria, aumentava também o número de pessoas envolvidas [na fraude]”, de áreas como tecnologia da informação, comercial, jurídico e financeiro.

Os relatos parecem apontar para o que se convencionou caracterizar como um “sequestro” pela administração dos controles internos, o que impediria os “gatekeepers” de desempenhar suas tarefas. Essa teoria, que ganhou força na esteira dos grandes escândalos do início do século, diz que os gestores usam as brechas e fragilidades do sistema de governança para enganar auditores, conselheiros e reguladores. Esse conluio de funcionários, de diferentes níveis da empresa, especialmente na instância decisória, tornaria difícil a detecção das fraudes.

Isso não significa que as auditorias que passaram pela Americanas estão livres de uma possível punição, já que há investigações separadas em curso na CVM sobre a atuação delas, todas do grupo das “quatro grandes” do setor no mundo. A novidade desta vez é que a autarquia resolveu colocar mais gente no barco. Dois inquéritos foram abertos no fim de janeiro para apurar a atuação dos bancos em operações comerciais e nas emissões de valores mobiliários da Americanas, como ofertas públicas de ações. Membros dos conselhos de administração e fiscal e de comitês de assessoramento também serão investigados para se saber se cumpriram suas funções com diligência.

Apesar de já ter sido rebaixado para a segunda colocação no ranking do país pródigo em escândalos, o caso Americanas ainda promete algumas emoções.

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