Folha de S. Paulo
Trump disse que acertou transição com vice,
Delcy Rodríguez, para quem a luta continua
Os subs de Maduro, Delcy, general Padrino e
Cabello, continuavam no poder até sábado de tarde
Donald Trump diz
que os EUA vão "administrar" a Venezuela até
uma transição "segura, adequada e criteriosa". Trump entraria em um
pântano tal qual Afeganistão e Iraque?
Improvável, pois a base popular dele detesta a ideia, que de resto custaria
caro.
Como seria, então? Trump disse apenas que
Marco Rubio, seu secretário de Estado, ferrabrás da direita, havia conversado
com Delcy Rodríguez, vice-presidente de Nicolás Maduro, presidente-ditador até
sexta passada (2). Faz sentido?
Importa, até para discutir consequências do ataque. Por ora, sabe-se que: 1) O império fora da lei de Trump levou Maduro; 2) Houve "recado", como disse Rubio: Trump "não está para brincadeira", alerta para outros governos, pelo menos para aqueles que não têm armas, como as têm China e Rússia; 3) A América Latina pode levar bomba como um Irã e deveria entrar na linha, indicam os americanos.
"Trump levou Maduro" é
propositadamente vago. Maduro foi traído? Foi entregue de modo mais pensado por
gente do regime? Gente que vai ficar no poder? Que vai organizar uma transição
transada? Em tese, se lei vale algo na Venezuela, depois de um tempo de ausência
do presidente, de até 180 dias, deveria haver eleição. Se não houver eleição,
Trump ataca a Venezuela de novo? Estrangula o país até o colapso econômico (há
bloqueio naval e aéreo)? Ou Trump quer um acerto sem eleição, por longo tempo?
Delcy Rodríguez manda na economia e, em
parte, no petróleo. O general Vladimir Padrino, ministro da Defesa, manda nas
Forças Armadas desde 2013. O ministro do Interior, Diosdado Cabello, chavista
"raiz", manda na espionagem, na propaganda, em parte das milícias e
tem amigos militares. Rodríguez tem bala para fazer a "transição"?
Padrino e Cabello vão tentar manter o regime para manter o pescoço? Como
acertariam com Trump a ficção de que vão patrocinar a mudança? No fim da tarde
de sábado, a vice Rodríguez ao menos fazia pose de "a luta continua".
Suponha-se que a diplomacia das canhoneiras
de Trump venha a funcionar. Isto é: 1) Está liberado atacar um país à vontade,
sem ao menos homenagem hipócrita à lei americana ou internacional; 2) O mundo
quase inteiro passa a temer ameaça de bomba; 3) Eliminam uma criatura e,
talvez, um regime repulsivo.
Assim, a barbárie militar imperial ganha, no
curto prazo. De passagem: nesse caso, como fica o Brasil, que fez a condenação
mais precipitadamente dura ao ataque? Se o império se der bem, o Brasil fica
meio isolado no mundo —europeus na prática apoiaram Trump ou fizeram crítica
protocolar. Fica em minoria na América Latina, além de sujeito a sanções
americanas.
Pode não acontecer nada: a Venezuela
afundaria mais em opressão e miséria. Difícil de acreditar, pois os EUA de
Trump, do nacionalismo e da guerra tecno-econômica global, querem que o
comércio se transforme em arma e que as armas sirvam aos negócios. A agressão
tem de ter eficácia.
Maduro serve bem de exemplo. Tal como Trump,
é sinistro e ridículo. É um Saddam Hussein do bolero, bananeiro, de novela
venezuelana dos anos 1970. Arruinou de vez o país: a renda (PIB) per capita
caiu 59% desde 2013 (ano da morte de Hugo Chávez). Moram cerca de 30 milhões de
pessoas na Venezuela; cerca de 7 milhões migraram. O governo é corrupto, em
parte dominado por militares, que ganharam uma petroleira e controlam a
mineração.
O futuro imediato da Venezuela é incerto. No
presente, os EUA são um país descaradamente pirata.
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