Folha de S. Paulo
O presidente condena ação de Trump na
Venezuela, mas não assume a defesa pela restauração da democracia
Ambiguidade faz Lula perder a chance de
marcar mandato com papel relevante no cenário internacional
O presidente Luiz Inácio da Silva (PT) tem falado ao telefone com mandatários das Américas e, ao que informa o serviço de comunicação do Palácio do Planalto, os assuntos são a Venezuela e o acordo Mercosul-União Europeia. Até aí, temos o óbvio, dada a atualidade dos temas.
O que não temos é conhecimento sobre o
conteúdo das conversas, além do agrado pelo avanço do tratado e da atenção
preocupada com a investida de Donald Trump sobre
o regime inaugurado por Hugo Chávez mais
ou menos no mesmo tempo em que se iniciaram as tratativas para a criação
da zona de livre comércio, em 1999.
Lula precisaria oferecer mais do que isso aos
públicos interno e externo para conseguir conjugar sua pretensão de liderança
regional ao plano de ocupar espaço relevante no cenário mundial neste terceiro
mandato.
A ideia de faturar politicamente a assinatura
do acordo enquanto o Brasil estivesse na presidência rotativa do Mercosul naufragou
no adiamento do ato para janeiro, um mês depois de vencido o prazo para que
Lula pudesse avocar para si o feito.
Para garantir o destaque, restaria e,
sobretudo, caberia ao presidente brasileiro assumir a linha de frente na defesa
pela retomada da democracia na Venezuela.
Ao que consta, no entanto, não tem sido essa
a articulação de Lula em seus contatos com os chefes de Estado da região.
O presidente optou por se manter na retranca:
não cobrar o reconhecimento da legitimidade da oposição que ganhou a eleição de
2024 e aceitar a ofensiva de Trump, a fim de deixar como está para ver como é
que fica.
A alegação é estratégica. Tem a ver com a preservação
da estabilidade regional e com não prejudicar a relação com Washington até se
clarearem os rumos dos acontecimentos em Caracas.
Prudência é boa conselheira, mas quando
excessiva pode levar o prudente —no caso, o governo brasileiro— a perder a
chance de ter participação ativa no avanço democrático para se tornar refém do
atraso autoritário.

Nenhum comentário:
Postar um comentário