Valor Econômico
Diferença de 0,1 ponto percentual em pesquisa fez o chão tremer para a ala racional do PT
Ninguém irá passar recibo, mas a sucessão de reveses nos últimos dias dividiu o time lulista entre os sinceramente preocupados, os aflitos e os negacionistas. Estes minimizaram o resultado da pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada na quarta-feira (25), que mostrou pela primeira vez o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) numericamente à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na simulação de segundo turno: 46,3% a 46,2%, respectivamente. Uma diferença de 0,1 ponto percentual, que fez o chão tremer para a ala racional do PT.
O levantamento que ouviu 4.986 pessoas entre
19 e 24 de fevereiro mostrou um crescimento relevante de Flávio em relação à
rodada anterior, quando os percentuais eram de 49,2% para o petista e 44,9%
para o adversário. O repórter especial do Valor César Felício observou que os números
representariam o estrago na imagem de Lula provocado pelo desfile da
“Acadêmicos de Niterói”, que na homenagem ao petista, fez críticas aos
conservadores que a oposição transformou em ataques às famílias brasileiras,
fazendo barulho nas redes sociais. Para a turma negacionista do PT, entretanto,
a repercussão nas plataformas digitais teria sido obra de “robôs”.
Um dia depois da divulgação da pesquisa, a
explosão de nervos com a aprovação na comissão parlamentar mista de inquérito
(CPMI) do INSS da quebra de sigilo fiscal do filho mais velho do presidente,
Fábio Luís Lula da Silva, ficou evidente com a troca de socos entre deputados
no plenário da comissão, com transmissão em tempo real para todo o país.
A bancada governista recorreu do resultado,
acusando o presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG) de violar o
regimento na apuração dos votos. Simultaneamente, entretanto, surgiu a notícia
de que o relator do processo sobre as fraudes no Instituto Nacional do Seguro
Social (INSS), ministro André Mendonça, havia deferido a quebra do sigilo de
“Lulinha”, a pedido da Polícia Federal (PF).
O cenário, na descrição de um petista
escaldado pelas crises, é de bate-cabeça no governo e no partido. “Não tem
comando, não tem [pré-]campanha nos Estados, não tem coordenação política”.
A percepção de um grupo é que a esquerda não
bateu em Flávio até agora porque o “Palácio do Planalto quis escolher o candidato”.
Ou seja, o senador, cheio de “esqueletos no armário” - mas que vem sendo
poupado de ataques -, seria um adversário menos difícil do que o governador
paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos). Em contrapartida, outra ala tem
receio de perder o “timing” para começar a desconstruir o adversário do PL. E
se for tarde demais? Outro governista calejado de crises minimiza o quadro: “a
campanha nem começou”.
Nessa conjuntura de “vaca não reconhecer
bezerro”, como diria um político dos grotões, a saída foi chamar o marqueteiro.
O ministro da Secretaria de Comunicaçào Social, Sidônio Palmeira - que deverá
se afastar do cargo em julho para assumir a coordenação da campanha lulista - é
esperado para uma reunião com deputados do PT na próxima semana, a convite do novo
líder, Pedro Uczai (SC).
Há apreensão com a indefinição dos palanques
nos dois maiores colégios eleitorais. Nessa quinta-feira, circulou a notícia de
que Lula teria convencido o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a se
candidatar ao governo de São Paulo. E o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) também
teria cedido aos apelos para concorrer ao governo de Minas Gerais, com o
suposto apalavrado de que se não ganhar, seria a próxima indicação para o
Supremo Tribunal Federal (STF).
Petistas se queixam da falta de comando na
votação do PL antifacção, pela não exigência de votação nominal do destaque que
excluiu a tributação de 15% sobre bets, que renderia R$ 30 bilhões para a
segurança pública. Com a votação simbólica, o governo não pode apontar o dedo
para quem se opôs ao recurso para o setor. Enquanto isso, um dos discursos de
Flávio é de que o governo Lula seria omisso na segurança pública.
O PT também se irritou com a fala do ministro
da Justiça, Wellington César Lima e Silva, que concordou com uma consulta popular
sobre a redução da maioridade penal, prevista no relatório do deputado Mendonça
Filho (União Brasil-PE) na proposta de emenda constitucional (PEC) da segurança
pública.
A declaração contraria uma posição histórica
do partido, e resultou em nota de repúdio da bancada do PT: “A proposta, além
de politicamente retrógrada, incorre em teratologia jurídica, tendo em vista
que os direitos fundamentais de crianças e adolescentes integram o núcleo
intangível da Constituição Federal e, portanto, não são passíveis de
deliberação por maiorias eventuais”.
Nos anos 90, o publicitário Washington
Olivetto, morto em 2024, fundador da “W/Brasil”, convidou Jorge Ben Jor a
compor uma música para o aniversário da agência. A letra tem críticas aos
problemas do Brasil, da violência à política, mencionando o confisco de Collor:
“Lá da rampa mandaram avisar/ Que todo dinheiro será devolvido/ Quando setembro
chegar/Num envelope azul índigo/Chama o sindico! Tim Maia!” Num cenário de caos
e reveses para o PT e para o Brasil, com a crise do Master assombrando os
Poderes, a saída é chamar o marqueteiro. Alô, alô, lá vem o Brasil, descendo a
ladeira.

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