terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Brasil se encolhe na liderança da América Latina. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O presidente condena ação de Trump na Venezuela, mas não assume a defesa pela restauração da democracia

Ambiguidade faz Lula perder a chance de marcar mandato com papel relevante no cenário internacional

O presidente Luiz Inácio da Silva (PT) tem falado ao telefone com mandatários das Américas e, ao que informa o serviço de comunicação do Palácio do Planalto, os assuntos são a Venezuela e o acordo Mercosul-União Europeia. Até aí, temos o óbvio, dada a atualidade dos temas.

O que não temos é conhecimento sobre o conteúdo das conversas, além do agrado pelo avanço do tratado e da atenção preocupada com a investida de Donald Trump sobre o regime inaugurado por Hugo Chávez mais ou menos no mesmo tempo em que se iniciaram as tratativas para a criação da zona de livre comércio, em 1999.

Lula precisaria oferecer mais do que isso aos públicos interno e externo para conseguir conjugar sua pretensão de liderança regional ao plano de ocupar espaço relevante no cenário mundial neste terceiro mandato.

A ideia de faturar politicamente a assinatura do acordo enquanto o Brasil estivesse na presidência rotativa do Mercosul naufragou no adiamento do ato para janeiro, um mês depois de vencido o prazo para que Lula pudesse avocar para si o feito.

Para garantir o destaque, restaria e, sobretudo, caberia ao presidente brasileiro assumir a linha de frente na defesa pela retomada da democracia na Venezuela.

Ao que consta, no entanto, não tem sido essa a articulação de Lula em seus contatos com os chefes de Estado da região.

O presidente optou por se manter na retranca: não cobrar o reconhecimento da legitimidade da oposição que ganhou a eleição de 2024 e aceitar a ofensiva de Trump, a fim de deixar como está para ver como é que fica.

A alegação é estratégica. Tem a ver com a preservação da estabilidade regional e com não prejudicar a relação com Washington até se clarearem os rumos dos acontecimentos em Caracas.

Prudência é boa conselheira, mas quando excessiva pode levar o prudente —no caso, o governo brasileiro— a perder a chance de ter participação ativa no avanço democrático para se tornar refém do atraso autoritário.

 

Nenhum comentário: