domingo, 4 de janeiro de 2026

Quem manda agora na Venezuela? Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Trump disse que acertou transição com vice, Delcy Rodríguez, para quem a luta continua

Os subs de Maduro, Delcy, general Padrino e Cabello, continuavam no poder até sábado de tarde

Donald Trump diz que os EUA vão "administrar" a Venezuela até uma transição "segura, adequada e criteriosa". Trump entraria em um pântano tal qual Afeganistão e Iraque? Improvável, pois a base popular dele detesta a ideia, que de resto custaria caro.

Como seria, então? Trump disse apenas que Marco Rubio, seu secretário de Estado, ferrabrás da direita, havia conversado com Delcy Rodríguez, vice-presidente de Nicolás Maduro, presidente-ditador até sexta passada (2). Faz sentido?

Importa, até para discutir consequências do ataque. Por ora, sabe-se que: 1) O império fora da lei de Trump levou Maduro; 2) Houve "recado", como disse Rubio: Trump "não está para brincadeira", alerta para outros governos, pelo menos para aqueles que não têm armas, como as têm China e Rússia; 3) A América Latina pode levar bomba como um Irã e deveria entrar na linha, indicam os americanos.

"Trump levou Maduro" é propositadamente vago. Maduro foi traído? Foi entregue de modo mais pensado por gente do regime? Gente que vai ficar no poder? Que vai organizar uma transição transada? Em tese, se lei vale algo na Venezuela, depois de um tempo de ausência do presidente, de até 180 dias, deveria haver eleição. Se não houver eleição, Trump ataca a Venezuela de novo? Estrangula o país até o colapso econômico (há bloqueio naval e aéreo)? Ou Trump quer um acerto sem eleição, por longo tempo?

Delcy Rodríguez manda na economia e, em parte, no petróleo. O general Vladimir Padrino, ministro da Defesa, manda nas Forças Armadas desde 2013. O ministro do Interior, Diosdado Cabello, chavista "raiz", manda na espionagem, na propaganda, em parte das milícias e tem amigos militares. Rodríguez tem bala para fazer a "transição"? Padrino e Cabello vão tentar manter o regime para manter o pescoço? Como acertariam com Trump a ficção de que vão patrocinar a mudança? No fim da tarde de sábado, a vice Rodríguez ao menos fazia pose de "a luta continua".

Suponha-se que a diplomacia das canhoneiras de Trump venha a funcionar. Isto é: 1) Está liberado atacar um país à vontade, sem ao menos homenagem hipócrita à lei americana ou internacional; 2) O mundo quase inteiro passa a temer ameaça de bomba; 3) Eliminam uma criatura e, talvez, um regime repulsivo.

Assim, a barbárie militar imperial ganha, no curto prazo. De passagem: nesse caso, como fica o Brasil, que fez a condenação mais precipitadamente dura ao ataque? Se o império se der bem, o Brasil fica meio isolado no mundo —europeus na prática apoiaram Trump ou fizeram crítica protocolar. Fica em minoria na América Latina, além de sujeito a sanções americanas.

Pode não acontecer nada: a Venezuela afundaria mais em opressão e miséria. Difícil de acreditar, pois os EUA de Trump, do nacionalismo e da guerra tecno-econômica global, querem que o comércio se transforme em arma e que as armas sirvam aos negócios. A agressão tem de ter eficácia.

Maduro serve bem de exemplo. Tal como Trump, é sinistro e ridículo. É um Saddam Hussein do bolero, bananeiro, de novela venezuelana dos anos 1970. Arruinou de vez o país: a renda (PIB) per capita caiu 59% desde 2013 (ano da morte de Hugo Chávez). Moram cerca de 30 milhões de pessoas na Venezuela; cerca de 7 milhões migraram. O governo é corrupto, em parte dominado por militares, que ganharam uma petroleira e controlam a mineração.

O futuro imediato da Venezuela é incerto. No presente, os EUA são um país descaradamente pirata.

 

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