O Globo
Lembrai-vos da CPI da Americanas, um exemplo
de CPIzza
O caso do Banco Master tornou-se radioativo.
O Banco Central teve mais de um ano para enquadrá-lo e frangou o tamanho da
fraude. O ministro Dias Toffoli tomou as rédeas do inquérito e embrulhou-se. O
Supremo Tribunal Federal (STF) tirou-o do caso, mas, no mesmo lance,
solidarizou-se com ele. (Como isso é possível, só o tempo dirá.) Uma parte do
Congresso quer uma CPI; outra prefere apenas interrogar Daniel Vorcaro, dono da
encrenca e arquivo vivo de suas ramificações.
Nessa confusão, em Brasília atira-se para todos os lados, menos para o alvo: as conexões de Vorcaro. Não deixa de ser curioso que, enquanto o tiroteio toma conta da agenda, a única instituição que vem investigando com sucesso o material radioativo é mantida ao largo da agenda. Trata-se da Polícia Federal (PF), a que se devem as poucas novidades saídas da caixa-preta do Master.
Por incrível que pareça, a criação de uma CPI
traz mais riscos que esperanças. A CPI da fraude das Lojas Americanas ainda
está na memória. Aquela CPIzza terminou num vexame. Não responsabilizou
viv’alma nem ouviu os grandes acionistas da empresa. Quando terminou, havia
deputados denunciando deputados, e só.
Vorcaro quer um microfone para
responsabilizar o Banco Central, o governo quer proteger sua tropa, e parte da
oposição quer manter as investigações longe de seus afortunados parlamentares.
Com essas forças chocando-se na discussão do problema, só havia uma resultante
possível: o sigilo. O ministro Dias Toffoli bem que tentou. Teve a má sorte de
encrencar-se com a Polícia Federal, e deu no que deu.
A saída de Toffoli da relatoria jogou na
agenda o que seria o vazamento, a partir de um grampo, de uma reunião fechada
do STF. Beleza, sorteia-se um novo relator, e o crime estaria num provável
grampo, que revelou com fidelidade o desfecho do problema. Ministros do Supremo
querem identificar e punir os responsáveis pelo vazamento. Tudo bem, desde que
prossigam as investigações da PF.
O estouro do Master começou com um banco fraudando
operações e lesando fundos de pensão de servidores. Essa rede de tramoias vinha
das conexões de Vorcaro, azeitadas por negócios, eventos e festas. Uma parte
dessas conexões está guardada nos 52 aparelhos celulares do banqueiro e de seus
diretores. Esse material está com a PF, que até agora não o mostrou, nem ao
STF.
É por aí que a maior fraude bancária de
Pindorama poderá vir à luz. Nessa trama, Vorcaro é um detalhe, como detalhes
foram os Magalhães Pinto do Banco Nacional e os Calmon de Sá do Econômico. Os
banqueiros arruinados são a parte móvel de um elenco. Ora é um, ora é outro,
até que chega o próximo. A trama é sempre a mesma e passa pelas conexões desses
bancos com o andar de cima da política de Pindorama. (Na receita do Econômico e
do Nacional, havia ex-ministros no pódio.)
Se as combinações de Brasília resultarem numa
CPI para o Master, tudo bem, desde que não atrapalhe nem tente obstruir o
trabalho da PF. Tentou-se e não deu certo.

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