terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Democracia como limite. Por Merval Pereira

O Globo

As milícias armadas pelo chavismo/madurismo espalham terror pelas ruas na Venezuela, e a insegurança jurídica impede que se faça um planejamento de longo prazo para o país.

A estratégia de Donald Trump de não invadir a Venezuela, mas transformar o governo chavista em marionete manipulada à distância, como se fosse um drone teleguiado, esbarra em detalhes fundamentais: a violência interna está aumentando, com repressão até mesmo aos que apoiam os Estados Unidos. As milícias armadas pelo chavismo/madurismo espalham terror pelas ruas, e a insegurança jurídica impede que se faça um planejamento de longo prazo para o país.

Esta última razão explica quase toda a relutância que as grandes companhias de petróleo têm em investir largas somas de dólares na recuperação do sistema petrolífero venezuelano, que não atua nem com 10% da capacidade, pois está destruído por falta de manutenção, quando não desatualizado. Nenhuma petrolífera injetará bilhões a longuíssimo prazo na Venezuela diante de uma situação incerta, em que ninguém sabe quem manda, quem não manda, quais são as regras, se são as dos Estados Unidos ou da ditadura venezuelana.

Trump claramente não invadiu com tropas o país pela ojeriza da maioria da sociedade americana às guerras de ocupação dos últimos anos, que deram errado e provocaram milhares de mortos e incapacitados. O próprio movimento Make America Great Again (Maga) não apoia intervenções internacionais, considerando, como Trump prometeu na campanha, que os esforços internos devem ser a prioridade do governo.

Ser um ditador at large pode parecer boa ideia em teoria, mas a prática dessa modalidade de intervenção não parece muito viável. Trump já disse que as leis internacionais só funcionam quando coincidem com seus pontos de vista, o que basta para entender que a democracia e o Direito Internacional não são obstáculos a seus desígnios. A democracia nunca foi seu regime preferido, infere-se de suas palavras e atos. Mas onde não existe o equilíbrio que só a democracia fornece, com segurança jurídica, não há condições de investimentos de longo prazo.

Ou isso, ou então uma ditadura como a chinesa — onde a estabilidade do capitalismo de Estado é garantida. Certa vez, numa mesa de debates sobre a China no Fórum Econômico Mundial em Davos, vários empresários americanos com investimentos por lá foram questionados se não temiam uma mudança de regras abrupta. Um deles deu uma resposta que nunca esqueci:

— Já ganhamos tanto dinheiro lá que não fará diferença.

Na Venezuela existem, digamos assim, uma intervenção branca dos Estados Unidos e um governo organizado em torno de normas ditatoriais que ninguém sabe quais são, mas que continuam em vigor. Trump aparentemente prossegue com sua política expansionista, de olho na Groenlândia e já nomeando o secretário Marco Rubio como futuro presidente de uma Cuba retomada pelas forças americanas. Se acontecer, será mais uma guerra decretada por questões familiares.

A invasão do Iraque pode ser vista como revanche de Bush filho para compensar a impossibilidade de Bush pai de derrubar Sadam Hussein, quando os Estados Unidos, em 1991, lideraram a coalizão para libertar o Kuwait do Iraque. Agora, a família de Rubio, que saiu de Cuba pouco antes da tomada do poder pelos guerrilheiros liderados por Fidel Castro, voltaria ao país natal com o poder imposto pelos americanos. O próprio Rubio descreveu em suas memórias um sonho:

— Eu me gabava de que um dia lideraria um exército de exilados para derrubar Fidel Castro e me tornaria o presidente de uma Cuba livre.

Trump começará a cair na real, não é só a força que resolve. A democracia permite estabilidade a longo prazo para que as empresas possam fazer planejamento sem grandes surpresas. Essa é a vantagem das democracias, e é a grande desvantagem quando elas não são organizadas minimamente na economia. A tendência é que uma hora o petróleo fique superado como fonte de energia. Trump tem mais três anos à frente do governo, e os investimentos que propõe às petrolíferas na Venezuela são de em torno de dez anos para colocar de pé a indústria.

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