Folha de S. Paulo
Aconselho não dar ouvidos a ninguém que não
as respeite na campanha deste ano
Proponho regras para assegurar que o debate
de ideias seja proveitoso na próxima campanha
Graças ao fracasso do bolsonarismo na eleição
de 2022, ao fracasso do bolsonarismo no golpe de 2022-2023, ao fracasso do
bolsonarista Luiz Fux no STF e ao
fracasso do bolsonarismo na tentativa de mobilizar Donald Trump contra
a democracia brasileira, o Brasil terá eleições livres para presidente no final
deste ano.
Nessa primeira coluna de 2026, proponho regras para assegurar que o debate de ideias seja proveitoso na próxima campanha.
Primeiro e mais importante: o meme
"bolsonarismo moderado" tem que morrer. A tentativa de moderar o
bolsonarismo foi um fracasso abissal. Ninguém moderou Jair, mas Jair
radicalizou todos os governadores oportunistas que lambiam sua baba no chão da
avenida Paulista.
Os bolsonaristas estavam trabalhando
avidamente com os EUA para travar a economia e a democracia brasileiras até o
mês passado.
Já anunciaram para este ano uma ofensiva na
eleição para o Senado com objetivo explícito de matar o STF. Quer votar em
fascista, meu amigo, vá em frente, não sou sua mãe: mas sem papo furado de
moderação.
Segundo: só pode falar em
"polarização" quem mostrar medidas concretas tomadas pela esquerda
desde 2018 que se comparem, em radicalismo, ao que a direita fez sob liderança
de Bolsonaro.
Se você não souber de uma guerrilha maoísta
secreta sendo treinada na casa da Gleisi, guarde o tema "polarização"
para falar, por exemplo, das velhas disputas PT vs. PSDB (onde os dois lados,
de fato, perderam completamente o senso de proporção).
Terceiro: só pode pedir autocontenção ao STF
quem primeiro provar que sabe fazer o Congresso assumir a liderança do combate
ao golpismo. Isso mesmo, esse Congresso aí que passou revisão de dosimetria.
Boa sorte, filho.
Quarto: só pode criticar a esquerda por
privilegiar pautas "identitárias" quem assinar um manifesto
defendendo reforma agrária com conversão do agronegócio em kibutzim autogeridos
pelos trabalhadores, negociação salarial coletiva como existe na Escandinávia,
redução drástica da jornada de trabalho e alíquota mínima de imposto de renda
de 40% para as rendas muito altas.
Se você não sabe resolver o problema do poder
de barganha da classe trabalhadora no mercado globalizado, não encha o saco
sobre identitarismo. O ideal seria você não encher o saco por isso nunca, mas,
como se pode ver, minhas regras são altamente tolerantes e centristas.
Quinto: todo mundo tem que falar sobre o
estado das contas públicas.
Sexto: quando alguém falar sobre ajuste
fiscal, não pode mentir que a solução é eliminar ineficiências, acabar com a
corrupção ou taxar os ricos.
Sou a favor disso tudo, mas, mesmo se
implementássemos o pacote inteiro ao mesmo tempo e em grau absoluto (o que é
impossível), a conta ainda não fecharia.
É preciso dizer, com todas as letras, que
gastos com coisas populares você diminuiria ou que benefício para setores
politicamente poderosos no Congresso você eliminaria.
Sétimo: se não for para cumprir a cláusula
sexta, por favor não cumpra a cláusula quinta.
Enfim, não tenho como obrigar ninguém a
cumprir minhas regras, por mais que elas me pareçam elementares deduções do bom
senso. Mas aconselho você a não dar ouvidos a ninguém que não as respeite na
campanha deste ano.

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